8 nov 2020

Goog-bye Trump

                 O dia seguinte ao da sua toma de possessão como Presidente doe EEUU de América, o 21/01/2017, escrevi um artigo titulado «Trump: a provocação e o egoísmo exclusivista», que se pode ler em Nosdiario.gal, no que infelizmente acertei na descrição do que representaria a sua governança. Hoje despedimo-lo com toda alegria porque consideramos que se põe fim, polo menos provisório, a uma etapa negra na história da humanidade e do mesmo planeta no que vivemos.

                 Trump representou o triunfo das ocorrências, que se pôs de relevo no recurso aos twitters, muitas vezes intempestivos e pouco meditados, como meio de comunicação com a cidadania. Com isto evita ter programas sérios e coerentes de atuação em vez de acudir às bravatas momentâneas. Representa o triunfo do despotismo reacionário, ou seja no capricho como modo de atuação, a não submissão a normas e o desprezo dos governados que não apoiam a política do líder. Um bom dia pactua com México, mais dias mais tarde racha o pacto. O triunfo da arbitrariedade vai de par com o desprezo da ciência e da própria natureza até limites incríveis. Todo o que contraria os seus interesses de classe é negado: nega o câmbio climático, o coronavirus.

                 O governante do país mais poderoso da Terra pôs todo o seu empenho em eliminar o seguro médico que pagam os indivíduos do seu país e não o governo, se bem recebem ajudas deste em caso de não superar o quádruplo do limiar da pobreza, com a finalidade de que ninguém deixe de ter um seguro em casos de doença. Isto facilitou que o coronavirus segasse a vida de milhares de cidadãos estadunidenses, com uma atitude de passividade e de provocaç4ao do seu governo federal. Esta política contra as classes mais baixas da sociedade foi de par com uma rebaixa elevada dos impostos aos ricos, o qual indica que só olhou para a sua classe social.

                 Segundo ele, o governante sabe mais que todos os científicos no que se refere ao câmbio climático, que se traduziu no incremento da extração de cru por parte das multinacionais de EEUU, incrementando os ganhos das empresas e contribuindo assim mais à contaminação atmosférica e, paralelamente, na retirada do acordo de Paris por parte de EEUU, obrigando aos demais países a assumir em solitário a luta contra o câmbio climático. Isto somente pode ser obra do maior egoísmo insolidário que conheceu a humanidade.

                 Este governo classista que diminui os impostos pagados polos ricos e rebaixou as ajudas aos mais pobres, incrementou as desigualdades sociais e as tensões internas e a polarização dos governados, criando do caldo de cultivo para a radicalização e explosão social, em pessoas já muito sensibilizadas com certas atuações policiais. A sua reação perante a eleição de Biden como presidente indica que, para Trump, o resultado eleitoral só é democrático e constitucional se ele ganha; aliás, negou-se a cerrar cárcere de Guantánamo, apesar de quebrantar todas as normas de direito internacional.

                 Essa atuação incoerente e arbitrária levou-a também às relações internacionais, de tal modo que um país chamado teoricamente a liderar o futuro da humanidade, está mais isolado que nunca, e, portanto, incapacitado para liderar os demais países. É difícil saber quem são os seus amigos, mas sim é muito fácil detetar por todas partes os seus inimigos e os que estão desconformes com a sua política: China, UE, e não digamos já países como Cuba, Venezuela, Bolívia, Irão... Com este último país rachou também o acordo que assinara com EEUU, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha, para congelar o seu programa nuclear, que teve como consequência que lhe seja agora mais fácil ao país asiático lograr os seus objetivos de dotar-se com a bomba atômica. Parece que é o único meio de dotar-se de segurança. Com Cuba converteu também em papel molhado o acordo que assinara com Obama.

                 Damos-lhe a bem-vinda a Biden, ainda que devemos ter claro que Europa tem que construir autonomamente o seu caminho. Contudo, creio que podemos dizer que a nova administração americana tem à sua frente pessoas mais sérias, com as que se pode dialogar, e que cumprirá os acordos que se possam alcançar. Consideramos muito positivo que se comprometesse a respeitar os acordos de Paris sobre o câmbio climático.

