7 sept 2017

A religião e os atentados terroristas



            Depois de cada atentado os políticos reiteram uma e outra vez que é um problema de terroristas e não da religião em si, com objeto de evitar uma guerra de religiões e o ódio contra os que a praticam, propósito sem dúvida louvável, ainda que não parece ajustar-se à realidade, como todos os slogans demasiado simples.

Temos um feito constatável em todos os casos de ataques terroristas, que é o facto de que os seus protagonistas muçulmanos se realizam em nome de Alá e assassinam ao grito de «Alá é grande», e como  não existem indícios que nos permitam duvidar da sinceridade das suas reivindicações, temos que concluir que a religião algo tem que ver com o terrorismo. Contudo, seria desacertado estender a animadversão por estes ataques irracionais e selvagens aos praticantes das religiões em geral, pois a grande maioria dos crentes são pessoas de paz e contrárias aos atentados indiscriminados que visam dar morte a quantos mais, melhor, e deve concentrar-se nas pessoas e grupos que expandem o terror entre a população. Ora bem, os aderentes de qualquer religião ou outra associação devem tomar todas as medidas ao seu dispor para permitir que as autoridades do país onde têm lugar possam pôr ante a justiça aos seus autores, e condená-los sem paliativos.

Os terroristas muçulmanos manifestaram que a sua luta vai dirigida contra os cruzados e os judeus, que são considerados principalmente os «outros», e, se temos em conta que a religião muçulmana procede por filiação da judia e da cristã e que têm a mesma conceição filosófica de Deus ainda que com diferentes denominações, isto significa que a sua proximidade ideológica no referido ao conceito de Deus não propicia a mútua fraternidade e solidariedade entre elas, senão, ao revés, o enfrentamento e a divisão. Fixemo-nos em que não põem no seu centro de mira nos ateus, budistas ou hindus, senão  mais bem as confissões que têm um mesmo ar de família. Isto indica que, em realidade, existe uma luta latente pola supremacia mundial, neste momento especialmente do islamismo com as outras duas, com o propósito de impor o mesmo credo a toda a humanidade e, em definitiva, uma teocracia mundial, dando fim assim a qualquer resto de pensamento livre.

            Estas três grandes religiões monoteístas foram historicamente protagonistas de atos de terror tanto contra os seus próprios fieis como contra os chamados infiéis, indignos para eles de viver e, portanto, quando se lhe infere a morte está-se a fazer um serviço a uma divindade exclusivista que, segundo os livros chamados sagrados, quer monopolizar o culto de toda a humanidade.

A noção de Deus destas três religiões tem uma fonte comum que é o deus monoteísta judeu forjado durante o exílio de Judá em Babilônia, que se identifica com o deus tribal de Jerusalém, um deus ciumento, exclusivista, guerreiro, intransigente e despótico, que exige a total identificação dos fieis com ele. O povo hebreu sempre foi politeísta até a cativação de Babilônia que se estende do 586 ao 537, se bem cumpre ter em conta que estava dividido em dous reinos: Israel, que sempre praticou uma política de tolerância, e Judá e também a repressão religiosa dos seus reis, mais presente em Judá. O povo hebreu e outros povos do Médio Oriente adoravam um panteão de deuses que estavam presididos por «El», que significa Deus, e qualificado com os epítetos de Altíssimo, pai dos deuses e criador, e o seu símbolo era o touro. e, num primeiro momento, não condenavam o culto a outros deuses, se bem consideravam que o seu deus, Javé, era superior aos demais como se indica no Salmo 134, 5, escrito provavelmente arredor do ano 1004 a.e.c. “Porque eu conheço que o Senhor é grande e que o nosso Senhor (Javé) está acima de todos os deuses”. (Salmo 134, 5). A defesa duma ética de retribuição imanente na que todo ato leva associado a sua retribuição neste mundo e a associação do mal com o pecado, também presente em Jesus, vão contribuir enormemente a aderir ao monoteísmo por considerar que os fracassos de Israel provêm de ter-se afastado o povo e/ou os governantes de Javé. Com todo, ainda em textos do século IX se reconhece que todos os deuses, incluído Javé, são filhos de El. O salmo 82 não deixa nenhuma duvida de que de facto “El” e Javé são dous deuses diferentes... O Altíssimo é El ou Elião, o pai de Javé e o pai de todos os deuses”.

