3 jul 2017

"República e ruptura"



                Anova vem de propor como lema para o Dia da Pátria Galega «República e Ruptura», no que se observa que não há nenhuma referência clara direta e parece que tampouco indireta a Galiza nem à Pátria Galega. Todo indica que quando falam de república aludem ao estabelecimento duma república espanhola que rompa definitivamente com a monarquia, e quando falam de ruptura referem-se à ruptura com o sistema da transição espanhola que manteve em grande parte a continuidade com o regime franquista. Isto é corroborado pola proposta dos dissidentes que pretendem singularizar-se propondo um frente amplo para lutar por uma república galega.

                Sou republicano desde os dezoito anos e vim demonstrando as minhas convicções republicanas numa série de artigos sobre a monarquia publicados nos dous últimos anos. Portanto, desejo que o Estado espanhol se dote dum sistema republicano porque é uma forma de Estado muito mais racional que uma monarquia, sistema baseado na desigualdade e no privilégio, como se tem demonstrado sobradamente nestes últimos tempos. Todos os cidadãos são iguais ante a lei, salvo o chefe de Estado que é distinto e intocável. O acesso aos cargos públicos deve fazer-se em base ao mérito e à capacidade, salvo na cúspide do Estado que se chega pola pura animalidade. A Justiça é igual para todos, salvo para a Família Real. Todos os cargos públicos devem ser elegíveis, salvo a Chefia do Estado, que está predestinada para os membros duma família, de acordo com um sistema prefixado, à margem de qualquer mérito e capacidade. Os membros desta família são criados numa borbulha arredados das preocupações e interesses da cidadania, que os incapacita para entender a realidade do seu próprio país.

                Em Espanha não se produziu uma ruptura com respeito ao regime anterior senão um pacto entre os ostentadores do poder durante a ditadura e a oposição política, no que se anistiaram todos os excessos cometidos por um regime tremendamente repressor e sanguinário. Os setores adictos ao regime anterior nunca se foram de todo e continuaram conservando nas suas mãos grande parte do poder econômico, político e mediático. Ao não ter-se produzido uma ruptura com o regime anterior, senão o seu abençoamento explica que, nas etapas de governo da direita, se promulguem leis e se põem em marcha atuações mais próprias do regime anterior que dum regime convencidamente democrático, do qual são exemplo a lei mordaça, a repressão contra grevistas, a controle dos meios de comunicação ou, noutras palavras, da mídia, a re-centralização econômica-política, o controle do sistema judicial, etc.

                 A república e a ruptura são, portanto, medidas muito importantes para melhorar a saúde democrática no Estado espanhol, mas cumpre ter presente que isto de por si não vai solucionar todos os problemas nem terminar com o sistema de corrupção que lastra a vida do país, como se demonstra claramente polo que acontece em países já republicanos, como França, Itália, etc. Aliás, feitas todas estas reformas, o problema da Galiza continua sem resolver, e não o vai resolver por arte de magia uma república espanhola, como se demonstrou claramente polo acontecido durante a II República. Não é bendizendo e reforçando o espanholismo como se lhe oferece uma alternativa ao nosso país, senão como se oferece uma solução para o Estado espanhol, que pode continuar praticando uma política totalmente hostil para o nosso povo. Se fiamos a solução dos nosso problemas aos espanholistas pode-nos passar o que hoje lhe acontece ao governo galego e ao partido que o sustenta, que em Galiza quer que se traspasse a AP-9, mas os amos de Madrid, dizem que não toca. O que toca é sempre aqui e em todas partes ajudar a aquele que nos dá vida, e se não que lho perguntem aos dirigentes do PNV.