23 oct 2020

Declarações do papa Francisco sobre a homossexualidade

                O 21/10/2020 os mídia recolhem umas declarações do papa Francisco nas que se mostrou favorável a que possa haver uma lei de uniões civis para os homossexuais. "Os homossexuais têm direito a estar numa família. O que deve haver é uma lei de união civil, dessa maneira estão cobertos legalmente”. Sublinham os meios de comunicação e os comentaristas que, ainda que não fala de matrimônio, é um enorme passo muito valente na posição da igreja, que se contentou até o momento de falar da sua reeducação, e solucionava o problema com exercícios espirituais.

                O nosso objetivo neste artigo é precisar o alcanço que podem ter estas declarações do máximo hierarca católico, que tem um poder omnímodo sobre todos os demais, incluídos os próprios concílios. Este pronunciamento segue a outros relativos aos celibato clerical, que o papa Francisco decidiu aparcar ad calendas grecas depois de ter reconhecido que não há nenhum obstáculo em proceder à sua reforma por tratar-se dum tema propriamente eclesiástico e não dogmático, produzindo grande decepção nos sectores progressistas da igreja. O que temos que perguntar-nos é que credibilidade merece neste tema sobre o qual a Bíblia se pronuncia dum modo totalmente hostil e sem deixar margem para dúvida de nenhuma classe.

                Deixando para outra ocasião o pronunciamento do Antigo Testamento, imos cingir-nos ao misógino e misossexual Paulo de Tarso, que foi quem serviu de referência à doutrina sexual e reprodutiva do cristianismo. Foi o hagiógrafo neo-testamentário que tratou mais in extenso o tema da homossexualidade, e o seu posicionamento é claramente hostil e condenatório, tanto dos gays como das lesbianas, qualificando os atos homossexuais de concupiscências dos seus corações, imundícia, desonra dos seus corpos e paixões infames por ter obrado em contra da natureza humana, como se a misossexualidade não implicasse obrar em contra da natureza humana. Na Epístola aos Romanos, 1, 24-27, escrita no ano 60, diz dos gentios: “Por isso Deus os entregou, nas concupiscências de seus corações, à imundícia, para serem os seus corpos desonrados entre si; pois trocaram a verdade de Deus pola mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito eternamente. Amém. Polo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”. A pena que lhe deve ser infligida é a morte segundo estabelece o veredito divino no Antigo Testamento. “os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que tais cousas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam”. O seu destino no mundo de além-túmulo é a condena eterna. “Não vos enganeis: nem os dissolutos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbedos, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus”. Na I Epístola a Timóteo, 1, 10, pseudoepigráfica, do ano 100, declara o seu autor que a lei é boa se se usar bem, e não foi instituída para o justo senão para os prevaricadores e rebeldes, entre eles os  “dissolutos, os sodomitas, os roubadores de homens, os mentirosos, os perjuros, e para todo que for contrário à sã doutrina”. Com estes pronunciamento fica fixada com letras indeléveis e per saecula saeculorum uma doutrina profundamente homófoba que é incapaz de compreender e tolerar ao que tem outras opções sexuais, muito legítimos, por mais que não as compartilhemos.

                O problema de Francisco é querer e não poder. Ele sabe bem que os seus contrários são os que melhor respeitam uns textos que ousam proclamar que estão inspirados por Deus. Com estas premissas é totalmente impossível realizar reforma nenhuma digna de tal nome na igreja e os hierarcas devem contentar-se com declarações altissonantes de cara á galeria, porque não são capazes de dar resposta ajeitadas aos problemas do mundo de hoje..