. A partir do exílio do reino de Judá prega-se até a saciedade o exclusivismo do Deus judaico: “A ti te foi mostrado para que soubesses que o Senhor é Deus; nenhum outro há senão ele... Polo que hoje deves saber e considerar no teu coração que só o Senhor é Deus, em cima no céu e embaixo na terra; não há nenhum outro” (Dt. 4, 35.39). “Vede agora que eu, eu o sou, e não há outro deus além de mim; eu faço morrer e eu faço viver; eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar da minha mão” (Dt. 32, 39). “Pois quem é Deus, senão o Senhor? e quem é rocha, senão o nosso Deus?” II Sa. 22, 32).

O fundador do cristianismo, Jesus de Nazaré, pregou até o paroxismo a necessidade de segui-lo cegamente por cima de qualquer ligação humana, e também o enfrentamento entre os seres humanos e muito especialmente entre os membros da família. “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e assim os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim” (Mt. 10, 34-38). Essa entrega que exige Jesus deve incluir o ódio contra os seres mais queridos polos seres humanos. “Se alguém vier a mim, e não aborrecer a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo” (Lc. 14, 26-27). O cristianismo tem um problema claro com estas manifestações de Jesus que podem utilizar-se como fonte de fanatismos, e de facto produziram já muita dor nas famílias no decurso da história. Quantos moços e moças não abandonaram aos seus pais em seguimento destes preceitos! Quem repara o dano causado às famílias! A sorte dos infiéis é, segundo Jesus, a condena eterna (Lc. 12, 46). Também o cristianismo deveria explicar como alguém que foi proclamado Deus, consubstancial com o Pai, declara a guerra como inevitável sem comprometer a bondade da obra criadora da que ele é o autor: “E ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; olhai não vos perturbeis; porque forçoso é que assim aconteça” (Mt. 24, 6).

            A religião cristã defendeu a liberdade de pensamento entretanto careceu de reconhecimento oficial por parte do Império Romano, mas uma vez que se converteu em religião tolerada e no 381 oficial, defendeu a guerra santa, traduzida na imposição da crença cristã, servindo-se da espada secular, pola força e a violência, da inquisição e das cruzadas, entre elas a representada pola Guerra Civil espanhola de 1936. Foi, sem dúvida, uma das mais sanguinárias da história e deve a sua supremacia precisamente à sua imposição, a partir do século IV, por parte do poder imperial romano interessado em homogeneizar ideologicamente a população em base a um único deus e a um único imperador na aterra. Quando, a partir do século XII, se faz difícil o mantimento do monolitismo ideológico, estabeleceu a inquisição como mecanismo de terror sobre a população e de condena de qualquer dissentimento ideológico, que esteve em vigor até o ano 1834. O dano causado ao desenvolvimento do pensamento, da ciência e da cultura foi enorme. As vítimas principais da repressão inquisitorial foram os «pérfidos judeus», como eram designados na liturgia cristã, especialmente os denominados «conversos», e os muçulmanos, com os quais praticou o racismo mais xenófobo intentando impor a pureza de sangue da população nos Estado espanhol e português e as suas colônias.

            Também no século XII se pôs em prática o aventureirismo militar com as cruzadas, que no fundo perseguiam o estabelecimento duma teocracia mundial sob o mando do Romano Pontífice, empresa que se saldou num estrepitoso fracasso para os hostes vaticanistas e para os reis europeus.

            O fracasso da repressão cristã permitiu dar passo em Ocidente a uma sociedade plural e laica, e, algo semelhante podemos dizer a respeito do âmbito social que controlou a religião judia. Infelizmente isso não acontece no âmbito do mundo muçulmano, que, com o objetivo de dotar-se duma identidade frente ao sistema de dominação ocidental, voltou às origens da sua religião, idealizada como um passado idílico, e, nalguns casos, interpretada desde uma óptica hostil e duma praxe que não duvida de acudir ao terror para com os «outros», principalmente os cristãos e os judeus, obsedado em substituí-los como religião única no seu afã de impor o seu monolitismo ideológico a toda a sociedade fazendo felizes à força aos demais. Esta sociedade edificar-se-ia sobre um imenso montão de cadáveres de pessoas inocentes que, muitas vezes, quiçá mesmo podem empatizar com a sua luta..

