20 ago 2015

Do nacionalismo ao nacional-sucursalismo

Beira com Errejón


Devemos distinguir sempre em política o modelo de estado e o modelo de sociedade. O modelo de estado tem como antítese principal nos Estados integrados por nações não reconhecidas como tales e sem estado: nacionalismo imperante - nacionalismo dominado; no caso espanhol, nacionalismo espanhol-nacionalismos periféricos. Esta foi a história do Estado espanhol, e sempre houve uma tensão entre nacionalismo espanhol e nacionalismo periférico, criando a dicotomia entre espanholismo, por uma parte, e catalanismo, galeguismo e abertzalismo, pola outra. O intelectuais orgânicos espanhóis não gostam de reconhecer-se como espanholistas e adotam subterfúgios como constitucionalismo, como se os nacionalistas das nações negadas não fossem constitucionalistas. O modelo de sociedade, tem que lidar com a antítese entre as classes sociais, normalmente entre as oligarquias e as classes média e baixa; entres os que possuem o dinheiro e os que tem meios precários. Estes dous modelos são distintos e a reforma dum não tem por que colidir com a do outro, ainda que estão inter-relacionados porque um modelo de estado pode impedir que os governantes duma comunidade adotem as medidas oportunas para efetivar  um determinado modelo de sociedade. Por exemplo, a tarifa elétrica única para toda Espanha, imposta polo Governo de Espanha, impede que Galiza tome medidas para abaratar a tarifa elétrica ás empresas que queiram estabelecer-se aqui, aproveitando assim as suas vantagens comparativas; que Galiza não poda tomar medidas para que as empresas que tenham aqui os seus centros de produção tributem na nossa comunidade, favorece a deslocalização fiscal em benefício de Madrid; a Galiza não pode tomar medidas para salvar o nosso setor leiteiro e já vemos o caso que lhe faz Espanha aos ganadeiros;  etc., etc.

Quando se constituiu a coligação eleitoral AGE, eu fiquei sumamente surpreendido de que um partido integrado em Anova, como é a Frente Popular Galega, que sempre se proclamou independentista, e que parecia o mais nacionalista de todos, o primeiro que fez foi aderir aos posicionamentos dum partido espanholista como é Esquerda Unida (IU), e declarar que, neste momento histórico ha que priorizar o modelo de sociedade sobre o modelo de estado, e deixar a questão da reivindicação de mais poder para Galiza para outro momento, porque agora o essencial é o giro á esquerda, e estabelecer um modelo de sociedade que beneficie mas as classes populares. Mas, supondo que se lograsse para o Estado espanhol um governo de esquerdas, o problema de que Galiza poda tomar medidas para favorecer a essas classes sociais fica sem resolver, pois é evidente que se nos sacam as vantagens comparativas e não podemos impulsar aqui eficazmente a criação de empresas, não podemos favorecer aos nossos trabalhadores e as nossos moços e moças. Agravaria esta alternativa o fato de que seria um governo apoiado polos próprios danificados.

Foi o primeiro passo duma subordinação total de Anova a Izquierda Unida, que seria seguida pola integração total da sua euro-parlamentária Lídia Senra no grupo de Izquierda Unida no Parlamento Europeu. A sua inclusão na candidatura de Esquerda Unida foi vendida polo líder de Anova, José Manuel Beiras Torrado, como uma oportunidade para relacionar-se com as esquerdas europeias, e pode ser que o fizessem, mas os benefícios para Galiza foram nulos. O que passou com o grupo de AGE foi surrealista, e os embrulhos entre os membros que conformavam o grupo foram constantes, terminando Anova com dous representantes dos nove que obteve AGE. Mas não parou ai a cousa senão que esses embrulhos não foram comparáveis com os que tiveram lugar em Anova, que terminou cindida pola metade e com os membros mais nacionalistas fora da organização. Mas agora, os mesmos que provocaram o divisionismo, apelando ás várias almas incompatíveis dentro da organização, não tem reparo em apresentar-se ante o eleitorado como as pessoas idôneas para impulsar «candidaturas plurais», «marés galegas», «candidaturas de unidade popular», etc. 

Apelar á candidaturas de unidade popular, onde a cidadania seja a principal impulsora do processo e os partidos, os motores auxiliares, parece-me que é uma burla e um insulto a esta mesma cidadania. Estes dias estamos presenciando uma atitude pedinchona e os abraços do Beiras com os representantes dos partidos espanholistas de esquerda para que acedam a pautar com ele uma candidatura de unidade popular, e estava sumamente preocupado porque o Pablo Iglesias lhe propunha uma saída que seria uma humilhação pública do líder de Anova ante as suas hostes reduzindo-o a sacristão do grande sacerdote madrilenho, convertido no galo do poleiro, impondo a sua marca Podemos como nome da candidatura, seguido doutra cousa, porque os galegos devemos ficar reduzidos a «outra cousa». O Beiras, insatisfeito, pugnou embravecidamente para que na candidatura figurasse «Marés-Podemos», em vez de «Podemos-Marés», permitindo que o seu grande Chefe madrilenho, dirija o processo e as políticas. Parece que se chegou a um acordo e o Errejón transigiu em que figurasse o nome da candidatura como «Marés-Podemos», e o líder galego quis celebrar este êxito abraçando a Errejón. Mas, parece que se torce a cousa e, desde Madrid, acabam de retificar essa grande concessão do lugar-tenente de Iglesias. Esteve mais de moda do que está esta Organização, mas ha certos aspetos que não deixam de ser significativos, como o fato de ter laminado o poder territorial dos seus líderes, convertidos em meros comparsas das decisões do Grande Chefe; também o fato de que parece que está disposto a ressuscitar os deputados «cuneiros», pois todos eles são elegidos polo poder central sem intervenção das estruturas territoriais. Nas listagens preparadas em Madrid, deixam livres alguns ocos e a ocupá-los é ao máximo a que podem optar as formações coligadas é a encher estes ocos que deixam livres os hierarcas madrilenhos, e, para justificar a sua rigidez nas interlocuções, pretextam que é uma decisão soberana da Assembléia Cidadã Estatal, composta por todos os inscritos em Podemos, mas estas decisões existem porque os seus dirigentes decidiram que existissem.

Por outra parte, o alcaide de Ferrol põe como condição ao BNG para integrar-se na candidatura galega de unidade popular, que deve reconduzir o soberanismo, ou seja, que deve mudar os seus postulados políticos e apresentar-se, como eles, dócil ao sistema de distribuição do poder territorial estabelecido. A razão que alega é que este debate está sobre-passado. Parece que não se dá conta do que acontece em Catalunya, na Escócia, ... Isto implica, nada menos, que um partido, para integrar-se deve renunciar a defender o direito de autodeterminação dos povos, pois a isso se reduz o soberanismo, porque é um direito «sobrepassado». A esta petição uniu-se o alcaide da Corunha para exigir-lhe ao BNG que aceite o «mínimo comum denominador», no que, evidentemente, não entraria este direito fundamental. Estes representantes políticos não se dão conta de que, além do que suceda com o BNG, estão ferindo a muitos galegos e galegas que defendem este direito para o seu país. Não deixa de ser chocante que lhe exijam ao BNG que renuncie á sua posição soberanista, quando têm no seu seio um partido independentista, pois o independentismo é mais radical que o soberanismo, e os estados independentes mantêm menos vínculos entre si que os Estados soberanos. Além disso, resulta chocante que estes dous alcaides que participaram na formação das Marés, e com as que tiveram um notável êxito polo que merecem todos os parabéns, e não foram capazes de dar-lhe uma estrutura coesionada, um mínimo comum denominador, senão que cada uma funciona dum modo autárquico e só lhe dá certa unidade os partidos que estavam detrás, fundamentalmente EU, Anova e Podemos, agora lhe exijam ao BNG que aceite esse mínimo comum denominador. Não contribui a esse mínimo comum denominador a Frente Popular Galega?   

Por conseguinte, estes dirigentes já têm decidido todo, extremo que não critico, e agora só lhe falta continuar a farsa da «unidade popular» dando-lhe a sensação á cidadania que é ela quem decide, porque a cidadania é a que sabe mentes que eles devem ser segundões no processo. Logo, se eles não são capazes de dirigir o processo,  por que não demitem? Mas se é essa senhora a que sabe todo, por que não dirige e estabelece os pactos, di que é o que ha que acordar e também nos representa? Por outra parte, é pertinente lembrar que o adail agora da unidade popular é um neo-converso pois foi um dos gracejava burlonamente contra as primárias do PSOE nos seus primeiros tempos. O que tem que haver é porosidade nas organizações políticas para dar entrada a novos aspirantes a dirigir a cousa pública, mas a cidadania o que quer principalmente é ter políticos competentes, estar bem governada, que não haja corrupção, que haja igualdade de oportunidades, ...      
 
Um princípio que devemos ter presente é que na vida ninguém dá nada por nada, senão que se dá algo a câmbio de algo. Os partidos políticos espanhóis, salvo o PP, reconhecem que o problema catalão não se vai solucionar com imprecações aos santos, incluído a Apóstolo, senão que ha que dar-lhe contrapartidas aos catalães para que aceitem um modus vivendi levadoiro dentro do Estado espanhol. Em Euskadi o problema é menos premente a esta altura, mas é provável que ressuscite em qualquer momento. Por tanto, urge proceder a uma reordenação do problema territorial do Estado, reconhecendo os direitos baseados na diferença, e deveria terminar-se duma vez a cantilena de todos iguais em direitos: os que têm língua própria com os que não a têm; os que têm problemas demográficos com os que não os tem; os que têm muitas dispersão da população com quem não a têm, que tem problemas de mobilidade com quem não os tem, ...
 