  

12 oct 2020

Os soberanos de facto no Estado espanhol

                 A soberania é o poder de decisão derradeiro e definitivo. É soberano aquele que manda em última instância sobre os demais poderes. Historicamente o soberano era o monarca, como por exemplo, nas monarquias tradicionais e nas monarquias absolutas. Nas monarquias parlamentarias, surgidas após a Revolução Francesa, a soberania recai no povo, enquanto que o monarca tem um poder simbólico, de caráter moderador e nunca um poder de decisão real. Por isso, nunca deve meter-se na luta política partidária, que é questão dos que foram encostados polas urnas, senão que deve guardar a neutralidade. Este tipo de monarquia é a que ficou plasmado na CE de 1978.

                Na Espanha borbônica os seus monarcas nunca souberam acomodar-se ao seu rol, e, por conseguinte, foram sempre monarcas anticonstitucionais. Afonso XIII promoveu um golpe de Estado; quando Adolfo Suárez lhe disse ao rei Juan Carlos I, que ele tinha mais autoridade porque estava apoiado polo voto do povo espanhol, o monarca retrucou-lhe que ele estava apoiado por 700 anos de história, e, portanto, para ele, a herança contava mais que o apoio popular. Neste caso, a soberania é um produto histórico, de caráter familiar e não uma soberania popular. Felipe VI adotou uma linha ainda mais anticonstitucional que o seu pai. Ele considera que pode dirigir-se aos catalães com a ameaça de ir a por eles, rompendo qualquer neutralidade e atuando de acordo com o princípio de que, em derradeira instância, ele é quem manda. Isto implica que o problema catalão e o dos demais povos do Estado espanhol dificilmente vão ter uma solução política, porque, segundo parece, os que teriam que pô-la em prática submetem-se aos ditados da Coroa, em vez de atuar como representantes da soberania popular, da que os catalães formam uma parte significativa.

                Esta atuação anticonstitucional do rei foram ratificadas polas declarações da presidenta de Madrid, Ayuso, nas que manifestou que “crê que Sánchez pretende cambiar o país «pola porta de atrás», mas a «justiça, Madrid e o rei lho impedem»”. Nestas declarações, põe-se claramente de manifesto, que tanto a justiça, como Ayuso e o rei, estão atuando como poderes fácticos definitivos, pois são os que decidem que é o que em definitiva se pode fazer ou não; são em definitiva os autênticos soberanos, e os demais assistimos atônitos a esta farsa política. Isto explica o rol que vem representando a justiça com as suas disparatadas sentenças a respeito de Catalunha e os seus líderes, fazendo crer à cidadania que passou o que ela viu que não passou. O governo de Rajoy pretendeu solucionar um problema que é manifestamente de natureza política, com o veredito dos togados, previamente filtrados pola negativa a renovar o CGPJ, dando via livre ao governo das togas. O que quer dizer que a direita, tomando como uma espécie de comparsas aos juízes, e alicerçados polo Rei, são os autênticos soberanos, e apropriam-se o poder de decidir o que se pode e o que não se pode fazer no Estado espanhol. Um nacionalismo espanhol de caráter jingoísta e chauvinista decide os destinos dos diversos povos do Estado espanhol e, em consequência, de cada um de nós como cidadãos.

            O PSOE está representando uma autêntica farsa, que se vem desenvolvendo em muitos atos. É um partido que se declara republicano, mas que é um firme e sólido sustém da monarquia, um defensor dum monarquismo republicano, no que o substantivo é o monarquismo e o adjetivo e secundário o republicanismo. Os do 155, junto com Vox e os Poder Judicial, proíbem que se investiguem os delitos da monarquia e que se solucionem os seus problemas de opacidade. Opõem-se a que se lhe dê um sentido minimamente razoável e sensato ao termo «INVIOLABILIDADE», o qual possibilitou que o Emérito se enriquecesse à conta dos cidadãos e se permitisse, com o fruto do espolio, regalar milhões de euros às suas queridas, perante a passividade dos representantes dum país que não são capazes de reagir ao descarado abuso. Isto foi o que deu de si uma transição feita desde a cima, que somente foi modélica na ingente propaganda mediática, igual que a Marca Espanha, Espanha global, etc.