            No Alcorão não figura literalmente a expressão jihad ou guerra santa, ainda que si os elementos constitutivos da sua noção. Em realidade a noção de guerra santa, ou seja, a guerra que se faz por motivos religiosos, e os seus sinônimos, guerra de religião, cruzada,..., deveriam desaparecer de qualquer universo civilizado, pois não há nenhuma guerra que mereça esta denominação, e somente obedece a uma conceição primária da divindade, na que o ser humano projeta as suas reações mais bestiais e mais burdamente tribais. Uma guerra pode ser justa ou legítima, como em casos de legítima defesa, mas nunca santa. Tal conceição da divindade somente pode conduzir à mútua destruição dos seres humanos e nunca a forjar uma sociedade mais tolerante, fraterna e solidária, que deveria ser o objetivo de toda associação tanto política como religiosa.

O Alcorão declara a respeito dos judeus: “Toda vez que acenderam o fogo da guerra, Deus os extinguirá” (5ª Surata, 64). Os pecadores são considerados como os seres piores a causa da sua incredulidade. “São aqueles com quem fazes um pacto e que, sistematicamente, quebram seus compromissos, e não temem a Deus. Se os dominardes na guerra, dispersai-os, juntamente com aqueles que os seguem, para que meditem” (8ª Surata, 56-57). Aceita, igual que os judeus, a lei do talião, que Jesus de Nazaré quis superar. Desaconselha a guerra agressiva e aconselha a defensiva. “Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores” (2ª Surata, 190). Se se limitar a responder à agressão  dum modo proporcional, nada haveria que objetar, mas o Alcorão prega também a guerra por razões de proselitismo religiosos e oferece ao combatentes a felicidade eterna. “Pretendeis, acaso, entrar no Paraíso, sem que Deus se assegure daqueles, dentre vós, que combatem e são perseverantes?” (3ª Surata, 142). “Que combatam pela causa de Deus aqueles dispostos a sacrificar a vida terrena pela futura, porque a quem combater pela causa de Deus, quer sucumba, quer vença, concederemos magnífica recompensa. E o que vos impede de combater pela causa de Deus e dos indefesos, homens, mulheres e crianças? que dizem: Ó Senhor nosso, tira-nos desta cidade (Makka), cujos habitantes são opressores. Designa-nos, de Tua parte, um protetor e um socorredor! Os fiéis combatem pela causa de Deus; os incrédulos, ao contrário, combatem pela do sedutor. Combatei, pois, os aliados de Satanás, porque a angústia de Satanás é débil” (4ª Surata, 74-76); e devem lutar até prevalecer a religião de Deus, e os que o fazem receberam um grande prêmio, incomparável com a breve e passageira felicidade humana neste mundo. “O gozo terreno é transitório; em verdade, o da outra vida é preferível para o temente; sabei que não sereis frustrados, no mínimo que seja”.

Do mesmo modo que o ser humano cria a deus à sua imagem e semelhança, este deus, uma vez criado polo ser humano, modela os aderentes da religião. As três religiões citadas prometem a glória no paraíso aos que cumprem a sua vontade, e muito especialmente aos que se imolam por ele. E estes dous elementos:a noção de Deus e as expectativas duma vida de gozo após a morte dispõem o fiel à entrega total para cumprir a vontade divina, ao tempo que o insensibilizam ante o sofrimento alheio e acalmam a voz da consciência perante os atos mais criminais. O autor do evangelho de São João quis corrigir esta insensibilidade ante a dor alheia quando declara que quem não ama ao seu próximo ao que vê, como pode amar a Deus a quem não vê, mas, como no-lo demonstra o acontecido durante o período inquisitorial, a corrente que triunfou foi a primeira, e, portanto, a disposição a cometer as maiores atrocidades contra o próximo para agradar a Deus e, por riba, considerar-se merecedores perante Deus dum prêmio eterno.      