Na Galiza existe uma tendência mui majoritária a levar uma política «sensata», uma defesa «sensata»da língua, um galeguismo «cordial», «harmônico». Somos os colonizados perfeitos, pois adotamos os esquemas do dominador. A ORGA (Organização Republicana Galega Autônoma, foi criada o mês de outubro de 1929, com os objetivos de lutar pola república e a autonomia, promovida polo grupo de Cassino da Corunha no que destacava Casares Quiroga. Esta organização autonomista decide promover uma reunião clandestina em Lestrove, celebrada o 16/03/1930, á que assistem, além da ORGA, os partidos Radical, Republicano Socialista, uma delegação da FUE galega e algum integrante da CNT, na que se assinou o Pacto de Lestrove.  Era uma conjunção de forças republicanas e socialistas, e decidem criar a FRGA (Federação Republicana Galega Autônoma) que tinha como objetivos lutar pola democracia republicana na Espanha, manter a organização autônoma na Galiza independente dos partidos republicanos espanhóis  e pola autonomia da Galiza dentro do regime democrático espanhol. Este partido estava ao serviço dos interesses de Casares Quiroga e terminou fusionando-se com Ação Republicana e o Partido Radical Independente para dar origem a Izquierda Unida, que teria a Azanha como líder máximo. Como vemos, o que hoje pede tanto AGE como as Marés nem sequer ultrapassa ao estabelecido no citado Pacto. O que pretendem é cambiar o regime do 78, ou seja, a reformar a Constituição impulsando uma forma de Estado republicana, e estabelecer um regime federal na Espanha. Mas com isto do regime federal ha que ter muito cuidado, porque não existe um federalismo senão muitos federalismos, e alguma realização concreta do federalismo pode ser pior que o autonomismo. O partido mais obsessivamente espanholista na Espanha é UPyD, e não tem empacho em defender o federalismo cooperativo como solução para o problema espanhol que inclusive centralizaria as competências em educação e sanidade. Por tanto, se se trata de caminhar cara a um federalismo á suíça ou como o que propunha o Castelao, com direito ao divórcio reconhecido, sim, mas se se trata de acompanhar a UPyD ou a outros partidos espanholistas, não.

Os dias 5 e 6 de dezembro de 1931 aprova-se na Assembléia de Pontevedra, á que concorrem 32 grupos, o PG (Partido Galeguista) que define a Galiza como povo autônomo com direito de autodeterminação de Galiza dentro da forma de governo republicana, a integração em Galiza das terras colindantes de fala galega, democracia direta, referendo, galeguização do ensino, etc. Mercê ao labor incansável de Castelao e Bóveda lograram que se aprovasse em referendo popular o Estatuto de Autonomia de 1936, mas que, por obstaculização das forças espanholistas republicanas, nunca foi aprovado polas Cortes Espanholas. Se Galiza foi declarada como nacionalidade histórica na CE, isto deve-se ao labor incansável de Castelao.

Hoje Anova está recorrendo o caminho da II República mas em sentido inverso. Em vez da ORGA ao Partido Galeguista, querem desfazer o Partido Galeguista de hoje, que são os partidos nacionalistas, e que caminhemos para a ORGA, um autonomismo potável para o sistema de dominação. Em vez de lutar por que se reconheçam os direitos de Galiza como nação de seu, pretendem convertê-la numa sucursal da Espanha.

14 jun 2015

Finit comoedia, incipit tragoedia!


Ontem passeavam dous moços pola cidade de Santiago, e um deles começou a cantar: “
Os pitinhos dizem
pio, pio pio,                                                                


quando têm fame
Quando têm frio

O segundo respondeu:
A galinha busca
o milho e o trigo
dá-lhes a comida
e busca-lhes abrigo

Então o primeiro emitiu um sonoro aturuxo: Beir..................


Temos novos governos municipais, recebidos com uma notória alegria e sensação de libertação dum enorme pesadelo, por abrir a porta á esperança duma nova política, que termine duma vez com uma política sumamente lesiva para as maiorias sociais que pretendem governar, e alienígena para com a nossa maltratada nação. Saudamos como positivas algumas medidas simbólicas, como a negação de participar na maridagem político-religiosa das oferendas, nas que os políticos mais corruptos e criminais expressam os seus desejos de que a festa continue em benefício próprio. Também foi positiva a tomada de posição franca e manifesta de Martinho Noriega em prol da república, que, se bem de por si não soluciona as cousas, si é um elemento que contribui á igualdade social entre as pessoas.. 

Este êxito foi possível porque as Marés foram capazes de canalizar o enorme mal-estar cidadão contra as políticas corruptas e austericidas, que muitos vimos criticando desde faz muitos anos. Estas Marés estão compostas de participantes heterogêneos nos que se mistura o modelo de estado, pois uns são nacionalistas galegos e outros nacionalistas espanhóis, e compartem grosso modo o modelo de sociedade, pois todos os que as apoiaram -EU, Anova, Podemos-, eram de esquerdas. Não sabemos a quem corresponde exatamente patrimonializar este êxito, e só podemos destacar alguns fatos.

EU e Anova, componentes de AGE, estavam praticamente despejados polos seus contínuos conflitos internos e pola sua deficiente labor de organização, o seu escasso protagonismo social e o seu histrionismo parlamentar. Souberam, com todo, unindo-se nas Marés e incorporando novos elementos sociais, e com o impulso reformador de Podemos, apresentar-se com uma nova fácies e encandilar a muita gente.

Agora todo indica que esta mistura toca, em grande parte, ao seu fim, para desgosto dos próprios participantes e quiçá de muitos cidadãos, mas estava cantado. Tanto IU como Podemos são partidos estatais e querem governar um estado o mais homogêneo possível para evitar dissonâncias na mensagem e nas políticas. O mais que podem fazer, em certo momento histórico, é buscar a companhia de elementos «estranhos» como compañheiros de viagem provisórios e sem assumir compromissos reais efetivos. Tenhamos presente que aceitar sobre o papel o direito de autodeterminação pode ter o mesmo resultado que incluir na CE que todos temos direito ao trabalho e á vivenda. É uma pura ingenuidade crer que Podemos, PSOE ou PP vão solucionar os problemas galegos, se os galegos não são capazes exercer uma reivindicação contundente que os obrigue a isto. Não se deve a nenhuma maldade destes partidos senão á dinâmica própria partidária. São partidos estatais e os seus votantes são principalmente espanholistas e contrários ás aspirações nacionalistas, e as suas políticas pretendem sobre todo contentar a este eleitorado, e temperar gaitas com os restantes.

Anova é um partido, em princípio, nacionalista galego, que tem como objetivo governar este país sem intromissões alheias que coarctem a aplicação de políticas em benefício da cidadania galega. Quando um partido pretende que o seu competidor por um espaço político lhe solucione os seus problemas, isso indica que algo não funciona na sua estratégia política.  É querer desempenhar o rol de pitinhos da canção “Os pitinhos dizem”, pretendendo que a mai galinha venha na sua ajuda. Podia ser mui bem a Beiras a quem remedasse um dos moços aludidos.

Neste momento, todo indica que Podemos tem claramente fixado o seu campo: irá com as suas siglas próprias, sem admitir sopa de siglas, ainda que quiçá permitindo a inclusão de alguma outra que as acompanhe. Como diz Monedero, seria: Podemos-o que seja, mas na que Podemos seria a nave nutriz, que canaliza o movimento. “Ficaria claro que Podemos é o impulsor, o catalisador, quem organizaria as primárias, quem buscaria a ocasião para encontrar-nos”, mas também se representaria o câmbio plural pola união doutras formações. E acrescenta Monedero que isto deve ser assim porque Pablo Iglesias “é como a nave que vai abrindo o sulco no gelo que permite que as demais acompanhem e que unifica depois o trabalho desde o Parlamento”. Ou seja, o câmbio representa-se pola adesão de outros que desempenhariam o rol estético de comparsas, de sacristães, «ad majorem gloriam» de Podemos.

A situação na que se encontra Anova não é nada fácil, e, em grande parte produzida pola sua miopia política, por ter bendito e ressuscitado á espanholista EU, neste momento em caída livre, em vez de ter-se unido como os nacionalistas de Compromisso por Galiza, do BNG ou de ambos, aproveitando, em benefício de Galiza, o tirão eleitoral de Beiras, em vez de fazê-lo em benefício de Espanha. Primaram os interesses imediatos de obtenção de resultados eleitorais e careceu-se duma mínima estratégia a longo prazo. O prejuízo que lhe causou ao nacionalismo galego, segundo o sentir de muitos cidadãos, foi enorme. 

A situação também é mui delicada para IU, que nas eleições européias lhe deu cabaças a Podemos e agora vê como o processo se repete em sentido inverso, com o agravante de que Podemos se apropriou do seu eleitorado e da sua política «revolucionária» e não está interessado em confluir com um partido sumido na balbúrdia constante e que o arreda da centralidade política, e agora fica a vê-las vir. Não pode fazer frente ao embate de Podemos nem aceitar o seu convite para que se una numa atitude de submissão vergonhosa, nem tão-pouco é capaz de oferecer á sua noiva Anova futuro algum promissório, nem levantar cabeça ante o seu eleitorado tradicional.

A solução viável que lhes queda aos membros de AGE é intentar capitalizar o capital das Marés em benefício próprio e emancipá-lo de Podemos, e confluir com os partidos nacionalistas numa grande maré galega, nada fácil para EU, porque teriam que aceitar que o grupo galego no Congresso mantivesse a obediência a partidos galegos em vez de fazê-lo a IU. Tem o inconveniente que o êxito não está garantido, porque todo indica que as próximas eleições se vão polarizar entre a direita do PP e a esquerda de Podemos-PSOE, e, isto, numa situação de «cabreo» como o atual, vai concitar o apoio de muitos cidadãos que, nas municipais, votaram as Marés e em parte também, em menor medida, dos que votaram os partidos nacionalistas. Quiçá a citada Maré galega seria a melhor solução para Galiza e para os mesmos partidos.

O BNG manteve-se sempre fiel a Galiza, susteve uma luta polos excluídos, como preferentistas, emigrantes, ... digno de todo encômio, e não se pode suster que esteja significativamente luxado pola corrupção. Creio, com todo, que deveria fazer um esforço para procurar sintonizar e empatizar melhor com a cidadania, e abrir-se mais á cidadania com autênticas primárias abertas a todos os militantes e simpatizantes, para converter-se no instrumento real do câmbio da esquerda deste país. Essa maré galega podia ser também a solução para não ver-se excluído politicamente do movimento de câmbio, e a sua exigência que o grupo mantenha a obediência galega, parece lógica, totalmente razoável e o mínimo exigível para seguir mantendo esa lealdade para com a Nossa Terra.

2 may 2015

Os bispos pedem perdão


O 27/04/2015 recolhem os meios de comunicação a notícia de que os bispos pedem perdão por: “os momentos em que não soubemos responder com prontidão aos lamentos dos mais necessitados”.