24 sept 2020

Outro esperpento na justiça

 

                Alguns titulares dos jornais da cova mediática madrilenha põem o grito no céu polas declarações do tenente fiscal do Tribunal Supremo Luis Navajas nas que critica a alguns dos seus companheiros trás assinar o informe no que se exclui de toda responsabilidade ao governo de Pedro Sánchez pola gestão da pandemia. Alguns viram com maus olhos que este fiscal não se atrevesse a defender o início dum procedimento judicial contra o governo do PSOE-IP, e chegaram a qualificá-lo como um fiscal do governo. Isto irritou grandemente o fiscal Navajas, porque já lhe tinha prestado grandes favores ao PP, como opor-se a que o Supremo investigasse ou abrisse causa contra o líder do PP, Pablo Casado, polo seu máster na Universidade João Carlos I, e negar-se a investigar a compra de três parcelas do estado polo juiz-senador do PP, Manuel Altava, por um preço irrisório, que supuseram para um notório incremento patrimonial.

                 Do que se trata é de que um fiscal elevado ao posto de tenente fiscal do Supremo polo PP, o segundo posto mais importante da carreira fiscal, se rebota porque depois de ter-lhe feito favores muito notórios ao PP, resulta que é vilipendiado polos seus companheiros deste partido, entre eles, Consuelo Madrigal e Fidel Cadena, por não dar-lhe «canha» ao governo bolivariano, social-comunista e pro etarra do PSOE-IU. Consideraram esta atitude como uma espécie de traição dum dos seus que até o momento presente fora um bom chico, mas este, perante a avalancha de críticas e tendo em conta o pouco que tem que perder na sua carreira, por estar a piques de jubilar-se, decide denunciar as pressões a que se vê submetido, e que corrobora que este é o modo normal de proceder dentro do âmbito judicial para que os seus membros se conformem com o que o poder político espera deles.

 

            Isto é uma evidência, e põe de manifesto a enorme politização da justiça na Espanha, que só pode surpreender a quem vive afastado da realidade quotidiana. O Reino de Espanha incumpre as recomendações de vários organismo internacionais relativa à separação de poderes. O Grupo de Estados contra a Corrupção do Conselho de Europa (GRECO), organismo dependente do Conselho de Europa advertiu a Espanha que segue sem solucionar-se o seu problema cardinal, que é a politização da justiça. Já faz uns anos, GRECO recomendara-lhe a Espanha que cambiasse o sistema de eleição do Conselho Geral do Poder Judicial pola sua politização, mas esta fez ouvidos surdos. Por outra parte, o grupo de Trabalho da ONU sobre detenção arbitrária considera que o encarceramento de Junqueras, Sánchez e Cruixart foi arbitrário e contrário à Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU, e é difícil pensar que isto não teve nada que ver com a situação política de Catalunha, que se pretendeu solucionar a golpe de sentenças exemplares duns juízes dóceis aos políticos do 155. O procedimento utilizado no juízo contra os líderes independentista foi emendado já várias vezes pola justiça europeia, o que demonstra claramente que a justiça espanhola não está ao nível idôneo e também que a legislação não está atualizada.

                 Tendo em conta o anterior, e o que a cidadania constata a diário, é difícil não considerar como esperpênticas e alheias à realidade as declarações do ministro de justiça, João Carlos Campo, que declarou que  em Espanha “A justiça não está politizada no mais mínimo”. Mas, se a justiça não está politizada, como se explica que o PP impossibilite a renovação dos membros do CGPJ? Como cumpre entender que todos os mídia informaram de que os líderes do PP e do PSOE chegassem a um acordo eles sós para renovar o CGPJ, que depois o PP não cumpriu? Se atuam como chefes de associações assépticas politicamente, altruístas ou humanitárias, porque não permitem que outros políticos os substituam neste trabalho? Por que não acedem a que a sua nomeação se faça por sorteio? Quem tem razão não é o ministro senão Pedro Sánchez que quando lhe perguntou a um entrevistador de quem depende a nomeação do fiscal geral do Estado, este contestou que do governo, ao que Pedro Sánchez retrucou: “pois então já está”. Todo o demais é propaganda e mistificação.