                A pátria vem do pater patris, pai; ou também terra patria, a terra dos pais, dos ascendentes; terra dos pais que é também terra matria, terra da mãe, a terra entendida como fundo nutrício que nos alimenta e dá vida. A pátria tem conotações principalmente sentimentais; faz referência ao lar onde um nasceu, á paisagem que um acarinhou, aos seres queridos aos que um se sentiu ligado, ao povo com o que um se sentiu solidário nas penas e alegrias, aos antepassados que nos deram a língua, costumes, etc. Os nossos antepassados são aqueles que viveram nesta terra e sofreram a opressão dum regime que nos negou e reprimiu ao longo da história e frente ao qual não fomos capazes de achar o antídoto apropriado que nos permitisse decidir sobre os nossos problemas e o nosso futuro. A pátria faz referencia ao passado e ao presente, á terra dos pais dos que nos sentimos herdeiros e continuadores; à terra mátria que nos dá o pão e o agarimo, mas existe unha noção de pátria, presente em Nietzsche, não antitética senão complementar com esta que consiste numa obra que temos que construir com projeção de futuro, a pátria como terra dos filhos, terra filiorum ou também terra filia, ou, como nas línguas anglo-saxónias, fili-lândia, a pátria como destino e projeto que temos que forjar eliminando as imperfeições e defeitos da nossa pátria atual, que expulsa os seus filhos à emigração, para criar outra à medida das necessidades dos nossos filhos, que lhes permita ser alguém no futuro e não ser borrados do mapa como povos sem história e sem consciência de si. 

Creio que num dia tão sobranceiro para Galiza como é o Dia da Pátria Galega, o povo galego é merecedor de que seja o objeto nuclear de referência e que os políticos lhe manifestem a sua fidelidade e lhe digam como vão solucionar os seus problemas e não como vão solucionar os problemas espanhóis, confiando que da solução destes virá automaticamente a solução dos seus próprios. Neste sentido, as organizações mestiças têm um problema importante, que é o da sua própria identidade, e se esta não está clara, tampouco será clara a alternativa a oferecer.

                Alguns parece que lamentam que não tenha lugar uma manifestação unitária no Dia da Pátria, mas esta somente teria todo sentido se se constituísse uma frente ampla de todos os partidos e organizações dispostos a lutar pola autodeterminação de Galiza e por uma república galega, à margem de dependências alheias e do que decidam os habitantes doutros povos peninsulares.

17 jun 2017

Nação e plurinacionalidade



               A plurinacionalidade vem sendo defendida habitualmente por Podemos e ultimamente também foi assumida polo PSOE, polo menos nominalmente, no seu Congresso de junho de 2017, mas existe uma diferença importante entre as duas propostas. O PSOE fala de aperfeiçoar o reconhecimento do caráter plurinacional do Estado, o qual já implicaria que o Estado espanhol já é plurinacional; de definir Espanha como nação de nações, que foi uma proposta que já alguns deputados propuseram quando se debateu o artigo 2 da atual constituição, ao tempo que os socialistas Manuel Escudero e José Félix Tezanos, coordenadores do programa socialista, pontuaram que a proposta da plurinacionalidade não implicava posicionar a existência de nações políticas, mas de nações culturais; de substituir o Estado das autonomias por um Estado federal, mas sempre mantendo que a soberania é única e reside no povo espanhol. Portanto, temos que ajuizar se Espanha é uma nação, se o Estado espanhol já é plurinacional, se tem sentido falar duma uma nação de nações, se a soberania reside só no povo espanhol, se a soberania é única, mas primeiro temos que precisar que é uma nação.

               A palavra nação vem do verbo latino nascor, que significa nascer; logo, a nível etimológico, a nação é o lugar de nascimento. Os medievais utilizavam o termo nesta acepção quando se referiam ao agrupamento dos alunos por «nationes» nas universidades de Bolonha, Paris, Salamanca, Praga, etc. para procurar-se mútua proteç4ao num país estrangeiro. Em Bolonha foi onde primeiro surgiu a divisão em nações, que logo se estenderia às demais universidades europeias. Num início a palavra não tinha uma conotação política nem existiam a esta altura as entidades políticas que chamamos nações.