Toda petição de perdão, se é sincera, deve cumprir umas determinadas condições, polo menos,  tão exigentes como as que o organismo afetado lhe pede aos demais. Eu, como ex-fiel cumpridor destas práticas, lembro mui bem quais eram:

1ª.- Exame de consciência
2ª.- Contrição de coração
3ª.- Propósito da emenda
4ª.- Confissão de boca
5ª.- Satisfação de obra

Quando uma pessoa ou entidade pede perdão faz um reconhecimento valente e meritório, mas quando se ve obrigada a fazê-lo mui reiteradamente por fatos passados já indica que algo mui grave tem passado na sua história. A Igreja teve que pedir perdão pola perseguição desatada contra legiões de científicos e filósofos de todas as disciplinas, polos seus escândalos de corrupção financeira, polos abusos de pederastia e pedofilia, etc., etc., e ainda lhe faltam inúmeros outros. Quando uma instituição mantém uma política discordante com a legislação civil sobre direitos humanos durante muito tempo, já se vê que algo raro está passando. Isto é o que acontece com a sua defesa da subordinação da mulher ante o home, com a sua fobia contra os homossexuais, contra as uniões de fato, relações sexuais prematrimoniais, proibição dos métodos anticonceptivos, condena do divórcio, aborto, etc., etc. Isto já nos faz ver que a Igreja leva um caminho oposto ao da maioria social, e que de manter a sociedade a defesa dos direitos humanos, se verá obrigada a pedir de novo perdão muitas vezes. Devemos sentar claro um princípio importante: «Embora ser meritório ser valente em pedir perdão, o realmente valente e desejável é não ter que pedi-lo, e por tanto, mostrar um comportamento correto em todo momento». A mim diz-me mui pouco esses atos de petição de perdão ritual e de golpes no peito que se fazem em todas as celebrações eucarísticas. Não são sinceras, não são sentidas. Este ritualismo farisaico cumpria eliminá-lo de vez, e fazer o que nos diz o evangelho: quando ores reclui-te o teu quarto e ali dirige-te a Deus.   

1ª.- Exame de consciência

O exame de consciência deve fazer-se em tempo e ser reto e não deformado, porque em caso contrário sempre cabem suspicácias de se se obra impulsado e não ex motu próprio e apenado realmente polos pecados ou crimes cometidos. A este respeito surpreende que a Igreja se dê conta do seu silêncio cúmplice e conivência com os exploradores depois de que muitos outros o tenhamos denunciado, polo que a mim respeita ante os meus alunos e alunas, desde faz décadas. Tenho dito a todo aquele que quiser ou tiver que escutar-me que a Igreja se manteve muda e surda perante o sofrimento dos mais desfavorecidos e que não tem nada que dizer-lhe aos que sofrem as injustiças dum sistema socioeconômico extrativo. Entretanto ela limitou-se a ser um lobby ou grupo de pressão nos assuntos relacionados como o sexo. A Igreja não só não denunciou estas injustiças senão que participou, a título lucrativo, no sistema extrativo imposto polas elites políticas e oligárquicas que nos governam, e que tiveram bom tino de manter as elites religiosas bem caladinhas para que lhe deixassem espoliar e inclusive enviar para o céu aos seus protagonistas. Formidável! magnífico! Isto explica que os dous partidos que permitiram o espólio do país: PP e PSOE, mantivessem os privilégios eclesiásticos. Com todo, cumpre felicitá-la porque a sua dilação no exame supõe uma avanço muito importante sobre os trezentos anos que lhe levou o exame de consciência sobre Galileu ou os cento e algo que tardou em reabilitar a Darwin.

Creio que o exame de consciência destas elites religiosas desvirtua a realidade porque não reconhece a gravidade do problema ao manifestar que não “souberam responder com prontidão aos lamentos dos mais necessitados”, quando deviam manifestar simplesmente que «não souberam respondera  aos lamentos dos mais necessitados», porque não se trata da maior ou menor prontidão senão de que não se soube responder em absoluto ao grito dos que sofrem as conseqüências duma crise que unicamente favoreceu aos que a provocaram, enquanto que o seu rol foi assistir como expectadores mudos e passivos ante o que estava a passar, e inclusive aproveitar a ocasião para imatricular milhares de imóveis que se edificaram com dinheiro dos cidadãos.

Por tanto, o exame de consciência faz-se dum modo distorcido e extemporâneo, e não dum modo íntegro, como requer o magistério eclesiástico, para os seus fieis, se bem, ha que felicitar as suas manifestações sobre um câmbio de atitude, porque como diz o adágio popular, «mais vale tarde que nunca», sempre, porém, que se reconheça a gravidade dos fatos, que neste caso é problemático que se dê. Porém é a prática a que nos fará ver se realmente se produz esse câmbio ou é uma mera pose.

2 ª.- Contrição de coração

A contrição de coração, enquanto sentimento interior, não se pode medir e somente se pode dizer aquilo do evangelho: ”polos seus frutos conhecê-los-ei” (Mt. 7, 20).

3ª.- Propósito da emenda

O propósito da emenda deve manifestar que realmente um está disposto a cambiar em todo o que se reconhece que se obrou incorretamente, e, por tanto, dificilmente se compadece com a constante reiteração da culpa e com a reiteração da petição de perdão mecanicamente. Quando uma instituição tem uma história de séculos tão manchada como o cristianismo, já pode concluir com todos os requerimentos lógicos que o seu propósito da emenda é pouco mais que uma palavra vácua.

4ª.- Confissão de boca

Que confissão de boca lhe exigimos? Quando uma pessoa quer atuar consoante aos princípios duma moral superior não deve ser guiado pola vingança, por ser uma mostra duma moralidade inferior, e por isso, não lhe exigiremos que o faça, como ela exige, dum modo auricular a uma pessoa individual porque esta confissão auricular é uma prática aberrante e inclusive diria que nem é uma exigência bíblica nem é constitucional. Desejaria provar estas duas afirmações embora tenha que investir um pouco de tempo.

a.- Não é uma exigência bíblica.

Deus é quem perdoa os pecados. Diz ele: “Era eu, eu mesmo quem tinha que limpar a tuas rebeldias por amor de mim e não recordar os teus pecados” (Is. 43,25); “Bendiz a Iavé, alma minha, não olvides os seus muitos benefícios. Ele que todas as tuas culpas perdoa, que cura todas as tuas doenças” (Sal. 103, 2-3). Claro que uma cousa é que Deus perdoe e outra mui distinta é se a intervenção do sacerdote é um requisito obrigatório para que Deus perdoe, e esta via é a que se quer transmitir aos fieis, mas tão-pouco tem apoio nenhum na Escritura.

Ha teólogos dogmáticos que citam textos do Antigo e Novo Testamento para provar a intervenção do sacerdotes. Vejamos alguns. “Se um home se deita maritalmente com uma mulher que é uma serva pertencente a outro, sem que tenha sido resgatada nem liberada, será ele castigado, mas não com a pena de morte, pois ela não era livre. Ele oferecerá um carneiro, o seu sacrifício de reparação para Iavé, á entrada da Tenda do Encontro, será um carneiro de reparação. Com o carneiro de reparação, o sacerdote fará expiação por ele ante Iavé polo pecado que cometeu, e perdoar-se-á o seu pecado” (Lev. 19, 20-22). Qualquer pessoa minimamente sensível moralmente deveria arredar-se de citar este texto porque, á parte de não demonstrar o que se pretende, desacredita totalmente a quem o faz, pois apresenta a Deus como justificador da escravidão, a desigualdade social entre os seres humanos, a diferença entre homes e mulheres e os sacrifícios cruentos de seres vivos. Além disso, também é fútil aduzi-lo porque não demonstra que se tenha confessado nada ao sacerdote, senão que se trata de alguém que foi surpreendido in fraganti e o sacerdote o que faz é oferecer um sacrifício para obter o perdão de Deus, mas sem que ele perdoe nada. Por outra parte, a partir do contido deste texto, já nos vemos obrigados a concluir que, por mais que um texto bíblico diga algo, não por isso temos que constituí-lo em norma da nossa atuação moral, que deve ser sempre os direitos humanos e não textos que respondem totalmente a sensibilidades mui distintas das nossas. No Salmo 51, 2-3, diz-se: Deus “lava-me a fundo da minha culpa, e do meu pecado purifica-me. Pois reconheço o meu delito, o meu pecado está sempre diante de mim”. A confissão faz-se ante Deus e é ele somente quem purifica. O mesmo temos que dizer doutros textos que costumam aduzir-se como: Levítico 4, 27-35, Isaías 43,25,  etc. Em Lev. 4, 27-28 diz-se que “Se um qualquer do povo da terra peca por inadvertência tendo algo proibido polos mandados de Iavé, fazendo-se assim culpável; se se lhe adverte do pecado, apresentará como oferenda polo pecado cometido uma cabra sem defeito”. Porquê não se abstêm os teólogos dogmáticos de citar textos destes? O autor deste texto está demonstrando uma moralidade de caráter infantil, própria dos povos primitivos e dos meninos nas primeiras fases do seu desenvolvimento. Uma ação cometida por inadvertência nunca pode constituir um pecado, crime ou delito de nenhuma classe porque todo pecado pressupõe consciência e vontade livre, e não basta que um desvie objetivamente da norma se não desvia subjetivamente. O destinatário destas oferendas era o deus mas, ao não achar maneira de meter-lhas a deus na boca, os seus beneficiários eram os sacerdotes, que já então, como agora, exigiam o melhor para eles. O quinto mandado da Lei de Deus reza ou rezava: «dar décimos e primícias á Igreja de Deus», ou em palavras mais vulgares: os camponeses devem dar-lhe o melhor ao sacerdote.

Na sociedade israeliana a confissão faz-se somente perante Deus e era considerado um escândalo que alguém, distinto de Deus, ousasse atribuir-se a potestade de perdoar os pecados (Mc. 2, 7). Jesus atribuiu-se este poder e por isso, entrou em conflito com a sociedade hebréia do seu tempo. Em Lc. 7, 48, quando Jesus lhe diz á Madalena que os seus pecados lhes são perdoados, não se fez preceder duma confissão prévia senão que se aludia aos comportamentos públicos que toda a gente conhecia. No mesmo evangelho de Mateo (Mt. 9, 1-5l) Jesus diz-lhe a um paralítico: os teus pecados são-te perdoados, mas tão-pouco aqui precede nenhuma confissão dos pecados, senão que Jesus lhe diz isso porque entendia, algo habitual a esta altura, que o doença é fruto do pecado, e todo aquele que sofre muito tem que ter pecado muito, e a cura implica que um fica livre de pecado. Mt. 9, 6: “Pois para que saibais que o Filho do Home tem na terra poder de perdoar os pecados -diz então ao paralítico- : «Levanta-te, toma a tua camilha e vai-te para a tua casa»»”. Além do pecado relacionado com a doença, a Bíblia fala doutra série de pecados sem concretizar e da blasfêmia (Mt. 12, 31-32), de pecados dos irmãos  (Mt. 18, 21), etc.. Todos os pecados serão perdoados, por graves que sejam, salvo o pecado contra o Espírito Santo (Mc. 3, 29). Porquê este pecado não se perdoa. Quem é esse ser denominado Espírito Santo?   Este é um tema que cumpre deixar para outro dia.