1 sept 2020

Apoio ao emérito

 

            O 18/08/2020 mais de 70 ex-ministros e altos cargos do PP, PSOE e UCD, assinaram um manifesto de apoio ao rei emérito, defendendo a sua presunção de inocência e lembrando o seu legado nestes quarenta anos de democracia, a “etapa mais frutífera que conheceu Espanha na época contemporânea”, como se o progresso dum país dependesse duma pessoa, e, sobre todo, duma pessoa que não governa.

            Não cabe a menor dúvida de que se trata de mui altos cargos que jogaram um rol muito importante no devir político de Espanha, e muitos deles participaram nas três grandes eivas que tem a legalidade vigorante e a sociedade espanhola em geral, que são a recentralização do poder para deixar as autonomias sem capacidade real decisória sobre os temas mais relevantes, processo que se iniciou com a LOAPA, e, dado que foi declarada em grande parte inconstitucional, continuou com a politização da justiça e a míngua da divisão de poderes, do qual foi um elo importante a reforma do Poder Judicial em 1985, que fez exclamar a Alfonso Guerra: “Hoje carregamo-nos a Montesquieu”, e do que é expoente o controle da justiça por algum dos assinantes do manifesto, e o terceiro e, em grande parte, consequência dos anteriores, a corrupção a todos os níveis, iniciada na época de Felipe Gonzalez.   

            Apesar de que o rei foi declarado inviolável na CE, polo qual não pode ser submetido a juízo, polo menos no exercício do seu cargo de Chefe do Estado, que se vem estendendo também aos seus atos privados, e também que dispõe livremente do seu orçamento sem render contas ao soberano, que teoricamente é o povo espanhol, parece que isto não é suficiente garantia para os abaixo assinantes e reclamam que se respeite a presunção de inocência, como se tivesse sido conculcada. A presunção de inocência é o direito do réu a ser considerado inocente, enquanto não se demonstre o contrário. De momento, nenhum tribunal o julgou  e incluso é duvidoso que o possa julgar algum dia, devido aos escolhos que teria que superar, e, portanto, o emérito tem este direito, e incluso muito melhor garantido que qualquer outro membro do soberano. Mas, sobretudo nos países em que a justiça está politizada, sem divisão de poderes real e efetiva, e tem pouca credibilidade social, como é o caso no Estado espanhol, a gente também acode à culpabilidade que podemos chamar histórica, ou seja, a que é produto das investigações de pessoas independentes e dotadas de credibilidade social.

            Aliás, se o problema é a presunção de inocência, quiçá tivessem que repreender ao rei Filipe, que com a sua renúncia, nula de pleno direito, à herança, veu reconhecer que a ação do emérito que a provocou era fidedigna, e ele conhecia muito bem o percal, pois, seria um absurdo que pretendesse realizar esse gesto de cara à galeria se tivesse dúvida de que a apropriação indevida que se investiga desde Suíça não era real e efetiva. Por outra parte, creio que vários dos assinantes deveriam saber o que passava com o rei emérito praticamente desde o princípio do seu reinado e em vez de denunciá-lo para pôr-lhe couto, fizeram a vista gorda e olharam para outro lado, fazendo-lhe um fraco favor à mesma instituição. Como pretendem agora que os creiamos tanto a eles como ao seu protegido? Em realidade, esta iniciativa parece ter como objetivo proteger o monarca atual, porque eles sabem que a hipotética caída do rei emérito deveria, numa instituição hereditária, arrastrar logicamente a do seu filho. Vão ter muito trabalho para lográ-lo porque a falta de freios e de controle pessoal afeta a todos os seus atos, nada exemplares, por certo.

6 ago 2020

Fidelidade ao pacto constitucional

            No mês 08/2020 o chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, reafirmou-se como um integrista do pacto constitucional, incluída nele a monarquia, para a que demanda fidelidade. «Somos leais à Constituição; a toda, de princípio a fim. E defenderemo-la à duras e às maduras». Mas que é e que implicações tem este pacto constitucional?  O que se chama pacto constitucional não é outra cousa que um acordo histórico pactuado entre os representantes da ditadura franquista e os ruturistas moderados da oposição, de acordo com o qual não haveria ruptura democrática nem consolidação da inércia franquista, senão um tertium quid, uma espécie de mistura de elementos e instituições provenientes da ditadura e outros elementos vigorantes nos estados democráticos e que lhe procurariam certo reconhecimento entre as democracias dos nossos dias.