            As três religiões são as religiões do livro, ou seja, que supostamente receberiam a sua mensagem da mesma divindade por inspiração divina e, nestes textos, proclamados como «sagrados» fundamentam a sua dogmática e as suas normas de comportamento, ambas rígidas, imutáveis, eternas e impermeáveis ao passo do tempo, e isto explica que se vejam por muitos como ideologias ultrapassadas no tempo e incapazes de compreender a realidade. As três coincidem na condena deste mundo e da disparidade comportamental e social e pregam um mundo no que o «outro» não tem cabida como tal e cumpre aniquilá-lo. Concordam também na defesa da misoginia e na condena da homossexualidade, e o judaísmo coincide com o islamismo na prática da lapidação, que Cristo desaprovou. Coincidem também a prometer aos seus fieis um mundo de ultra-tomba feliz se cumprem os mandados divinos e especialmente se se convertem em mártires e expandem a sua mensagem e aniquilam ao adversário, impedindo criar um mundo no que a tolerância ante a pluralidade, também para com os que professam qualquer religião, seja a norma. Muitos dos santos cristãos foram elevados aos altares por este motivo. A intolerância somente cabe aplicá-la com os intolerantes, mas nunca com os que respeitam aos demais, aos que devemos ajudar para que aceitem plenamente os direitos humanos e todos juntos colaboremos na promoção dum mundo mais habitável.


1 sept 2017

Esmorecimento da nossa toponímia



            Uma cultura, para ter futuro, tem que ser um produto vivo e no que a gente viva, um produto que se enriqueça no decurso do tempo com novas contribuições dos membros da comunidade cultural, ao tempo que se desprenda das excrescências, aderências e elementos que deixaram de ser operativos, mas as novas contribuições devem inserir-se no âmbito da mesma cultura e não ser elementos que a distorçam e produzam a alienação cultural e isto refere-se também ao modo de denominar a própria realidade geográfica e social. Dado que a cultura, e a sua máxima expressão que é a própria língua, tem que ser um produto vivo e operante para os habitantes duma determinada coletividade não basta com conservar por escrito os seus memes, ou unidades mínimas de informação aprendida, tal como propõe Mosterin, porque desta maneira teríamos uma cultura enlatada, uma cultura de laboratório, mas não um produto vivo e pujante.

            Faz uns dias li uma noticia na que se afirmava que se vai ampliar o nomenclator galego com o objetivo de proteger os dous milhões de topônimos e micro-topônimos da nossa comunidade, grande parte deles em risco de desaparecer, mas parece claro que por muito que figurem num nomenclator não têm garantida a sua supervivência se não se integram na vida real das pessoas. Poderia, contodo, ser um objetivo loável em caso de ir acompanhado duma vontade de conservar e promover a nossa cultura e uma parte fundamental dela como é o nosso idioma como objetivo irrenunciável, pois foi essa cultura a que lhe deu origem e é neste idioma no que figuram esses topônimos, mas tem muito menos sentido no caso de umas autoridades que parecem desprezar a cultura própria e sentem um complexo enorme perante a língua na que os nossos antepassados denominaram essa realidade geográfica. Topônimos como a Lameira, a Lagoa, a Chaira, as Cortinhas de Riba, Angarilha, Agra das Bouzas, Agro da Carvalheira, os Riveiros, etc. tiveram como criadores a pessoas que estavam identificadas com a terra e que falavam a lingua do país e o lógico seria conservar os topônimos junto com a língua em que se expressaram.

            Os câmbios nos topônimos podem ser devidos a fatores endógenos à própria cultura, ou exôgenos, segundo se originem desde o interior ou do exterior da própria cultura. Quando falamos de endógenos ou exógenos não queremos designar só a atuação de pessoas exteriores à própria Galiza, senão também a pessoas já identificadas com a cultura espenhola, que, desde o interior da Galiza, colaboram com o labor de alienação da nossa cultura, consciente ou inconscientemente, ativamente ou acomodando-se à inércia imperante. Toda realidade está, inevitavelmente, submetida à câmbio e mutação, e a cultura não pode ser alheia a este universal devir, em palavras do velho Heráclito, mas somente são enriquecedores os câmbios endógenos, ainda que são também os mais difíceis numa situação de colonização. Aclaremos isto com algum exemplo. Faz-se um concentração parcelária e várias propriedades são integradas numa única, por exemplo, o que antes eram a Angarilha, Agra das Bouzas e o Seixinho são concentradas, e se o conjunto recebe o nome de Agra das Bouzas, é evidente que os demais vão desaparecer por desuso. Com todo, ainda que há perda de topônimos, o câmbio é endógeno e integra-se no seio da própria cuoltura.