               Que é uma nação a nível político? Quando lecionava aulas costumava perguntar-lhe aos alunos e à vezes também a algum professor que entendiam por nação e a resposta era invariavelmente que uma nação é uma comunidade com língua própria, cultura, território, etc., mas sempre lhe retrucava que uma nação não é isto, senão que isto é uma etnia, que os sociólogos definem como um povo que se vê distinto dos demais e é visto polos demais como distinto por razões culturais. Este foi também o erro no que incorreu o ilustre galeguista Ramón Chao Rego, que creu solucionar o problema da Galiza reduzindo-a a uma etnia. De ser isto assim, na Idade Média a Galiza já seria uma nação, que foi um erro no que incorreu o insigne Castelao.

               Para evitar suspicácias de deriva nacionalista, tomarei uma definição de nação dum autor nada suspeitoso de nacionalismo, o professor de Filosofia do Direito da Universidade de Oviedo, o cacerense José Delgado Pinto: a nação é “a comunidade humana estável que, em base a uma série de vínculos objetivos naturais e culturais, adquire consciência da sua singularidade a respeito doutras comunidades históricas similares e tende a desenvolver uma política autônoma” (G.E.R., t. 16, p. 537). Nesta definição aparecem quatro componentes fundamentais da nação: a) comunidade estável, e, portanto, um conglomerado de pessoas que assistem a uma partida de futebol ou a um concerto, independentemente da sua quantia, não é uma nação. Uma comunidade implica uma estrutura dotada de ordem, hierarquia, roles dos seus membros, etc. b) Os vínculos referem-se ao facto diferencial; toda comunidade nacional tem que ter algum elemento que a diferencia das demais, este elemento pode ser cultural, como a língua, cultura, religião, morfologia social; ou natural, como a raça ou o território. Como mínimo uma comunidade tem que ter um elemento diferenciador, mas, como no caso galego, pode ter vários, como a língua, cultura, direito tradicional,... c) ter consciência de si como uma realidade diferenciada que é vista também polos demais como um povo distinto, e d) a determinação de reger o seu destino e, portanto, dispor ou lutar polo direito de autodeterminação ou de decisão. Em geral, o nacionalismo galego insistiu muito nos vínculos diferenciais e muito menos na consciência de si e na determinação de reger os seus destinos próprios. Isto deveu-se a que as elites espanholistas lograram controlar a mídia galega e impor a sua visão à sua maioria social, e afogar as aspirações nacionalitárias, que nacionalismo galego não foi capaz de contra-arrestar. O mesmo Castelao insiste muito nos elementos nacionalitários língua, cultura, raça, terra e morfologia social e econômica e somente dum modo marginal na vontade nacional, que é quiçá o elemento mais importante porque um povo, em definitiva, vai ser o que decida ser e o traduza nas urnas. De facto, a sua definição de nação tomada de Estaline não a recolhe em absoluto: a nação é “uma comunidade humana estável historicamente formada de idioma, território, de vida econômica e de hábitos psicológicos refletidos numa comunidade de cultura” (S.G., p. 39).

               Que o d) é o elemento mais importante da nação indica-o a atitude de oposição por parte dos espanholistas, no estado espanhol muito sinaladamente por parte do PP, C’s e também polo menos o PSOE anterior a Pedro Sánchez. A razão estriba em que um povo se adquire o status de nação tem direito de autodeterminação ou, dum modo equivalente, poder de decisão, e isto é o que lhe produz urticária aos que querem ter controlado todo o devir da política no Estado espanhol e mandar desde a capital da Corte. 

               Também como consequência deste quarto elemento, a nação é a instância última legitimadora do poder político numa comunidade nacional, quer dizer que os governantes legitimam-se polo voto dos cidadãos da nação, e não de instâncias alheias à ela. A nação é também o destino dos afãs e da lealdade dos seus nacionais. Por conseguinte, a nação própria dum cidadão é aquela à que lhe merece a sua maior lealdade, e, por tanto, para os catalães e, em geral, para os que dizem que a sua comunidade is not Spain, a sua nação não é Espanha, e as lealdades últimas não se podem dividir. Isto implica que um não pode ter duas nações, salvo nações de conveniência. Quando surge um conflito entre ambas, é quando um cidadão se posiciona por uma ou por outra. Falar de nação de nações não tem sentido, porque implica subordinar a própria nação, a que realmente se sente, a outra nação superior que é quem realmente tem o poder decisivo de decisão.