 

            Entre os elementos provenientes do franquismo está a monarquia borbónica, re-instaurada polo ditador apesar de que cinco dos seus antecessores borbónicos já o tiveram que ser despedidos nas pessoas de Carlos IV, Fernando VII, Maria Cristina, Isabel II, e Afonso XIII. Outro elemento, por certo nada democrático nem de facto nem nas suas aspirações, é o exército, que foi quem impôs o artigo referente à indissolúvel unidade da nação espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis. Mas o pior não é incluir elementos pré-democráticos, senão a regulação que se faz deles. Diz um adágio popular que todos temos um preço, e parece evidente que a maioria pode corromper-se se os seus integrantes têm a segurança de que não serão descobertos, e, portanto, é não já de sábios, senão de sentido comum, que todos necessitamos controles, e, portanto, deveríamos ter que dar conta dos nossos atos e da nossa contribuição ao bem-estar coletivo. Isto é o que não fizeram os chamados pais da pátria, a quem todos se dedicam a aplaudir. Dotando de inviolabilidade ao herdeiro de Franco na Chefia do Estado, lavraram em realidade a sua fossa política, e isto é tanto mais grave quando todos os indícios históricos da família Borbon aconselhavam deixar as cousas atadas e bem atadas, não no referente à sua permanência na poltrona, aspeto selado com sete selos, senão no que diz respeito à sua aptidão na governança e a sua exemplaridade moral e condutual. Uma vez qualificado de inviolável e isento de todo controlo, o emérito dedicou-se a amontoar dinheiro indevidamente e a folhar as cidadãs que se aprestavam a isso, porque isso é o que lhe pedia o corpo. 

 

            A este pacto constitucional, mistura de aspectos pré-democráticos e democráticos, é ao que o Chefe do governo espanhol reclama fidelidade aos seus companheiros de UP, e é também o que a propaganda governamental e a dos partidos do regime lhe propõem à cidadania. Portanto, pedem-nos que nos resignemos, porque não há mundo melhor que o que traçaram faz quarenta anos os pais da pátria com um ou uma monarca inviolável e desregulado/a. Mas eu pergunto-me, acaso o regime político não deve também ser fieis às aspirações cidadãs e às dos seus filhos? Acaso um político democrático não deve ter como norte da sua atuação ser fiel que decidam os seus representados no futuro? Temos acaso direito a cercear a esperança da cidadania de lograr uma nova regulação da sociedade em aras duma convivência mais democrática e mais justa? Até quando temos que obturar que nos convidem a que nos submetamos ao cacarejado pacto constitucional? Suponho que UP e muito em concreto Iglesias, em quem ressoaram os gritos cidadãos do 15 M: «não nos representam» não deve sentir-se cômodo com esta unidirecional fidelidade ao passado, e se se limita a tragar sapos, quiçá os cidadãos se perguntem para que serve a sua organização, pois para votar a um partido que vai com os do pacto institucional, para que cambiar?

 

            Estes dias passados alguns mídia estrangeiros destacavam a humilhação do emérito, que em vez de ocupar um lugar na história, a que estava chamado,tem que marchar para o exílio. Isto só indica o enorme poder das propaganda oficial do regime, porque quem conhecesse um pouco o país já faz tempo que sabia que era simplesmente um vivedor. Mas não se preocupem que sim vai ter um lugar na história, ainda que não coincida com o falseado pola propaganda.