Cristo não instituiu nenhuma casta sacerdotal e nem sequer instituiu uma Igreja. O único que se pode dizer é que teve a pretensão de fazê-lo, mas em todo caso não a levou a cabo. “Ti és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. A ti dar-te-ei as chaves do Reino dos céus, e o que ates na terra será atado no céu e o que desates na terra ficará desatado nos céus” (Mt. 16, 18-19). Jesus diz, por tanto, edificarei e isto não equivale a edifiquei nem estou edificando nem que a experiência confirmasse que o fez.

Nos Evangelhos fala-se muitas vezes dos sacerdotes, mas sempre se utiliza esta palavra para designar os sacerdotes judeus, que eram os únicos reconhecidos por Jesus, que ordena aos curados que se apresentem ante ele e façam a oferenda que prescreveu Moisés. Tão-pouco se citam nos Fatos dos Apóstolos mais que sacerdotes hebreus, se bem em 19, 14 fala-se de «sacerdote judeu» e isso poderia indicar que já se começava a distingui-los doutro tipo de sacerdotes. Na Carta aos hebreus, é Jesus quem é denominado sumo sacerdote, e sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, rei de Salém e sacerdote de Deus Altíssimo, que bendisse a Abraão. 

Na I Carta de Pedro, todo cristão é considerado como sacerdote: “Mas vós sois linhagem elegida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, para anunciar os louvores de aquele que vos chamou das trevas á sua admirável luz” (I Ped. 2, 9. Cf. Apocalipse, 1, 6; 5, 10).  Por conseguinte, de acordo com isto todo batizado é sacerdote, fato que é reconhecido polos católicos e protestantes, que também ambos reconhecem que isso não exclui que haja ministros, se bem onde se distinguem ambas confissões é na maneira de conceber estes ministros. Os protestantes afirmam que o sacerdócio é uma função que pode ser desempenhada por qualquer cristão que seja elegido com esta finalidade pola comunidade; enquanto que os católicos dizem que é um sacramento, uma consagração por Deus e os sacramentos somente pode conferi-los as pessoas que tem a faculdade de conferi-los, que neste caso seriam os bispos.

Na Carta de Santiago, 5, 14, aconselha-se: “Confessai,  pois, mutuamente os vossos pecados e orai os uns polos outros, para que sejais curados. A oração fervente do justo tem muito poder”. São os próprios cristãos quem se confessam entre si mutuamente, e sem ter que fazê-lo num confessionário, e, como resultado, obtêm a cura, se bem não se concretiza se é Deus quem a concede ou os próprios cristão. É certo que no Evangelho de João se manifesta que se concede aos seus discípulos a faculdade de perdoar, que implicava a faculdade de curar as doenças, mas nada diz da exigência de acudir a um confessionário. “A quem perdoeis os pecados, ser-lhe-ão perdoados, e a quem lhos retenhais, ser-lhes-ão retidos” (Jo. 20, 21-23). Os apóstolos podiam perdoar mas também o pode fazer Deus diretamente, e os fieis não necessitavam humilhar-se para contar-lhe a um clérigo o que um não quer contar, e que, ademais, pode condicionar negativamente a atuação do sacerdote para com outras pessoas.

Por conseguinte, a confissão auricular não tem apojatura bíblica. Os protestantes não crêm na necessidade de recorrer á confissão auricular nem á absolvição por parte dum ministro ordenado para obter o perdão dos pecados, e, por tanto, excluem esse procedimento, salvo os anglicanos e luteranos que, ainda que aceitam que não é necessário, não o excluem.

Além disso, ainda que houver textos bíblicos claros que falassem e prescrevessem a confissão auricular, isso só indicaria que também nisso se equivocaram, como em enviar aos infernos aos homossexuais, defender a inferioridade da mulher, ordenar a lapidação das mulheres surpreendidas em adultério, defender a escravidão, a castração, etc., etc. Na Bíblia podem-se encontrar textos para um roto e para um descosido, e, por tanto, isso só conduz a fazer o problema insolúvel. Este tema não se soluciona com a apelação a textos bíblicos, muitos deles totalmente inservíveis para constituir a base duma argumentação racional e assumível pola sociedade de hoje, senão a partir dum ideal de humanidade e de divindade: ou seja, explicitando que ideal de home queremos e que divindade queremos, porque ambos são criaturas humanas e mui humanas. 

A partir da Igreja poder que se forjou a partir do século IV, também se foi generalizando a prática de confessar os pecados ao sacerdote. Proíbem-se a recitações públicas dos pecados e fica unicamente a confissão auricular, documentada por primeira vez claramente num documento do papa Leão I, do ano 459: “Constituo que por todos os modos se desterre também aquela iniciativa contrária á regra apostólica, e que faz pouco soube é prática ilícita de alguns. Referimo-nos á penitência que os fieis pedem, que não se recite publicamente uma listagem com o gênero de pecados de cada um, como quer que basta indicar as culpas das consciências somente aos sacerdotes por confissão secreta. Porque se bem parece plenitude laudável de fé a que, por temor de Deus, não teme a vergonha perante os homes; porém, como não todos têm pecados tales que quem pedem penitência não temam publicá-los, ha desterrar-se costume tão reprovável. Basta, com efeito, aquela confissão que se oferece primeiro a Deus e logo ao sacerdote, que é quem ora polos pecados dos penitentes. Porque se não se publica nos ouvidos do povo a consciência de quem se confessa, então si que poderão ser movidos muitos mais a penitência”.

Quais foram as razões de institucionalização desta prática? Para mim a resposta não é outra que  o controle das consciências por parte da Instituição eclesiástica. Numa época em que a gente estava atormentada polo terror de ir ao inferno, o pior que lhe podia passar a um crente era que se lhe denegasse a absolvição por parte do sacerdote. Por outra parte, isso permitia-lhe á Instituição eclesial ter uma fonte de informação mui relevante para o controle da população, para fortalecer o seu poder econômico e para a repressão dos desviantes, especialmente valiosa durante a perseguição dos cátaros e albigenses e durante a vigência da Inquisição. Segundo documentos familiares, confirmados por outros de amigos, durante os séculos XVII e XVIII, os clérigos deviam informar ao bispo onde e como os fieis fizeram testamento, todo indica que com a finalidade de pressionar sobre as consciências e de obter informação sobre os legados á Igreja.

b.- É contrária á Constituição

No artigo 16, 2 estatui-se: “Ninguém poderá ser obrigado a declarar sobre a sua ideologia, religião ou crença”. Por tanto, o que pensa cada um é sagrado e nenhum clérigo pode intrometer-se nisso, e condicionar a absolvição própria a que lhe manifeste aos sacerdotes qual é a minha interpretação dos dogmas, dos anticonceptivos, aborto, divórcio, etc..

O artigo 17, 3, reza: Uma pessoa detida “não pode ser obrigada a declarar”.. O artigo 18, 1, garante o direito á intimidade pessoal, que não se cumpre se tenho que manifestá-la ante um tribunal, como é o confessionário. O artigo 24, 2, garante o direito a não declarar contra si próprio, a não confessar-se culpável e a presunção de inocência.

Por tanto, a confissão somente se poderia justificar se temos uma lei para os cristãos e outra para as demais cidadãos. Faz dous dias, um amigo formado e inteligente, fez a observação de que se imos a um médico temos que declarar os sintomas, dando a entender que aqui deveria ser igual, porque em caso contrário não se pode curar ou perdoar, mas os dous casos não são análogos, porque: a) Um tem direito a não declarar os seus sintomas, ainda que isso lhe suponha enfrentar-se á morte, enquanto que a instituição eclesiástica impõe a obrigação de confessar, podendo recorrer a outras vias; b) Em segundo lugar, a medicina está avalizada por uns resultados contrastáveis, enquanto que a mensagem eclesial não teve um êxito semelhante, e fracassou reiteradamente quando se contrastaram os seus resultados com os da ciência; c) Os sintomas duma doença não são igual que a manifestação da própria ideologia religiosa, filosófica, etc.; d).A prática eclesial está mui pouco fundamentada, como o indica o dissentimento das confissões protestantes, e é ridículo considerar que os fieis destas vão ao inferno por não contar-lhe as aflições aos sacerdotes; e) É a Igreja quem tem que cambiar uma prática injustificável sem ter que submeter a nenhum dilema deste tipo as consciências dos crentes. Em todo caso, um ser humano livre deve ter a suficiente segurança de que nenhum Deus com sentido, qualificado de bom e sábio, o vai castigar porque uma instituição eclesial, tão desencaminhada por outra parte, o ameace com penas e tormentos eternos, só próprios de seres sádicos e tiranos. Um deus assim, simplesmente não seria deus.

Em resumo, a confissão de boca ante o sacerdócio cumpre cambiá-la em confissão de coração ante o próprio Deus.

5ª.- Satisfação de obra.

Segundo parece, a Igreja cambiou-lhe agora o nome polo de penitência, empiorando ainda as cousas. Os clérigos não têm poder de Deus nem dos seres humanos para exonerar de toda responsabilidade a criminais, assassinos, ladrões de coelho branco que exaurem e  tiranizam os povos, etc., simplesmente com o recitado de jaculatórias, por numerosas que estas sejam. Os delitos ha que limpá-los e somente se limpam com a reparação do dano causado. Por tanto, um roubo deve implicar a restituição do roubado. Este modo de proceder que confere perdões fáceis e baratos, destrói qualquer moralidade digna deste nome.

Igualmente a Igreja, se demanda perdão e em consciência está arrependida, tem que restituir os bens dos que se apropriou, entre eles as numerosas imatriculações de bens de domínio público sem dono reconhecido. Deve igualmente renunciar a cobrar dos impostos pagados por todos os cidadãos, incluídos os que são ateus ou doutras religiões, pagar impostos como todo o mundo, e considerar-se parte e não um estado dentro do estado, com privilégios a eito. 