            Suponhamos agora que parte ou todas as citadas parcelas formam parte dum núcleo urbano afetadas por um PXOM. Neste caso, o habítual é que se integrem num polígono que recebe um número, por exemplo, o 20, nome já espanhol ou híbrido, que pode deslocar os nomes das parcelas originárias; e se uma vez que se procedeu à sua urbanização, todo ou parte do Polígono é vendido a alguma empresa, muitas vezes se lhe põe à parcela adquirida e edificada um nome comercial que sirva de propaganda para a sua empresa, que, usualmente, será um nome espanhol. Se os redatores do PXOM, as administrações e a própria cidadania tivessem mais sensibillidade pola própria língua e cultura, que a que têm a dia de hoje, deveriam velar para que essa toponímia não se perdesse, senão que, polo menos, parte dela se integrasse no novo produto. Em certo momento que atuei como membro duma Junta de Compensação defendi que os topônimos deveriam manter-se na sua forma original galega, tese com a que concordava o técnico do polígono, mas outro membro galego dessa Junta retrucou-me que só estaria de acordo em que estivesse em galego se não é um nome feio. Isto significa que os nomes galegos devem superar um plus de estética com respeito aos nomes em espanhol.

            Existe outro âmbito no que a perda de topônimos é galopante, que é o das honras a personagens supostamente meritórias. Creio que é de justiça ser agradecido com as pessoas que se fizeram acredoras de que a comunidade as perpetue na memória coletiva com um reconhecimento especial, mas isso nunca deveria fazer-se a expensas da destruição da toponímia originária da coletividade. No Estado espanhol não abondaram autênticas elites diretivas que servissem de guía à maioria social; o que houve, principalmente, foram elites extrativas que se aproveitaram dela, vivendo e enriquecendo-se às suas expensas. Estas elites constituiram um corpo no que os membros se intercambiaram favores e privilègios seguindo o princípio:hoje por ti e amanhã por mim. As homenagens públicas, nestes casos, convertem-se num reocnhecimento dos favores prestados por parte do favorecido.

Se nos limitamos a Galiza, creio que há alguns antepassados que merecem ficar no imaginário coletivo e quiçá a grande maioria concordaríamos em incluir dentro desta nômina a pessoas como Rosalia, Castelao, Curros Enríquez, Otero Pedrayo, Anjo Casal,..., mas a homenagem a estas pessoas e sobre todo a outras menos insignes poucas vezes justifica que se faça a expensas de destruir a riqueza coletiva criada polos seres anônimos, por essas luzecinhas inominadas que nos precederam e conservaram essa criatividade coletiva muito merecedora do nosso tributo em bloco a todos eles. Se visitássemos as cidades do Estado espanhol e fizermos a história das pessoas selecionadas como merecedoras do reconhecimento coletivo, que recortes teríamos que fazer! Reis e rainhas incompetentes e corruptos, carentes de qualquer mérito distinto da pura animalidade. Chefes de Governo e ministros, especialistas no manejo das portas giratórias, que amassaram uma grande fortuna no exercício do seu cargo e que não significaram nada real para a comunidade que se vê obrigada a lembrar a sua memória. Militares aos que se lhe dedicam alguma das ruas principais das cidades e que só se distinguiram por ser membros dum exército pouco exitoso na maioria das contendas em que participou. E todo isto se fez a expensas dos topônimos criados polas citadas luzecinhas inominadas das que ninguém se lembra. Nos nossos dias podemos constatar que os topônimos urbanos foram substituídos polos nomes de personagens que não significam nada para a coletividade ou polos nomes de cidades, tanto estatais como estrangeiras, sem vínculos reais de nenhuma classe com o país. Esperemos que chegue um dia em que a própria cidadania se rebele contra a liquidação das criações populares com as que se auto-identificou e denominou a realidade geográfica no transcurso do tempo.
23/08/2017

Protestas anti-turismo



            Nos nossos dias estão a produzir-se, como novidade, uma série de manifestações em contra do turismo, seguidas duma enfiada de declarações de repulsa dos poderes públicos, e cumpre analisar as suas causas e a sua pertinência.