24 jul 2020

Um arcebispo galego valente

            A finais de junho de 2020, um jornal digital publicou uma entrevista a um arcebispo galego, natural de Asados, Rianjo, Santiago Agrelo, franciscano, que me causou perplexidade e me induziu a pensar que por vezes algo parece mover-se, ainda que timidamente, no seio da igreja católica, enquanto que algumas das suas respostas não parecem coincidir com as da oficialidade eclesial. Têm, por conseguinte, a virtualidade de que refletem algo novo e isto é de por si positivo, porque a realidade tem muitas aristas e cada nova arista sempre é sugestiva. Como alguns companheiros me pediram a minha opinião sobre este tema, intentarei responder aos pontos mais salientáveis das suas afirmações.

             Um dos problemas importantes que tem a igreja é a sua relação conflitual com a ciência, que, partindo de observações e experimentos, é capaz de estabelecer as leis que governam a realidade, leis que são intrínsecas ao devir natural, independentes das decisões dos seres tanto humanos como divinos, e incompatíveis com o discurso religioso, que atribui todos os factos à intervenção de vontades e desígnios de seres hipotéticos superiores que regem todos os acontecimentos e que podem modificar a realidade natural produzindo milagres. A este respeito diz este religioso: “Se damos por suposto que Deus, na Criação, manteve a sua intervenção na Terra, à margem das leis terreais, estamos inventando um mundo que não existe, que não existiu nunca. O mundo tem as suas leis, as suas normas, a sua autonomia, e isso não quita para nada do que lhe corresponde a Deus”. Esta é uma posição que intenta conciliar proposições contrárias, pondo-lhe uma vela a à ciência e outra a Deus. Eu concordo com o que ele diz na primeira parte da resposta, mas não na segunda. Se a natureza se governa polas suas leis, a sua autonomia, não pode operar de acordo com decisões heterônomas, e portanto, a hipótese de Deus é desnecessária. Aliás, a ciência rege-se polo princípio metodológico da simplicidade, formulado por Newton, que diz que «não devemos para as cousas naturais admitir mais causas que as verdadeiras e suficientes para explicar os seus fenômenos”. A razão é que “a natureza é simples e não se compraz em causas supérfluas para as cousas”. Portanto, de acordo com este princípio se a hipótese de Deus não é necessária, cumpre eliminá-la.

             A sua afirmação de que os males não são um castigo de Deus, porque Deus não opera assim na história não resolve nenhum problema, porque o que tem que explicar-nos o Sr. Agrelo é como a um Deus criador do mundo, que é onipotente, onisciente e bondadoso, lhe sai um mundo tão imperfeito e no que existe tanto sofrimento. Não sabia, não quis, ou não pudo fazê-lo melhor? Qualquer das alternativas que se escolham desacredita totalmente a divindade. Toda religião que, como as três grandes monoteístas, aceite um Deus onisciente, onipotente e bondadoso, incapacita-se para explicar a existência do mal no mundo. Se Deus criador não teve nada que ver com a pandemia, a que se devem estas pandemias?

             Não podemos por menos de concordar com a sua afirmação de que os males que existem no mundo não são obra dum castigo divino, mas não compartimos o seu entusiasmo polos relatos do Gênesis referentes a Adão e Eva, “dos mais fermosos e significativos da Sagrada Escritura”, e suponho que também ele mitigaria o seu entusiasmo se fosse mulher e fosse consciente que estes relatos da primitiva parelha justificaram o machismo mais exacerbado e apresentado como obra do mesmo desígnio divino; também o mitigaria se fosse plenamente consciente das suas implicações e, como uma pessoa preocupada polos temas da justiça e da proporcionalidade do castigo, comprovasse que este relato foi aproveitado por Santo Agostinho para propor a doutrina do pecado original, que vem dizer que Deus submete os seus filhos, os seres humanos, a uma prova que sabia que não superariam, e castiga a todos os descendentes dessa parelha com o castigo mais atroz que o mais cruel criminal pudo nunca imaginar, polo simples facto de desobedecê-lo e comer duma fruta proibida; se for uma mulher prenhe e constatasse que a igreja optou historicamente pola sua morte para poder batizar o seu filho não nascido; se fosse um cristão humilde e constatasse que os clérigos enviaram para o inferno as crianças não batizadas, ainda que ultimamente mudou a sua posição.     