Se procede assim, será generosamente perdoada tanto por Deus como polos cidadãos.

25 abr 2015

A casta política


A irrupção de Podemos no panorama político espanhol produziu-se com uma ruptura da linguagem que descrevia aos políticos que regentaram Espanha desde a transição como os políticos da casta, se bem não foram mui explícitos na explicação do termo. Algum dos aludidos por esta desqualificação aprestavam-se a negar esta denominação alegando que ele não se sentia casta. Creio que cumpre clarificar os conceitos porque em caso contrário andaremos entre penumbras e confusões e nunca saberemos bem de que estamos a falar. O primeiro que temos que fazer é dilucidar que é uma casta.

A nível etimológico, a palavra hispana e galego-portuguesa casta vem do latim castus, que significa casto, puro, limpo, termo este último que era aplicado aos que são puros, limpos, continentes no sexo, entendido na cultura judeu-cristã como algo sujo do que cumpre purificar-se. Quando um termo é utilizado socialmente isto indica que responde a uma prática comunitária e a uma necessidade social, e, por tanto, indica que os ibéricos em geral tinham práticas que o faziam necessário. No Estado espanhol começou a aplicar-se a palavra casta á pureza de sangue para denotar aos que não tem mistura de judeus nem herança (sangue) muçulmana, e ligada com as idéias de legitimação, linhagem e honor. Em Hispano-América associou-se á idéia de raça, aplicada aos que tinham mistura de brancos e não brancos (índios e e raças mistas ou castas). As castas originárias principais em América latina eram os espanhóis, os ameríndios e os  negros. A classificação por castas tinha relevância por ter conseqüências no matrimônios, aceso ao sacerdócio, elegibilidade para cargos, migrações, etc. E de ai a importância de provar a pureza de sangue mediante a genealogia. A casta era, neste contexto, uma categoria social de caráter racial.

O primeiro que temos que ter em conta é que se trata, pois, duma categoria sociológica e não uma categoria ética nem individual; ainda que pode haver estruturas sociais com um único indivíduo; ou seja, trata-se duma categoria de estratificação social que atribui pessoas individuais a grupos sociais. De por si não tem nada que ver com o comportamento moral individual das pessoas. Uma pessoa duma determinada casta pode ser sumamente íntegra a nível moral por mais que pertença a uma casta favorecida. Outra cousa mui distinta é se o sistema de castas em si é moralmente correto. A classe burguesa é uma casta mas isso não permite qualificar de corruptos ou imorais aos que se integram nela, se bem como elite extrativa dos recursos da cidadania é pertinente o debate se esta estrutura social é justa ou injusta, e, neste último caso, só cambiando a estrutura social se pode cambiar a situação real e nunca inculpando a indivíduos que integram estas estruturas.

A nível real a palavra casta recebe duas acepções.

1ª.- A casta é uma divisão endogâmica e hereditária sem mobilidade social e fechada na sua organização, os seus usos e direitos próprios e com uma distinção hierárquica determinada, em termos gerais, polo gênero de atividade. Ex.: a casta dos Brâmanes (sacerdotes, filósofos, professores); Xátrias (guerreiros); Vaixás (comerciantes, agricultores) e Sudras (artesãos, operários e camponeses). Fora dos sistema estariam o dalits ou párias, intocáveis, (recolha de resíduos, coveiros, servidores do fogo, ...)  Neste sentido, os órgãos institucionais na Espanha, incluídos os partidos políticos, não são uma casta,  pois não são rigidamente endogâmicos nem hereditários, se bem casos como o de Baltar em Ourense, acercam-se muito, salvo polo que diz respeito á Coroa, que é um exemplo claro e paradigmático de casta no sentido mais estrito. Neste caso é uma estrutura social integrado por uma pessoa, e está ligada a outra característica das castas elevadas que é a idéia de privilégio.
  
2ª. Numa segunda acepção, menos estrita, a casta é uma classe fechada da sociedade, zelosa da preservação dos seus direitos e/ou privilégios. Ex.: a casta nobiliária, a classe burguesa, ou seja as elites oligárquicas que se cuidam de preservar o seu status privilegiado á margem dos interesses coletivos.

Neste segundo sentido, si podemos dizer que a classe política é uma casta, porque é uma classe fechada e privilegiada e com uns interesses e preocupações que não sintonizam com a cidadania, como se demonstrou claramente com o berro de “não nos representam” dos indignados do 15 M. Uma casta pode estabelecer-se por lei ou por costume, neste caso normalmente pola pressão dos grupos dominantes. Em Espanha, a casta da classe política foi criada pola Constituição espanhola de 1978, que quis reforçar o status dos partidos políticos pretextando que era necessário na saída duma situação ditatorial. O seu artigo 6 diz que “os partidos políticos expressam o pluralismo político, concorrem á formação e manifestação da vontade popular e são instrumento fundamental para a participação política”. O pluralismo político expressa-se com os partidos políticos, com indivíduos que se apresentas a umas eleições, com meios de comunicação especialmente se existe pluralidade informativa, com a vertente política das associações culturais, etc., com a participação livre dos cidadãos em assuntos relacionados com a cousa pública, ... O pluralismo limitou-se com a lei eleitoral que dificulta a concorrência de pessoas não adscritas a partidos, favorece o bipartidismo e impõe as listas fechadas e bloqueadas, que tem como conseqüência que o fazem impossível; limitou-se também com meios de comunicação ao serviço do poder de turno, e, em todo caso, das duas grandes opções partidárias: PP e PSOE; e finalmente, também se limitou com uma política econômica praticamente idêntica nestes dous grandes partidos, como se exemplifica com o que está a passar no que estes partidos chamam políticas de Estado, defesa dos recortes, reforma constitucional do artigo 135, votações no mesmo sentido na Câmara européia, etc.

O pluralismo político ou expressa o pluralismo socioeconômico ou não é nada. Hoje os direitos dos obreiros não existem e foram laminados progressivamente nas diversas reformas laborais tanto polo PP como polo PSOE, que impedem que as pessoas podam planificar a sua vida porque a legislação não se fez pensando neles senão pensando nas elites oligárquicas, que são as que realmente imperam no país. A indignação da cidadania viu como se lhe fechava, com a Lei de Segurança Cidadã, a válvula de escape que tinha para protestar. A pluralidade informativa sempre esteve ausente no Estado espanhol, e a apertura que introduziu Zapatero, foi laminada polo governo de Mariano Rajoy.

Por tanto, creio que podemos dizer que a classe política em Espanha é uma casta e inclusive na sua acepção pejorativa de grupo fechado privilegiado e surdo ás aspirações cidadãs. O seu reforço pola constituição deu como resultado que se converte-se em casta e, como conseqüência que degenerasse numa situação de corrupção generalizada e sistêmica, na que os cidadãos afetados se vem obrigados a assistir dum modo passivo a um espetáculo bochornoso porque não existem vias para que a participação cidadã civilizada poda pôr couto a esta situação.

15 abr 2015

Política exterior espanhola





Garcia Margallo
Se em política interior, Espanha é um desastre, a cousa não parece ir melhor em política exterior. Teoricamente cultiva-se a retórica da irmandade com Latino-América, mas no plano real as cousas não podem ir pior, e as tensões proliferam: problemas com Cuba, Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador, Nicarágua, ... Eu acho que não ha objetivos claros e que Espanha pratica com as «nações irmãs» uma política que não é coerente com a que põe em prática com outras partes do mundo e mesmo no próprio país, e muito menos com a nossa afinidades com estes países irmãos.

Espanha pratica uma política de boa vizinhança com Marrocos apesar de que não se trata, nem muito menos dum regime democrático. A este efeito, não se recata de intentar limar toda classe de asperezas com os dirigentes deste país, inclusive quando este comete com os próprios nacionais atos que foram qualificados nestes dias de criminais, como os referidos á deficiente prestação de auxílio aos espeleólogos espanhóis atrapados num alcantilado no sul deste país, que se traduziu na morte de dous deles. Também intenta fazer a vista gorda no caso das acusações do juiz Ruz contra onze altos cargos marroquinos por um delito de genocídio polos crimes que se cometeram contra refugiados do Saara Ocidental entre os anos 1975 e 1992, povo com o que Espanha está em divida desde o desatinado processo de descolonização que protagonizou em 1975.

Não duvida tão-pouco Espanha de colaborar com a ditadura do Presidente da Guiné ou, polo menos, nunca a demonizou ante a opinião pública espanhola. Faz-lhe as beiras igualmente ao regime chinês apesar de estar nas antípodas da sua ideologia política e ser um dos últimos países que, polo menos formalmente, conservam o apelativo de comunistas e um dos máximos conculcadores dos direitos humanos, e inclusive se aprestou a cambiar as leis espanholas para anular a justiça universal que podia imputar a cargos chineses, para não desagravar a este regime.

Com América Latina sucede ao revês. Encirrou-se á opinião pública espanhola contra os países progressistas de América Latina, com a acusação contra Cuba de ser uma ditadura comunista e contra Venezuela e Bolívia de ser regimes populistas. Esta última acusação é das mais chocantes porque o termo populismo, com o que também se estigmatiza a Podemos ante a opinião pública, é um termo que não tem um significado claro e definido, mas que com tanto repeti-lo somente se inocula na opinião pública de que é algo mau, sem precisar exatamente em que está a sua maldade. Um dos significados de populismo, é o de amigo do povo, e, por tanto, de praticar uma política de proximidade com as gentes, de atender as suas aspirações e desejos, de contar com eles e tê-los em conta, que é algo consubstancial com a democracia. Isto não é o que praticam realmente os chamados democratas espanhóis, que se apresentam com um programa ás eleições e aplicam outro totalmente distinto, e inclusive se ufanam disso. É bem eloqüente o que manifestava Mariano Rajoy em fevereiro de 2013: "No he cumplido mis promesas electorales, pero siento que he cumplido con mi deber". Isto indica que, para o presidente do Governo espanhol, cumprir as promessas eleitorais não é uma obrigação nem o mais importante, senão cumprir o dever que não se sabe de onde extrai a sua obrigatoriedade. Fez em realidade algo que é o mais oposto á democracia, que foi atender as petições que emanavam de Berlim e fazer caso omisso do que prometera aos seus votantes e inclusive a todo o povo espanhol, reduzido a mero comparsa de legitimador formal duma legitimidade de origem, que seria seguida duma deslegitimidade de exercício. As suas políticas tiveram sempre a característica de opor-se ao que pensava a maioria social, como no caso da lei do divórcio, da lei Wert, da lei de Segurança cidadã, duma reforma fiscal regressiva, duma lei laboral que lhe laminou todos os direitos aos trabalhadores, etc. etc.