            São habituais no Estado espanhol as condenas de todo aquele que protesta, como passou com o movimento de Nunca Mais na Galiza, o dos indignados do 15 M, ou simplesmente de quem quer mudar a realidade ainda que seja por vias pacíficas, como aconteceu com as propostas de reordenação do poder territorial do Estado espanhol feitas polos governos basco e catalão, sem parar-se a examinar as causas das protestas e/ou propostas e ver de dar-lhe uma solução política. Vivemos num país que historicamente sentiu urticária ante os problemas e movimentos suscitados pola cidadania, que produziram uma cissura entre as duas Espanhas, a oficial e a real. O conglomerado nobiliário-eclesiástico-militar no Antigo Regime foi capaz de fazer languidescer, no Estado espanhol, o movimento liberal que coalhou com a Revolução Francesa, que só eclodiu no século XIX domesticado e misturado com ressaibos clerical-militaristas. Isto explica que o liberalismo tivesse entre as figuras mais destacadas os freires Feijóo e Sarmiento e que tivessem que ser também os militares quem capitaneassem partidos liberais. Já no século XIX e XX seria um liberalismo domesticado e convertido em ideologia do capitalismo quem se coliga com o conservadorismo, o clericalismo e o militarismo para derrubar as aspirações dos movimentos social-progressistas que, finalmente, terminariam por aceder ao poder na segunda metade do século XX e, convertidos em partidos de governo, se oporiam aos novos movimentos surgidos a partir do 15 M e às iniciativas para reformular democraticamente a distribuição do poder territorial do Estado feitas polos partidos nacionalistas. É muito ilustrativo disto o posicionamento espanholista que está a defender o PSOE ante o processo catalão. Todas as colônias americanas, pola sua parte, acederam à independência pola via violenta por não ser capaz a Espanha de abrir-se às suas aspirações e criar uma comunidade solidária com vocação de permanência com os países latino-americanos que estiveram submetidos ao seu domínio. A monarquia espanhola exportou a estes países a sua política coercitivas sobre a população e impôs, com a ajuda da Igreja, a intransigência e o fanatismo inquisitorial com os que vinham reprimindo duramente os cidadãos nos seus domínios europeus. Nestes mesmos momentos, numa etapa denominada democrática, caraterizada pola conivência do poder eclesiástico, político e oligárquico, vivemos numa das fases de mais premente repressão das manifestações desde que se iniciou a etapa democrática da transição espanhola do 78, que na Galiza se traduziu na imposição de perto de 14.000 multas anuais e na Espanha mais de 190.000 ao amparo da lei mordaça. E isto acompanha-se com uma manipulação informativa mais intensa desde 1977.

            É certo que o turismo constitui uma fonte de riqueza para um país porque incentiva a atividade econômica que incrementa o consumo de produtos agrários, ganadeiros, têxteis; impulsa à construção e mantimento do parque de vivendas e promove a hotelaria; dá a conhecer a nossa riqueza artística e cultural, etc., que, em caso contrário, veriam minguada a sua atividade. É também uma fonte de divisas que, no caso espanhol, permite compensar o histórico desequilíbrio da balança comercial e equilibrar a balança de pagamentos com o exterior, o qual significa que a economia espanhola se especializou no turismo em detrimento da industrialização, do setor agrícola-ganadeiro e da exportação de produtos manufaturados. Esta especialização no turismo foi de par com a difusão do estereotipo dos espanhóis como uns festeiros aos que só lhes preocupam a farra, o vinho e as mulheres, como nos acusou o chefe do euro-grupo, o holandês Jeroem Dijsseibloem. É triste e exagerado o mencionado estereotipo que fazem dos espanhóis muitos europeus, se bem temos que reconhecer que práticas como a do botelhão, que concita a milhares de moços para emborrachar-se e consumir outras drogas duras e brandas, com a permissividade e falta de reação das autoridades, não contribuíram a dar uma imagem de seriedade do país, e o mesmo podemos dizer da a vida de diversão e borracheira noturna até altas horas da manhã os fins de semana. Isto provoca que agora não estamos muito legitimados para pedir-lhe um comportamento sóbrio e ascético aos estrangeiros.

            É de supor que a grande maioria dos que protestam sejam conscientes das vantagens do turismo, e então por que protestam? Esta claro que ninguém protesta por gosto ainda que isto não significa que sempre tenha razão. Quando os vizinhos da Barceloneta tomam a praia dizem que o fazem para exigir o fim dos apartamentos turísticos, muitos deles ilegais, que provoca a diminuição dos vizinhos, e para lutar contra a especulação imobiliária, a privatização do espaço público e o turismo massivo e incivil que provoca o encarecimento dos alugueres, a desaparição dos comércios, o incremento do ruído e do consumo de drogas, em definitiva, um turismo low cost e de borracheira. A queixa dos vizinhos não é contra o turismo em si, senão contra os pisos turísticos que promovem um turismo de massas low cost que os afoga e destrui o seu sistema habitual de vida. Aliás, também experimentam que a riqueza que produz a atividade turística  não incide nas suas vidas e inclusive não se distribui equitativamente entre os implicados neste processo, pois enquanto os empresários ganham muito com a atividade turística, os salários dos trabalhadores são cada vez mais precários e o prezo dos produtos de consumo e o aluguer da vivenda não deixam de medrar, além de que custo de vida nas zonas turísticas encarece-se notoriamente.