               Alguns autores espanhóis, sempre propensos a recorrer a eufemismos para disfarçar a realidade, utilizaram o termo nacionalidade para sacar-lhe a carga ideológica ao termo nação. No artigo 2 da CE de 1978 afirma-se que a Constituição “garante o direito à autonomia das nacionalidades e regiões”. Introduziu-se o termo nacionalidade, por pressão dos nacionalistas catalães de CiU e dos comunistas, pretendendo que servisse de referência para catalães, bascos e galegos, mas compaginando-a, por pressões dos militares e dos franquistas com a frase “a Constituição fundamenta-se na indissolúvel unidade da Nação espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis”, que anulava qualquer carga política real do termo nacionalidade. Esta solução pareceu satisfazer a todos, mas ficou sem virtualidade nenhuma porque uns partidos entendiam a Espanha como uma nação de nações e outros como uma nação de nacionalidades, entendidas estas como nações de segunda categoria. Por tanto, a solução que agora propõe Pedro Sánchez como um grande adianto, já figurava recolhido na CE de 1978. O professor De Blas Guerrero entende a nacionalidade como “a nação que não transcendeu a uma organização política própria”, ou seja, que não se dotou dum estado, enquanto que outros a entendem como nação cultural, mas a tendência a desenvolver uma vida política autônoma é consubstancial com o conceito de nação, e de ai que a proposição de Sánchez de entender as  nações periféricas como nações culturais é uma contradição nos termos, pois toda nação tem que ter um componente político, além de que mantém a subordinação delas à nação espanhola. Como vemos, nada realmente novo, salvo a propaganda com a que se acompanha este suposto grande descobrimento.

               Na proposta do PSOE há outros problemas importantes. Um é o da unidade de soberania do povo espanhol, o qual implica negar a maioria de idade dos outros povos como o catalão, vasco e galego, e subordiná-los ao povo espanhol. Tendo em conta que nos estados federais, os depositários da soberania originária são os estados que se federam, que, atuando como estados a federar, decidem ceder parte dessa soberania e competências, por um pacto, um foedus, de onde vem a palavra federal e federalismo, a um único estado que é o estado federal, que sempre incluem as de assuntos exteriores, defesa e moeda, os estados federados retêm a soberania naquelas matérias não cedidas, como podia ser o caso da língua, cultura,...

               É Espanha uma nação tal como reza a Constituição espanhola? Eu responderia que depende. Se entendemos Espanha como uma realidade distinta das outras nações, si que é uma nação, mas Espanha como conjunto, que Castelao grafava Hespanha, não é uma nação senão um estado composto por vários povos que são nações, e nomeadamente por Catalunya, Euskadi e Galiza, que seria necessário reconhecer como tais, e enquanto não se faça, é inconsistente falar de que Espanha é um estado plurinacional. Considero que num Estado federal, as diversas nações e regiões que formam parte de nações deveriam poder federar-se entre si, porque é uma incongruência que se estabeleça um estado federal no que se proíba que as suas nações ou nacionalidades e regiões se federem, como passa na atual CE. Em consequência, Euskadi deveria poder federar-se com Navarra e Euskadi Norte; Catalunya com Valência e Baleares, e Galiza deveria poder pactuar com Portugal, principalmente com o Norte, que formava parte da Gallaecia.