Como machucam uma e outra vez, dizem que tiveram que fazer isto porque o estado da economia com que se encontraram era muito pior do que esperavam, o qual indica que o Chefe dum partido que governava em grande parte das comunidades autônomas espanholas não se inteirava de nada, apesar de ser várias delas as mais dissipadoras e mal geridas, como Valência, Madrid, Murcia, etc., e que a associação ligada ao seu partido, a FAES, recebe vários milhões de euros anuais para fazer estudos sobre a realidade espanhola.

Eu nunca fui um seguidor de Fidel, nem de Chaves e da sua revolução bolivariana, nem de Evo, mas si tenho que reconhecer que tanto Chaves-Maduro, como Evo Morales e Correa, foram dirigentes elegidos democraticamente e com todos os standars de legitimidade democrática. Os partidos hegemônicos espanhóis nunca os superaram em pulcritude eleitoral e, por tanto, em legitimidade de origem, e inclusive podemos dizer que, dado que parte destes partidos se financiaram com práticas corruptas, as regras do jogo se viram alteradas porque havia partidos que jogavam com botas ultima geração e com o público mediático a favor ambos pagados em última instância pola cidadania enquanto que outros tinham que jogar meio descalços e sem aplauso mediático.

Ha outros significados de populismo, neste caso negativos, que consiste em adotar medidas políticas destinadas a ganhar o favor da população, fundamentalmente dos eleitores, á custa de serem contrárias ao estado democrático. Neste sentido, creio que não se pode dizer que as medidas que tomou Chaves e Maduro foram contrários ao estado democrático, e não observo que se tiver produzido uma míngua dos direitos democráticos dos povos afetados. É certo que foram contrárias a muitos setores da população, mas no caso de Espanha foram medidas que prejudicaram á maioria social e foram acompanhadas de medidas repressivas para afogar a raiva dos cidadãos protestantes com malheiras e multas a eito e com uma distorção informativa a través dos meios de comunicação.

Também se utiliza o termo populismo para designar a governos que adotam medidas de governo keynesianas, quer dizer, medidas econômicas expansivas, além duma posição crítica a respeito de Estados Unidos. Mas isto diz mui pouco porque, no primeiro sentido, implicaria qualificar de populistas a muitos governos ocidentais, como os mesmos EEUU de América, e, no segundo,  aos países árabes beligerantes com os EEUU e aos movimentos integristas, que são outra cousa.

Em conseqüência, como o significado de populismo é ambíguo e os políticos nunca dizem como entendem este termo, entre outras cousas porque costumam mover-se mais facilmente na nebulosidade e na imprecisão, é muito melhor abandoná-lo a nível analítico. Hoje somente fica no ambiente que os políticos querem que a gente entenda que quando falam de populismo querem aludir a algo negativo, mas sem precisar em que consistiria essa negatividade. 

O domingo dia 12 foi entrevistado numa canal de televisão de âmbito estatal José Manuel Garcia Margallo, ministro de Assuntos Exteriores do Reino de Espanha,  e á pergunta de qual era a sua acusação contra Maduro não se recatou em afirmar que Maduro não respeitava as regras democráticas porque mantinha o controle dos meio de comunicação públicos. Quando um escuta uma acusação deste tipo ja não sabe em que mundo vive, porque a democracia espanhola caracteriza-se neste momento por:

1º.- Utilizar os meios públicos ao serviço do partido do governo, manipulando obscenamente as informações que se transmitem á cidadania. O governo do PP, o primeiro que fez quando acedeu ao poder foi cambiar as normas de nomeação do Diretor Geral da TVE para que servisse de canal de transmissão das políticas governamentais. Por outra parte, os trabalhadores da TVE estão a denunciar constantemente a manipulação das informações e a criação de redações paralelas fieis á política do PP. Esta é uma crítica comum a todas as televisões onde governa o PP e diria também que onde governa o PSOE.

Por citar o último, o dia 14/04/2015, o Conselho de Informativos da televisão pública dirigiu um informe ao Parlamento Europeu no que põem de manifesto a manipulação existente no principal canal público espanhol de RTVE, que implica:

- A falta “de imparcialidade, pluralidade, veracidade e objetividade, convertendo-se polo contrário num instrumento de propaganda ao serviço do Governo”. Esta falta concreta-se em :

a.- Diretrizes progovernamentais nos telejornais que se traduziram num 82 % de notícias favoráveis ao Governo e só um 10 % desfavoráveis.

b.- Ocultação do escândalo que afetou ao ministro de Fazenda Cristobal Montoro.

c.- Silenciamento da intervenção do porta-voz do PSOE para denunciar o escândalo relativo ao financiamento irregular do PP e a comparação, no argumentário do assessor do ministro Montoro, do PP com Caritas ou Cruz Vermelha.

d.- Ocultação do cargo que ocupa a responsável de campanha do PP ao Concelho de Madrid no caso da sua imputação na operação de corrupção Púnica.

e.- Silenciamento da crise que afeta ao PP a raiz do fracasso nas eleições andaluzas com duras acusações de Cospedal contra cargos do Partido e do Governo.

f.- Programas de televisão enviesados com sobre-dimensionamento dos defensores das teses governamentais e escassa representação de participantes críticos e da oposição.
 
g.- Contratação de pessoas alheias aos informativos de clara tendência ideológica governamental, e apartação das suas funções das pessoas que os vinham desempenhando.

h.- Contratação de  redatores doutros meios para acometer as informações mais sensíveis e polêmicas, com vaziado das áreas afetadas.

i.- Manipulação informativa nos nas televisões autonômicas, nomeadamente em Andaluzia e em Castela a Mancha.

2º.- Inexistência de divisão de poderes. O PP é um partido caudilhista onde o seu Chefe de Partido controla praticamente todos os resorts do poder. Eles alegam que a prática do dedão é democrático porque se votou que fosse assim. Isto converte este partido no mais caudilhista quiçá do mundo, com a gravidade que se fez com o aplauso e consentimento dos próprios militantes que se fazem o haraquiri do seu poder de decisão em benefício do líder. Esta delegação do próprio poder de decisão constitui uma autoamputação de direitos próprios e não se compadece com os direitos humanos que têm como características definitórias a sua inviolabilidade, que não podem ser conculcados por outros, e a sua inalienabilidade, ou seja, que são irrenunciáveis.

O Chefe do Partido é quem, em última instância, nomeia aos candidatos ás eleições gerais, e, por tanto, se ganha, controla aos membros do poder legislativo. Deste poder legislativo depende a nomeação dos órgãos do Conselho Geral do Poder Judicial e do Tribunal Constitucional, e, por tanto, indiretamente, controla o Poder Judicial. É também quem nomeia aos membros do executivo. Tem, por tanto, direta ou indiretamente, o controle sobre os membros do Executivo, Legislativo e Judicial.

3º.- A minusvaloração dos direitos humanos. Durante o mandado do PP cercearam-se os direitos humanos dos trabalhadores, com a reforma laboral; dos povos e os seus sinais de identidade como a língua, com a negação a que os cidadãos dos povos decidam e a língua própria poda ser utilizada em todos os âmbitos; o direito á vivenda, com uma política que favoreceu que centos de milhares de famílias fossem despejados das suas vivendas; aos meios de subsistência, que se traduziu em milhares de famílias em situação de pobreza, milhares de pessoas mendicantes; milhares de pessoas vivendo de Caritas ou dos Bancos de Alimento, e milhares de meninos desnutridos; limitação dos direitos de manifestação dos cidadãos asseteados por multas; limitação do direito á saúde com despedimento de milhares de médicos e enfermeiras que se traduziu numa deterioração da assistência e em intermináveis listas de espera; diminuição da qualidade do ensino, com milhares de docentes despedidos, incremento do número de alunos por aula e incremento de professores que ensinam matérias afins; perda do poder aquisitivo dos funcionários e pensionistas, com a congelação das suas percepções retributivas. ... A contrapartida destes recortes, foi promoção duma política que favoreceu aos ricos e ás grandes empresas, que elevou a quota de desigualdade a uma das maiores da Europa.

Nos últimos tempos estão a proliferar as acusações de violação dos direitos humanos contra Espanha por parte dos organismos internacionais. Assim, Anistia Internacional alertava o 26/03/2015 da ofensiva contra os direitos humanos por parte do governo do PP com a aprovação das leis de Reforma do Código Penal e a Lei de Segurança Cidadã, que restringirão o direito á liberdade de reunião pacífica, associação e expressão. Também introduzirão medidas antiterroristas que legalizarão as devoluções em quente e ilegalmente dos imigrantes e refugiados de Ceuta e Melilha. A respeito da reforma do Código Penal critica que se ampliasse a definição de terrorismo para incluir a «resistência» ás autoridades públicas e a «imprudência», que inclui o apoio involuntário a uma empresa terrorista. A Lei de Segurança Cidadá ou «Lei Mordaça» restringe a gravação em vídeo a agentes da policia, com multas de trinta mil euros a quem difunda as imagens, permite multar a pessoas que manifestem «falta de respeito» e faculta que sejam as autoridades governativas e não os tribunais quem imponham multas para numerosos delitos de ordem pública, com míngua das garantias processais.

O 27/03/2015, quatro mecanismos de Nações Unidas criticam que Espanha não investigue nem deixe que a justiça argentina investigue as graves violações de direitos humanos cometidos polas autoridades franquista como as de tortura, roubo de meninos e execuções extrajudiciais.

O 13/02/2014 o Comitê Europeu de Direitos Sociais alerta de que o decreto sobre sustentabilidade que pretende aprovar o Governo -seria aprovado em abril de 2012-  vai implicar diversas vulnerações da Carta Social Européia; em concreto que a exclusão generalizada dos pessoas migrantes em situação irregular do Sistema Nacional de Saúde, salvo os menores, embaraçadas e urgências, constitui uma vulneração do seu direito á saúde por impedir-lhe aceder á assistência sanitária em igualdade de condições com as demais pessoas. Critica, em referência ás prestações por desemprego e doença, a sua quantia mínima e insuficiente para satisfazer alguns dos direitos contemplados na Carta Social Européia. Fora do marco da Segurança Social critica duramente as prestações sociais que se percebem em Espanha.