            Isto implica que há que repensar o modelo de turismo que se quer para o Estado e não insistir continuamente nas bondades do incremento de visitantes, senão que há que promover especialmente um turismo de qualidade e de comportamentos cívicos corretos. Creio que as autoridades espanholas devem dar-se conta de que esta protesta pode ser muito positiva se serve para focar o problema do turismo dum jeito distinto e que não é muito acertada dedicar-se à condena fácil e com grossos qualificativos dos que sofrem um problema real que condiciona muito negativamente a sua qualidade de vida por uma atividade que não reporta um interesse real para o país. É também improcedente pretender deslegitimar os protagonistas das protestas atribuindo-lhe a autoria a setores, neste caso nacionalistas de esquerda, previamente desqualificados como radicais e extremistas, pois estes setores muitas vezes não fazem outra cousa que canalizar uma protesta cidadã. Isto deve servir de advertência também para os governantes galegos, muito interessados em promover um turismo de sanduíche e poucos ingressos por muito acompanhado que vaia de preces ao apóstolo Santiago.    

17/08/2017










Proteger os catalães dos catalães



      Quando não se quer fazer-lhe frente aos problemas se lhe dão uma série de voltas e reviravoltas para ver como se apresentam ante os cidadãos medidas que, no fundo se reduzem a repressão pura e dura. Um dos mantras frequentes a respeito dos catalães foi e é a acusação de que os partidos independentistas dividem os catalães, sem querer dar-se conta que é a sociedade catalã, como todas as sociedades atuais, a que é plural e os partidos políticos ou são a expressão da pluralidade social ou não são nada. Por isso são partidos, quer dizer, representações de partes do todo social. Primo de Rivera criou a União Patriótica, uma associação de todos os cidadãos de boa vontade, supostamente neutra, que pretendia integrar a toda a sociedade numa única organização e assim substituir os partidos políticos tradicionais. Franco criou o movimento nacional, um partido único, com a pretensão de que representasse a totalidade da sociedade, e, consequentemente, proibiu os partidos políticos, porque, segundo o  regime franquista, dividiam e enfrentavam a sociedade. Igualmente os sindicatos, chamados verticais, deviam representar a obreiros e patronos numa espécie de irmandade fictícia que servia para tapar a conflitualidade real e as diferenças de classe. Isto é totalitarismo e dirigismo político, que, em vez de respeitar a realidade tal qual é, pretende que a realidade de acomode ao que lhes interessa aos dirigentes, enquanto que respeitar e acomodar-se à realidade plural é democracia.Isto explica que os regimes com um sistema eleitoral proporcional é mais democrático que um sistema majoritário porque permite que estejam representadas mais opções sociais.  

      O 5/07/2017 o presidente do Governo de Espanha, Mariano Rajoy pediu-lhe aos catalães que “sigam mantendo confiança no futuro, porque os delírios autoritários e frentistas nunca poderão vencer a serenidade e o equilíbrio do nosso estado democrático” e eu pergunto-me, que autoridade moral tem para fazer esta petição um presidente do governo espanhol que fez campanha por toda Espanha para captar votos espanholistas à custa dos catalães e recorreu ante um TC “amigo” um estatuto já plebiscitado por esse povo ao que agora lhe pede confiança cara ao futuro? Por outra parte quiser que nos explique o Sr. Rajoy a que catalães se refere quando ele somente representa ao oito por cento dos catalães e nada menos que um oitenta por cento da sociedade catalã quer poder manifestar a sua voz e decidir o seu futuro, uns ligados a Espanha e outros como uma entidade independente, e a decisão final teria que ser naturalmente, em democracia, o que decida a maioria., que é fundamentalmente o motivo do referendo do 1/10/2017. Em terceiro lugar, gostaria saber se os delírios autoritários os identifica com essa vontade de votar, o qual seria grave, ou se é outra cousa e, em contrapartida, se a sua política tendente a manter aferrolhado a um povo sem oferecer-lhe nenhuma saída não é autoritária; em quarto lugar se a serenidade e equilíbrio do estado democrático não corre o risco de identificar-se com a intransigência, falta de flexibilidade e negativa a oferecer uma via de saída a um problema que ele mesmo criou com a finalidade de que os políticos favoráveis ao referendo mordam o pó da derrota e da humilhação, à semelhança do que aconteceu com a ETA; e, finalmente, quiser saber se não é separatista dividir os catalães em sensatos, democratas e moderados, que seriam os que assumem o seu ideário, e os demais, que, naturalmente, cumpriria qualificar de insensatos, antidemocratas e extremistas. Não basta com pôr-se firme e intransigente, porque a política, se é democrática, só pode estar fundamentada no pacto e na transação.