               Os estados dividem-se em unitários e federais. Os primeiros são estados de soberania única e os segundos são estados nos que a soberania é compartidas entre os estados federados e o estado federal. Para que exista um estado federal tem que haver um pacto, e para estabelecer um pacto há que reconhecer a personalidade dos pactuantes, que são quem decidem concertar um pacto entre iguais polo que cedem a um estado novo, que é o estado federal, determinadas competências. Por conseguinte, falar de soberania única e de estado federal é contraditório. A soberania tem que ser, polo menos, compartida. Se se optar por uma confederação de estados, como fez Suíça num princípio, os estados membros retêm a soberania total e não criariam um novo Estado senão órgãos de coordenação, como é o caso da atual UE.


            

16 jun 2017

Plurinacionalidade do Estado espanhol



               Na moção de censura defendida por Unidos Podemos um dos eixos fundamentais foi a plurinacionalidade do Estado espanhol, defendida valentemente por Iglesias. Dizemos valentemente porque sabe que isso o enfrenta ao trio espanholista C’s, PP e PSOE, por esta ordem, que baseiam a sua política na defesa da sagrada unidade da nação espanhola, única e indivisível que aproveitam para esporear em torno a esta ideia aos seus votantes afogueados já em torno a ela durante os quarenta anos do período franquista. A competência por liderar esta ideia ou não ficar marginados ante os votantes curtidos nela foi o que motivou que Pedro Sánchez lhe oferecesse o seu apoio a Rajoy, sem ser-lhe demandado, na sua teima de fazer volver ao rego os catalães e obrigá-los a que se façam bons rapazes e aceitem a «realidade» das cousas, o destino da história e da natureza. Defendem esta tese aduzindo uma afirmação profusamente difundida polos pensadores espanholistas de que Espanha é a nação mais antiga de Europa, supondo gratuitamente que a nação espanhola se fundou durante o reinado dos Reis Católicos, e, por tanto, no século XV. Isto é o que temos que tratar agora.

               O dia 15/06/2017 a imprensa publicou que “O líder de Podemos atribui ao nacionalista galego (Xosé Manuel Beiras) a paternidade da aposta por um Estado plurinacional”, mas, sem restar-lhe nenhum mérito a este dirigente antes da sua caída do cavalo, esta afirmação é totalmente errônea, como se demonstra polo seguinte texto de Castelao do ano 1937 quando o Beiras tinha um ano: “Os federalistas entendíamos que, para devolver-lhe a Hespaña o seu ser autêntico, era preciso abrir os olhos à realidade e coordenar, dentro dum Estado plurinacional, os interesses materiais e morais dos diferentes povos. Desejávamos um Poder emanado do povo, querido do povo e a carão do povo. Para isto era indispensável truncar o fio da História; mas os Castelares da segunda República adoravam as abstrações mumificadas... Lembrai aquela frase de Lerroux, pronunciada na noite do 6 de outono do 1934: «¡Vamos a continuar la Historia de España!» Pois bem; esta frase patrioteira pode repetir-se...” (S.G., p. 60). Pode ver aqui o Sr. Iglesias que a frase vem de longe, igual que a luta dos povos peninsulares por lograr um status político distinto. Por conseguinte, a demanda de constituir um estado plurinacional é muito velha e remonta-se, polo menos, ao ano 1923 em que se assinou o Pacto da Tripla Aliança entre os catalão, galegos e bascos que defendem que constituem “uma aliança para a ação conjunta e a mútua ajuda na campanha pola liberdade nacional dos três povos... Reivindicam o direito dos três nações a dispor livremente dos próprios destinos e a viver segundo um regime de plena soberania política, afirmam a vontade dos galegos, dos catalães e dos bascos de conquistar com o próprio esforço e por todos os meios lícitos, a liberdade nacional” (Congresso Castelao, PP. 345 e 322). Numa entrevista que lhe fizeram faz uns dias ao líder de Podemos perguntaram-lhe se Espanha era um estado autoritário, e respondeu que com Rajoy si funciona como um estado autoritário, mas se alguém o nega, deveria responder à questão de se é ser flexível, democrático e respeitoso com as realidades nacionais um estado que oferece como única alternativa às legitimas demandas dos povos distintos do espanhol a propaganda, um sistema judicial controlado nas altas instâncias polo poder, a guerra suja contra os dirigentes doutras formações políticas, o medo e a repressão.