O Tribunal Europeu de Direitos Humanos já acumula mais de 70 sentenças condenatórias contra Espanha por vulneração dos direitos humanos, especialmente relacionadas com o trato que recebem as pessoas acusadas de terrorismo. Somente imos citar alguma delas.

O 22/10/2013 condena a Espanha pola doutrina Parot que supôs a aplicação retroativa das normas penais, com clara violação do direito á liberdade e á segurança, previsto no artigo 5.1 Convênio Europeu de Direitos Humanos e o previsto no artigo 7 segundo o qual não pode existir pena sem lei.

O 22/04/2014, foi condenada por violação do direito a um processo equitativo por não ter utilizado todas os meios de proba necessários para constatar a culpabilidade do acusado.

O 10/07/2014 o Tribunal Europeu de Direitos Humanos condenou a Espanha por violação do artigo 3 de Convênio Europeu de Direitos Humanos, que proíbe a tortura., ao não ter investigado os maus tratos a que foi submetido um demandante durante a sua detenção. 

O 14/07/2014 foi condenada por violar o artigo 13 do Convênio sobre o direito a um recurso efetivo dum grupo de saaráuis demandantes de asilo.

Tendo em conta que as demandas estimadas polo Tribunal Europeu de Direitos Humanos falham sobre sentenças de tribunais espanhóis, isto põe de relevo a incompetência destes tribunais ou a sua subordinação á pressão do poder político ou de correntes de opinião «manipulada».

O 16/01/2015, o Conselho de Europa critica que se pretendam legalizar as devoluções em quente porque esta disposição “não se ajusta á legislação nem da UE, nem do Conselho de Europa nem da ONU”. Noutras palavras, “não se ajusta ás obrigações internacionais assumidas por Espanha”.

O 25/10/2012 o Conselho de Europa emitiu um duro informe contra a Xunta de Galiza por desproteger o galego, ao contrário do que fazem os governos basco e catalão, e “convida as autoridades a que tomem medidas de modo que a introdução forçosa do modelo trilingue na educação não afete a educação na língua própria”. O Comitê de Expertos diz estar “preocupado” pola redução “da educação em galego” nas escolas, assim como polo “o apoio” que recebe a língua própria. Além disso, lembra ás autoridades que apesar de que a legislação vigente não implica uma educação plena em galego, si é necessário “que haja um número suficiente de escolas que ofereça educação completamente ou essencialmente em galego”,

Os resultados duma má política exterior têm que pagá-la todos os cidadãos e parece evidente que a fustigação do governo contra vários países sul-americanos vai provocar políticas de represália contra os interesses das empresas espanholas nesses países, além de que parece não estar devidamente matinada, e quiçá só obedece ao propósito de fazer um frente comum com EEU contra os países lhe são díscolos. O primeiro efeito é a posição desvantajosa que vão ter as empresas espanholas na apertura econômica de Cuba, e a segunda, as represálias econômicas que poda impor Venezuela.

   

4 mar 2015

A RELIGIÃO NO TEMÁRIO CURRICULAR

A propósito dum debate

Andrés Torres Queiruga
O dia 2/03&2015 presenciei parte dum debate, sobre o rol da religião no programa curricular escolar, numa cadeia de TV galega no que partipavam, entre outros, o meu amigo e teólogo Andrés Torres Queiruga, Tuco Cerviño e Pilar Garcia Negro. Creio que não se centrou bem o debate e isso gera uma impossibilidade de acertar no diagnóstico e prognóstico. Vou comentar algumas das cousas que se disseram.

Eu considero que a religião surge das necessidades humanas e da incapacidade de resolvê-las por parte do homes. Entre estas necessidades está também a superação do medo ante situações que não controlamos, a incapacidade de dominar e prever as forças da natureza em casos como as catástrofes meteorológicas, e a necessidade de proteção frente a inimigos exteriores e interiores.  Esta proteção faz-se mais premente no caso de conflitos bélicos, e de ai que todos os povos se dotaram dum deus ou santo, para o caso é o mesmo, que os protejam nestas situações de resultado incerto e que podem supor a aniquilação de grande número de pessoas ou do grupo em si. Por tanto, o Estado esteve sempre interessado em promover a religião polos seus efeitos de proteção ante o perigo, além de controle e uniformização social. A religião que tem autêntica força é a religião favorecida polo Estado, que a vai colmar de prebendas frente as demais para que realize a sua função de intercessora ante a divindade para realizar os cometidos aludidos. O favor estatal dá-se á religião a câmbio de subordinação á política de turno, que é o que se fez a través da história. Por conseguinte, como uma instituição parasitária do Estado, colabora com os poderes públicos a câmbio de contrapartidas de caráter econômico e de facilidades para propagar a sua mensagem, também modelando as consciências desde o ensino que, nos nossos dias, constitui uma perturbação da formação científica do alunado ao ser misturada, esquizofrenicamente, com uma formação mítico-supersticiosa.    

A necessidade de proteção ante a adversidade, pode colmar-se de duas maneiras: fazendo ao home débil, pecador, e a Deus onipotente, onisciente e bondoso em sumo grão, que foi o caminho que adotaram as grandes religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo; ou intentando reforçar a pessoa humana e fazê-la menos perturbável ante a adversidade com técnicas de melhoramento pessoal, que foi a opção seguida polas religiões budista, confucianista, etc., que inclusive carecem de divindades ás que acudir. As primeiras são religiões que odeiam e desprezam este mundo como indigno de ser vivido e intentam escapar dele, porque, como diz São Pedro de Mezonzo, este mundo é um vale de bágoas. Inventam um mundo fictício de ultra tomba que é o que realmente importa, e propalam que a felicidade nunca pode encontrar-se neste mundo senão no mundo do além, e de ai que é lógico que no novo temário de religião incluam o domínio de competências como ser capaz de reconhecer que a pessoa humana é incapaz, de por si, de alcançar a felicidade, e também de que o escolar seja capaz de compreender a origem divina do universo. Uma vez que se descarregou todo o poder, benevolência e sabedoria em Deus, não fica outra via que apelar a tales tópicos. Estas religiões monoteístas são religiões mui intolerantes que são capazes de cometer os atos mais cruentos e inumanos em nome do seu deus, que, por acima, os premia com a felicidade no paraíso. Porém discrepo de Tuco Cervinho quando disse que a religião cristã foi muito mais repressiva e intolerante que o Estado, porque o poder soberano dum país reside no Estado e não na Igreja, que se comete atos abomináveis, como o genocídio dos índios americanos por parte do cristianismo, foi porque o Estado lho permitiu. A religião cristão converteu-se em enormemente repressiva, intolerante e cainita a partir do seu reconhecimento oficial por Constantino, mas este deixava-lhe fazer porque queria tê-la subordinada aos seus desígnios políticos e isso tão-pouco conflitava com a sua moral criminal pessoal. O que si podemos dizer que é a instituição religiosa mais repressiva que existiu, com uns fitos não superados, como as cruzadas, a inquisição, a proibição de ler os textos bíblicos, a conivência com todos os regimes mais repressivos, defesa da castração polo reino dos céus, da escravidão, negações dos direitos humanos, mui nomeadamente nos nossos dias, os direitos dos povos, especialmente o da língua, como pôs de relevo Garcia Negro, etc., etc. Polo seu renome social e polo seu compromisso com a nossa língua, que sempre mereceu os meus parabéns, tenho convidado a dar uma charla sobre a língua galega na Igreja lá polo ano 1979 e fiquei surpreendido de não fosse minimamente crítico com a sua atuação alienante no nosso país. Após esta data convidei a outros clérigos inteligentes e comprometidos com a língua, polo menos teoricamente, e passou o mesmo. Do qual um extrai a conclusão, muitas vezes reafirmada, de que a crítica, que sempre é construtiva se é veraz, não vai com os membros da clerezia. A situação do galego no seio da Igreja não mudou o mais mínimo desde aquel então e quando assisto a uma celebração litúrgica, observo que os que comigo na átrio falam o galego, transmutam-se na celebração do rito porque Deus entende muito melhor a língua do poder e de passo contentam aos setores mais espanholistas.

As religiões budista e confucianista apelam basicamente a aperfeiçoar a pessoa humana e diminuir as fontes de insatisfação pessoal, e de ai que creiam muito mais nos seres humanos e na vida deste mundo. Estas religiões, igual que o hinduísmo, não vem a morte dum jeito dramático senão como um processo natural e inevitável porque as almas morrem e renascem de novo, e do que se trata é de como evitar este ciclo de mortes e renascimentos. Se bem também caíram na tentação de criar paraísos futuros, como seria, neste caso, a consecução da felicidade no estado de nirvana, são religiões muito mais tolerantes porque se baseiam no convencimento de que cada un tem que encontrar por si a felicidade mediante o autocontrole, autodisciplina e sabedoria e não existe uma Igreja que decida por eles o seu itinerário próprio nem têm que defender os direitos de nenhum deus, polo que os homes são capazes, nas outras religiões, de cometer os atos mais perversos e abomináveis.  

Em épocas de grande ignorância de como funciona a natureza e o ser humano, este inventou explicações míticas e imaginativas, segundo as quais o mundo está regido por forças animadas, por vontades poderosas que subjazem além dos acontecimentos concretos, que atuam ao seu bel prazer e que nos podem ajudar ou prejudicar, e de ai a necessidade de impetrar o seu favor e auxílio. A medida que se foi incrementando o conhecimento racional filosófico e científico, descobriu-se que o que antes se atribuía a espíritos benignos ou malignos, em realidade é produto de processos naturais e que pouco podem fazer os citados espíritos. No evangelho relatam-se casos de muitas possessões diabólicas, que eram tratados por curandeiros ou pessoas ás que se supunha certo poder magnético. Quando com o avanço da medicina deveu claro que em realidade não eram mais que fruto de desequilíbrios nervosos, epilepsia, etc., a solução que se busca é o diagnóstico dum psicólogo-psiquiatra, neurólogo, etc.

Até o século passado considerava-se que os fenômenos meteorológicos da chuva, vento, furacões, terremotos, etc., eram produto duma vontade divina airada e imisericordiosa com os seres humanos. De ai que cumpria fazer rogativas para que Deus nos enviasse a chuva. Eu tenho participado muitas vezes no Seminário em tales rogativas onde se implorava a todos os santos e santas, além de ao mesmo Deus, que se calmasse e atendesse as necessidades dos nossos campos e dos nossos animais, que hoje caíram totalmente em desuso e a gente olha mais para as isóbaras, baixas pressões, etc., que para as portas do céu. É outro campo no que também se considera que Deus tem mui pouco papel que cumprir.