      Outro dos mantras repetido polos políticos espanholistas é que o problema catalão têm que decidi-lo todos os espanhóis, porque Catalunya é uma parte de Espanha, e, portanto, uma região duma nação que seria hipoteticamente a nação espanhola, mas isto nunca pode ser assumido por um povo que se considera uma nação, como é o caso de Catalunya, pois uma nação é uma entidade que se considera com direito à soberania e autonomia plena e que não está disposta a ficar reduzida a uma parte duma entidade soberana distinta, como seria a espanhola. Isto significa que os pactos somente têm sentido desde um plano de igualdade entre os pactuantes, que constitui um requisito imprescindível para que conformar um estado federal. Os que defendem o federalismo, palavra que provém do latim foedus, que significa pacto, que somente tem sentido se os pactuantes se acham numa situação desigualdade, deveriam pronunciar-se a este respeito ou aclarar se o seu federalismo se reduz a uma imposição desde a cima, como aconteceu no caso do Brasil ou querem deixar que o povo decida.

      Mariano Rajoy também afirmou que o governo está “defendendo as instituições autonômicas catalãs e os seus funcionários, que não podem ser utilizadas ao serviço duma atuação contrária a direito”, o qual seria muito de agradecer se estas instituições lhe pedissem ao chefe do governo espanhol que as defenda, mas estas instituições estão governadas precisamente por uma maioria absoluta que não demandou tal ajuda e que foi votada majoritariamente pola sociedade catalã. Tem razão o chefe do Governo espanhol quando afirma que a sociedade catalã é mui plural e de caráter mui moderado, creio que algo semelhante ao que ocorre com a sociedade espanhola em geral, mas assim como isto não é óbice para que na Espanha governe um partido como o PP, apoiado por uma maioria parlamentar, tampouco deveria ser óbice para que em Catalunya governem os partidos que votaram os catalães sempre que estejam apoiados também por uma maioria que lhes permita governar. E igual que ninguém defende que Rajoy intenta impor polas bravas o seu programa, também é improcedente dizê-lo dos catalães. É igualmente um desatino considerar que tem que proteger os catalães dos catalães, ou seja, de si mesmos e do governo de que se dotaram com o seu voto livre e responsável, pois suporia considerar a sociedade catalã como uma sociedade infantilizada, e tampouco tem sentido nenhum afirmar que se enganam com o seu voto, pois unicamente o futuro poderia, permanecendo todas as demais circunstâncias invariáveis, servir de pauta para dilucidar esta questão. 

      Outro dos mantras reiteradamente repetido é que há que cumprir a lei, o qual é evidente sempre que a lei seja legítima, mas quando a lei se perverte como aconteceu com o estatuto de Catalunya a questão já não está tão clara e inclusive em certos casos não só se pode incumprir a lei senão que existe a obrigação de fazê-lo. Aliás, carece de autoridade moral para exigir o cumprimento da lei quem a incumpre com os frequentes casos de corrupção e com anistias ilegais para favorecer aos que se apropriaram do dinheiro público. Outro dos mantras reiterado profusamente é que a democracia é o estado de direito, mas o estado de direito é somente uma condição necessária mas não suficiente para que exista democracia, mas esta precisa que o povo poda decidir livremente o seu futuro e o seu governo. Consubstancializar a democracia com o estado de direito equivaleria a afirmar que o reinado de Carlos III já era democrático ou que uma ditadura que obrigue a respeitar a sua legalidade já é uma democracia. 

2/08/2017