               Pode também comprovar o Sr, Rivera porque à vezes o qualifico de novo Lerroux, porque em realidade vem oferecer-nos como saída a pior história e Espanha, a história da Espanha corrupta e fracassada. Pode-se observar que o Estado espanhol foi incapaz de articular satisfatoriamente o poder das suas nações e manteve-se cego e surdo às aspirações dos diversos povos que o conformam apesar da longa história de reclamações neste sentido por parte das comunidades diferenciadas que o integram. É eloquente manifestação desta incapacidade o que escrevia Ortega em 1932: “Eu sustenho que o problema catalão, como todos os parelhos a ele que existiram e existem noutras nações, é um problema que não se pode resolver, que só se pode conlevar, e ao dizer isto conste que significo com isso, não só que os demais espanhóis temos que conlevar-nos com os catalães, senão que os catalães também tem que conlevar-se com os demais espanhóis” (Obras Completas, t. 11, p. 458). Ou seja, que segundo este ínclito filósofo encantador de serpentes que é capaz de solucionar um problema afirmando que não se pode solucionar, não fica outro remédio que suportar-nos mutuamente. A melhor encarnação desta posição orteguiana é a política de resistência do PP: há que aguentar até que se cansem de pedir e peçam papas, e isto permitirá espalhar aos quatro ventos que a democracia espanhola é forte e robusta, porque é capaz de submeter a qualquer povo que se lhe resista.

               Antes de dilucidar quando surgiram as nações cumpre que analisemos que é uma nação. Quando lecionava aulas costumava perguntar-lhe aos alunos e à vezes também a algum professor que entendia por nação e a resposta era invariavelmente que uma nação é uma comunidade com língua própria, cultura, território, etc., mas sempre lhe retrucava que uma nação não é isto, senão que isto é uma etnia, que os sociólogos definem como um povo que se vê distinto dos e é visto polos demais como distinto por razões culturais. Este foi também o erro no que incorreu o ilustre galeguista Ramón Chao Rego, que creu solucionar o problema da Galiza reduzindo-a a uma etnia. Sendo isto assim, na Idade Média a Galiza já seria uma nação, que foi um erro no que incorreu o grande Castelao.

               Que é uma nação? Para não ser suspeitoso de deriva nacionalista, tomarei uma definição dum autor nada suspeitoso de nacionalismo, o professor de Filosofia do Direito da Universidade de Ovieu, o cacerenho José Delgado Pinto: “a comunidade humana estável que, em base a uma série de vínculos objetivos naturais e culturais, adquire consciência da sua singularidade a respeito doutras comunidades históricas similares e tende a desenvolver uma política autônoma” (G.E.R., t. 16, p. 537). Nesta definição aparecem quatro componentes fundamentais da nação: a) comunidade estável, e, portanto, um conglomerado de pessoas que assistem a uma partida de futebol ou a um concerto, independentemente da sua quantia, não é uma nação. Uma comunidade implica uma estrutura com ordem, hierarquia, roles dos seus membros, etc. b) Os vínculos referem-se ao facto diferencial; toda comunidade nacional tem que ter algum elemento que a diferencia das demais, este elemento pode ser cultural, como a língua, cultura, religião, morfologia social; ou natural, como a raça ou o território. Como mínimo uma comunidade tem que ter um elemento diferenciador, mas, como no caso galego, pode ter vários, como a língua, cultura, direito tradicional,... c) ter consciência de si como uma realidade diferenciada que é vista também polos demais como um povo distinto, e d) a determinação de reger o seu destino e, portanto, dispor ou lutar polo direito de autodeterminação ou de decisão. Em geral, o nacionalismo galego insistiu muito nos vínculos diferenciais e muito menos na consciência de si e na determinação de reger os seus destinos próprios. Isto deveu-se a que as elites espanholistas lograram controlar a mídia galega e impor a sua visão à sua maioria social, que nacionalismo galego não foi capaz de contra-arrestar O mesmo Castelao insiste muito nos elementos nacionalitários língua, cultura, raça, terra e morfologia social e econômica e somente dum modo marginal na vontade nacional, que é quiçá o elemento mais importante porque um povo, em definitiva, vai ser o que decida ser e o traduza nas urnas. De facto, a sua definição de nação tomada de Estaline não a recolhe em absoluto: “uma comunidade humana estável historicamente formada de idioma, território, de vida econômica e de hábitos psicológicos refletidos numa comunidade de cultura” (S.G., p. 39).