Nos casos de defesa frente ao exterior, também se adquiriu consciência de que as jaculatórias pouco têm que fazer frente a preparação logística, bélica, tácticas acertadas, espia do possível inimigo, etc., e de ai que nenhum pais fiaria a sua defensa á vontade dum espírito em vez dum exército bem dotado, adestrado e preparado para competir em caso necessário.

Igual que a natureza exterior está dominada por forças animadas, também o ser humano tem dentro de si uma alma ou espírito que o dirige e que é independente dele e pode viver após a morte. Mas com os progressos da psicologia científica e a neurociência, esse hipotético motor interior que domina o corpo, esvai-se e o home chega a compreender que em realidade o que se chama alma não são mais que atos de pensamento, consciência, sentimento, etc., originado por um centro neurológico que é o nosso cérebro, e que, fora deles, não existe nada mais, e quando morre o cérebro também desaparecem os seus atos. Desta maneira, a imortalidade pessoal volve-se problemática e reclui-se no âmbito da crença, e muitas vezes duma crença irracional. Isto supõe um forte impacto para as religiões que sustêm a existência dum paraíso futuro no qual seremos felizes com Deus ou atormentados polo demo, ao tempo que representa um autêntico shock para pessoas que introjectaram a mística  crença de que este mundo não importa, porque o fundamental é o mundo futuro. Esta perda de espaço para impetrar os favores divinos, entre eles, para sacar as almas do purgatório, determina que o cometido da Igreja esmorece e cada passo vê-se como mais desnecessária. Cumpre ter presente que os clérigos sustêm-se em grande parte como resultado da crença no purgatório, que foi um invento platônico, concebido como medida política para incentivar as pessoas a que se portassem bem por medo a estes castigos post-mortem.

Também deixou Deus de ter um protagonismo na origem da vida, do home e do mundo, porque ha soluções científicas alternativas que também o condenam ao paro, e, polo princípio de economia, tanto físico como metafísico, o que é desnecessário numa explicação científica tem que se eliminado.

O Torres Queiruga aponta-se á tese do papa Francisco de que a religião não se contradiz com a ciência, e isto dizem-no os membros duma religião culpável da queima na fogueira de Giordano Bruno; de perseguir a Galileu até obrigá-lo a renegar do heliocentrismo para salvar a sua vida;  excomungar a Kepler; de incluir o livro de Copérnico no Índice de Livros proibidos, assim como os de Descartes, Kant; ..., condenar o evolucionismo e o livre pensamento em pessoas como Wiclef, Huss, Miguel Servet, etc., etc. Não basta que agora, em vista dos fracassos históricos que produziu a sua atuação, se diga que não ha conflito entre ciência e religião, porque foi a mesma Igreja cristã a que demonstrou que são incompatíveis com a sua guerra declarada contra a ciência a través da história.

Não está afortunado este notório teólogo galego, a quem eu respeito, ao dizer que a ciência não tem nada que ver com a criação e carece de sentido a sua pretensão de querer reservar um espaço próprio para a religião e a filosofia, que seria a criação, mentes que reservaria ao âmbito científico explicar como funciona o mundo. Consciente ou inconscientemente, o que se pretende é reservar-se um espaço místico próprio protegido com couraça de ferro contra a crítica e inoculado ante as objeções que pudessem derivar-se da eventualidade incompatibilidade dos descobrimentos científicos sobre as origens do mundo, da vida e do home. A teoria da evolução e do big bang são teorias respectivamente sobre a origem do home e a origem do universo, e tanto a religião como a filosofia devem estar abertos aos progressos científicos e assumi-los e pouco mais têm que dizer com sentido. No mundo sucederam-se diversas explicações da origem do universo e do home, e a explicação que aparece na Bíblia e foi adotada e ainda é sustida pola Igreja, é a explicação mítico-imaginativa babilônico-judia, que hoje não está em disposição de competir com a explicação científica. Não tem sentido desacreditar a Stephen Hawking ou Einstein dizendo que acertam como científicos, mas que patinam no âmbito religioso ou filosófico, porque hoje a única filosofia válida que se faz, sobre as questões da origem do universo e do home, são as teorizações dos astrofísicos e os biólogos e paleontólogos. O cometido da filosofia, e diria que também da religião, é construir explicações gerais integradas a partir dos descobrimentos produzidos em todas as ciências, não reservar espaços para pretender defender o mito, que foi em realidade o que fizeram as religiões até este momento. Ás suas investigações não se lhe podem opor mitos, por mui sacralizados que estejam por uns hierarcas religiosos ignorantes nestas matérias.

Lamento que o Torres Queiruga não pudesse explicar-se mais claramente ante a pergunta de Ignácio Bermúdez sobre o problema do mal, que não era o objeto de debate, mas polo que disse pareceu-me que deveria aperfeiçoar as sua explicação da origem do mal no universo. Creio que foi muito desafortunada a sua comparação de Deus e duma mai ante o problema de dor ou sofrimento do seu filho, porque uma mai não escolhe que filho pode gerar e o seu rol limita-se a decidir ser ou não mai e seguir certos conselhos médicos para procurar evitar problemas, mas definitivamente o filho é fruto dum processo natural e dum entorno social que ela somente domina numa mínima parte. O problema de Deus é distinto, porque a Igreja o define como onipotente, onisciente e bondade infinita e a partir desta definição é totalmente impossível justificar o sofrimento e o pecado no mundo. Porquê Deus não decidiu fazer-nos mais perfeitos, com uns materiais resistentes ás doenças e esforçados toda a nossa vida para procurar o nosso sustento e abrigo? Não sabia? Então não é onisciente. Não podia? Então não é onipotente. Não queria? Então é um ser malévolo. E de aqui não ha maneira de sair-se por muito disingos que se façam de cara á galeria. O que passa é que a Igreja não quer nem modificar o seu conceito de Deus nem pode fechar os olhos ante a realidade e então inventa teorias totalmente insatisfatórias, e construir florituras semânticas que em realidade obscurecem o problema. A religião tem toda a legitimidade de propor como crença teses que transcendem a explicação científica, mas dificilmente aquilo que colide frontalmente com a ciência. Por outra parte, penso que deve atrever-se a interpretar os seus textos fundacionais historicamente e não como textos definitivos e últimos que espartilhem, impeçam ou distorçam o conhecimento científico da realidade. 
.  
Enquanto ao diagnóstico das causas polas que os fieis a abandonam, creio que os clérigos cristãos se equivocam ao considerar que é um mero assunto de estar mais perto dos cidadãos e de saber transmitir melhor a sua mensagem, porque esta é tão repetitiva e monótona que não cabe ignorância dela. Do que se trata é de que carecem duma mensagem estimulante, novidadeira e atualizada, que enganche á cidadania. Trata-se sempre duma mensagem monotemática centrada numa moral sexual arcaica de caráter tribal judaica, que não sintoniza com a moral sexual da maioria social, como se comprovou na sua teima em restringir a lei do aborto liderando os setores mais integristas do país. Em realidade o cristianismo, como se lhe acusou muitas vezes, não tem uma moral própria, senão que é uma mistura de normas da moral tribal judaica, de caráter vingativo, em grande parte corrigido por Jesus de Nararé, cruel e amortecedora dos sentimentos de indignação cidadã ante a injustiça e a opressão, misturada e estruturada com aditamentos filosóficos platônico-aristotélico-tomistas e fundamentada em princípios diversos incoerentes entre si, liderados polo conseqüencialismo ético de que o fim da maior glória de Deus justifica qualquer meio por mui repressivo e perverso que seja, como tivemos ocasião de comprovar pola prática eclesial ao longo da história e, ultimamente, com as justificações da hierarquia sobre o silêncio dos escândalos de pederastia. Espero poder demonstrar detidamente todas estas afirmações numa próxima entrega, se o tempo e as forças mo permitem.

É uma moral que não conecta nem de longe com a problemática e sofrimento do home de hoje, vítima duma exploração brutal das oligarquias econômicas extrativas, que escravizam e degradam a personalidade humana até limites equiparáveis aos do liberalismo emergente décimononico, para o qual a Igreja não tem nada que oferecer. Quando, ao início da crise, se lhe insinuou que havia que limitar os seus privilégios, não se lhe ocorre nada melhor que afirmar que então reduziriam a sua já de por si mui parca contribuição a Caritas. Quando um lê o que se diz nos evangelhos sobre a pobreza e o que pratica a Igreja, bem se vê que não concordam em absoluto, porque a Igreja evangélica dos primeiros tempos, foi substituída, a partir de Constantino, pola Igreja poder, de caráter dogmático, repressivo e intransigente, que atesoura na terra enormes quantidades de dinheiro e patrimônio.

Frente a isto, não basta com afirmar que é na Igreja ha pessoas de todos os partidos, porque se bem na sua literalidade é certo, a proporção de pessoas de direita e extrema direita, que são quem realmente decidem, é abafante. Em conseqüência, é difícil de crer as suas afirmações de que a Igreja não é de direitas, pois basta com escutar o que propalam polas suas emissoras de rádio e televisão para precatar-se que sempre transmitem os valores mais reacionários e afastados da sensibilidade do home de hoje. Recomendar-lhe-ia a Torres Queiruga que deixe de falar das excelências do papa Francisco, porque até o momento presente somente teve uns quantos gestos, sem dúvida positivos, mas totalmente insuficientes e que não incidem nos autênticos problemas eclesiais: igualdade de gênero, celibato sacerdotal, corrupção generalizada, mensagem arcaica, dogmatismo fechado e incapaz de adequar-se aos descobrimentos científicos e á sensibilidade moral dos novos tempos, uma opção polos pobres que supere o nível de mero desejo, um financiamento próprio deixando atrás a imposição de que os cidadãos que não comungam com os seus valores se vejam obrigados a financiá-la como sucede na atualidade, as suas portas giratórias com o poder político, recebendo dinheiro das arcas públicas a câmbio da defesa duma única nação espanhola, etc., etc. Já que querem que sejam os pais que decidam na educação, que os pais decidam também no seu financiamento, e não retruquem com que ja cobre a sua casilha do IRPF quem quer, porque os que não a cobrem também têm que contribuir tanto como os que o fazem. Porquê uma percentagem tam importante de ateos que existem em Espanha tem que sufragar os gastos de instituições que negam a sua ideologia?