            Afirma este respeitável clérigo, que “Esses são os dous caminhos que todo homem deve escolher, o de escalar para intentar ocupar o lugar o lugar de Deus ou o de baixar para ocupar o lugar revelado em Jesus de Nazaré, dando vida aos demais”. Creio que este é um dilema falso, tanto referido aos hipotéticos e inexistentes Adão e Eva, como à humanidade atual. Este relato e outros como o da Torre de Babel, só pretendem rebaixar o ser humano em aras de enaltecer a um deus despótico e zeloso dos seus próprios filhos; é uma manifestação da constante inquina do cristianismo contra este mundo em aras de prestigiar o mundo de além-túmulo, que é o produto que estão a vender. É que acaso é mau que um filho intente emular a seu pai? E que acaso o divino que há em nós não é precisamente o que nos aparenta com Deus? Eu creio que todo pai deseja que os seus filhos sejam os melhores, que os superem a eles, porque isso indica que a sua semente produz os melhores frutos e eles se vem enaltecidos neles.

             Referente ao tema do aborto afirma que “estar machucando continuamente com o tema do aborto o que provocou, possivelmente é um aumento dos partidários do aborto. Se em vez disso nos tivéssemos acercado à mulher que se encontra nessa situação, perante a perspectiva dum aborto na sua vida, teríamos reduzido já muitíssimo o número de abortos”. Creio que Santiago Agrelo, igual que o papa Francisco, têm razão quando insistem que foi desacertado centrar-se no tema do aborto e, em geral, nos temas relacionados com a sexualidade, de tal modo que a ética cristã que conhece o homem de a pé é basicamente a referida à moral sexual e reprodutiva, pregada por fieis que têm por fundador a uma pessoa que pregava a castração polo reino dos céus, e por principais inspiradores a teólogos misóginos e misossexuais, especialmente a Jerônimo de Agostinho. A Igreja, que protagonizou a maior repressão sexual da sexualidade da história, e desacreditou até limites incríveis a sexualidade incluso no seio do matrimônio e o matrimônio mesmo, em aras de exaltar a virgindade e o celibato, recordemos que o papa Gregório I afirmava que o ato sexual nunca pode dar-se sem pecado, quiçá não seja a melhor conselheira nestes temas, por muito que aspire a este rol. Convém também lembrar que o cristianismo foi uma máquina de separar matrimônios de clérigos, que viviam casados tranquilamente, para impor-lhes coativamente a castidade que foi o combate em que mais empenho pôs. Os clérigos primeiro devem assumir que a sexualidade é uma pulsão humana fundamental, um integrante básico da natureza humana, e que a qualidade das pessoas não depende de se esta necessidade é mais ou menos premente nuns seres humanos que noutros.

             A respeito duma pergunta referida ao céu e ao inferno responde Agrelo: “não me importa o céu e não me importa o inferno; quer dizer, não me importa o que há depois da morte. Não me importa. Isso deixo-lho a Deus, deixo-lho a meu Senhor, não tenho que preocupar-me do que venha depois da norte, tenho que preocupar-me do que há antes da norte. E o que há antes da norte são seres homens, mulheres e meninos que nas suas vidas não conheceram mais que o sofrimento”. É louvável o giro deste autor de centrar-se nos seres humanos, o qual nos lembra aos teólogos da morte de Deus, e  de olhar para a terra e para a vida presente em vez de fazê-lo para o céu e a vida futura, mas este giro somente pode ser real e produtivo se se parte do que realmente são ambos mundos. Não vale deixar um deles nos bastidores, e que desde estes, como uma espécie de nebulosa tanto lógica como ontológica, determine o mundo presente. A solução de Agrelo reduz o cristianismo a uma espécie de ONG de âmbito social, que ainda que possa ser mais interessante, não é propriamente o que se entende por religião. Não seria muito melhor, ainda que mais dificilmente irrealizável, que Deus se ocupasse dos males do mundo presente e que nós nos limitássemos a recitar responsos, jaculatórias e dar-nos golpes de peito?