               Quando surgiram as nações? Vários autores espanhóis e não historiadores precisamente lograram espalhar a falsa teoria, repetida a eito por pessoas pouco versadas nestes temas, que Espanha é a nação mais velha do continente europeu. Assim, Ortega e Gasset diz em Espanha invertebrada que “Teve Espanha a honra de ser a primeira nacionalidade que logra ser uma, que concentra no punho dum rei todas as suas energias e capacidades” (p. 144). Segundo Julián Marías o processo nacionalizador inicia-se na segunda metade do século XV nos países ocidentais de Europa e os primeiros países que se nacionalizam são Espanha, Portugal, França, Inglaterra; logo Holanda, Suécia, Prússia e Áustria; ás últimas, Alemanha e Itália. Mas frente a esta teoria cumpre dizer que a nação não pode surgir antes do nacionalistas, que são quem dão lugar à nação. O nascimento das nações se produz quando a intelligentsia dum Estado ou duma etnia consolida uma legitimação nacional do poder, utilizando como meio certos atributos comuns a uma ou várias etnias, resultando desta arte Estados mono ou pluriétnicos. Nestes últimos, se não se produz uma nacionalização exitosa do poder a escala estatal, como aconteceu no caso de Espanha, propiciará que a intelligentsia de alguma das etnias periféricas intente legitimar o poder em base a atributos da comunidade étnica própria, dando lugar á construção de novas nações e por conseguinte a novos Estados independentes ou a um Estado plurinacional, na que diversas nações pretenderão estabelecer uma difícil convivência em pé de igualdade: tal seria a origem dalguns dos Estados federais ou confederais. Segundo H. Kohn "O NACIONALISMO, tal como o entendemos nós, não é anterior aos últimos cinquenta anos do século XVIII. A Revolução Francesa foi a sua primeira grande manifestação, dando ao novo movimento uma força dinâmica crescente" (KOHN, HANS, Historia del nacionalismo, Fondo de Cultura económica, Madrid, 1984, p. 17. Ver também nota 1, cap. 1, p. 479).

Vários autores espanholista difundiram a ideia que os Reis Católicos fundaram, com o seu casamento, a unidade de Espanha, como já recolhe Castelao no seu tempo, “mas é mais certo que cada um deles regia separadamente os bens anexos à sua coroa, e depois de morta Isabel ainda volveu a casar-se Fernando em busca dum herdeiro que anulasse o compromisso do Tanto Monta, quer dizer, o dobre e forçoso reinado que recairia em Juana la Loca, e somente à esterilidade da segunda mulher de Fernando se deve a soldadura de Castela e Aragão. A prova de que não existia uma unidade hespañola está em que o cerramento da Reconquista cumpriu-se com a incorporação de Granada à coroa de Castela, ficando a coroa aragonesa desvinculada deste novo aporte. Somente Felipe II creu ter consumado a unificação política da Península ao sentar-se no trono português”(S.G., 313). A rainha Isabel estabeleceu no seu testamento que, ainda que a herdeira do trono era a sua filha Joana, o rei Fernando administraria e governaria Castela no seu nome polo menos até que o infante Carlos, primogênito de Joana, tiver cumprido vinte anos. Isto indica que os dous reinos não estavam soldados numa unidade a esta altura.