25 dic 2017

Hipercriticismo e hipotolerância ante a crítica (IV)



A auto-identidade judia e cristã

               Toda sociedade e toda associação, se quer manter a sua personalidade própria frente ao exterior e não ficar diluída, precisa destacar os traços que a distinguem das demais. Isto é o que lhe permitirá preservar a sua própria coesão interna e apresentar uma mensagem nítida e diferente de todas as demais. Toda religião representa uma cosmovisão do mundo que estrutura a mente das pessoas e, neste sentido, é também um instrumento ao serviço do poder político que pretende tornar coesa uma comunidade política frente às demais. É legítimo que toda religião destaque os seus sinais de identidade, sempre que não colidam com os direitos humanos universalmente reconhecidos, mas ao mesmo tempo tem que ser tolerante com as demais. O problema que têm as grandes religiões monoteístas é que são exclusivistas e cada uma considera que é depositária da verdade transmitida polo mesmo Deus e concretizada nuns livros que costumam denominar sagrados. O lógico, nestes casos, é que, se um crê que Deus revelou algo para ser assumido por toda a humanidade, tenha propensão a colaborar nos desígnios divinos impondo coativamente a «verdade» aos demais, incluso por meio da violência, e isto foi o que passou historicamente. Portanto, as religiões monoteístas têm também tendência a ser belicosas, enquanto cooperadoras com um poder político no que o recurso à guerra ofensiva e defensiva era a medida usual. De tal modo que a história também se pode explicar a partir das guerras de religião, ainda que normalmente eram prioritariamente guerras desencadeadas por móveis socioeconômicos e políticos. Aliás, os crentes, ao manter a mística de que lutam pola causa divina,  liberam na guerra a sua agressividade e lavam a sua falsa consciência; o qual explica que muitas vezes são as pessoas mais insensíveis e agressivas.
               Os denominados Padres da Igreja e Escritores Eclesiásticos, no seu afã de preservar os dogmas transmitidos por Deus, tiveram sempre uma atitude de defesa frente ao exterior, praticamente todos eles foram apologistas, e uma obsessão pola condena do discrepante, quer exterior, como a religião pagã, quer interior, como as diversas fações que foram surgindo no seio da Igreja. É excepcional encontrar algum autor que não tenha algum livro titulado «Contra ...» Confrontando-a com uma religião como o hinduísmo, que não tem dogmas nem emite condenas por questões doutrinais e onde cada um pensa o que crê conveniente, o cristianismo é a religião dos dogmas, das condenas, da exclusão do discrepante, inclusive dos que se confessavam cristãos. Seria prolixo enumerar os grupos e pessoas condenados pola Igreja, e só vou citar as lutas cainitas entre as duas principais facões  da Igreja dos primeiros séculos: os que logo receberiam o título de católicos e arianos, com um Santo Atanásio atiçando o ódio inter-cristão. Um pode consultar uma parte relevante destas condenas eclesiásticas em DENZINGER, HENRIQUE, Magistério da Igreja, e, a respeito da condena de livros, o Índice de livros proibidos, tanto geral como da Inquisição espanhola. No ano 1054 produziu-se o chamado Cisma de Oriente, pola obsessão do Papa de Roma a impor a sua disciplina e ritual litúrgico a toda a comunidade cristã, incluído o Patriarcado de Constantinopla, quando somente tinha reconhecida, até o século V, uma primazia honorífica, dum primus inter pares, e não uma primazia doutrinal, disciplinaria e real.
               Os judeus destacam, entre as suas caraterística próprias, o facto de aderir à única religião que se iniciou com uma revelação do Deus dos hebreus a uma nação inteira, contida no livro que lhe entregou a Moisés, a Tora, que corresponde ao Pentateuco. Este Deus encomendou-lhe uma missão divina: “Agora, pois, se atentamente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu pacto, então sereis a minha possessão peculiar dentre todos os povos, porque minha é toda a terra; e vós sereis para mim reino sacerdotal e nação santa1. Noutras palavras, o povo hebreu converte-se numa possessão divina e no povo elegido entre todos os demais e deus rebaixa-se a um deus tribal que faz aceção de pessoas e perde o seu caráter de divindade universalista que se guia por uma justiça baseada na igualdade entre todas as pessoas e todos os povos. Este pronunciamento opõe-se ao que diz muitas vezes a Bíblia referente a que não se deve fazer aceção de pessoas, como tampouco Deus as faz. “Não fareis aceção de pessoas em juízo; de um mesmo modo ouvireis o pequeno e o grande; não temereis a face de ninguém, porque o juízo é de Deus”2. E um pouco mais adiante diz o livro do Deuteronômio: “Pois Javé vosso Deus, é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz aceção de pessoas3. Javé é o deus superior, mas também se reconhece que existem outros deuses de natureza inferior. Logo, se a justiça se baseia na não aceção de pessoas e Deus não faz aceção de pessoas, não pode discriminar positivamente a um povo a respeito dos demais, porque então indiretamente estaria fazendo aceção de pessoas. Se Castelao:dizia que  Não há indivíduos livres em povos escravos”, igualmente aqui podemos dizer que não há indivíduos sem aceção de pessoas em povos discriminados negativamente. Segundo os judeus, esta revelação divina, única e exclusiva do povo judeu, foi ouvida por todo o povo hebreu no deserto do monte Sinai, se bem na realidade esta afirmação não é mais que um invento de mentes angustiadas, vítimas de situações de penúria e medo ante a situação socioeconômica adversa do deserto, que as faz sonhar com terras que manam leite e mel e num estado de segurança como fruto da proteção especial divina.
               O povo hebreu foi nos seus inícios um povo politeísta, como os demais povos do seu entorno, mas, uma vez desaparecido o reino do Norte, ou reino de Israel, que sempre defendeu e praticou a liberdade de cultos, no reino de Judá, durante a época exílio babilônico (586-537), os sacerdotes de Jerusalém lograram impor o culto de Javé e a sua unicidade, passando de ser o deus tribal de Jerusalém a Deus nacional. Deste período datam os seguintes textos: “A ti te foi mostrado para que soubesses que Javé é Deus; nenhum outro há senão ele... Polo que hoje deves saber e considerar no teu coração que só Javé é Deus, em cima no céu e embaixo na terra; não há nenhum outro” (Dt. 4, 35-39): “Portanto és grandioso, ó Senhor Javé, porque ninguém há semelhante a ti, e não há Deus senão tu só, segundo tudo o que temos ouvido com os nossos ouvidos”. Isto não significa que antes desta data não houver pronunciamentos em prol da unicidade de Deus, mas somente lograram impor-se mais tarde a toda a comunidade. “Javé dos exércitos, Deus de Israel, tu que estás sentado sobre os querubins; ti, só ti, és o Deus de todos os reinos da terra; ti fizeste o céu e a terra... Agora, pois, Javé nosso Deus, livra-nos da sua mão, para que todos os reinos da terra saibam que só ti és Javé4. Como vemos, Javé é o deus da guerra, que responde às necessidades dos povos que mantém uma relação persistente de conflito com os seus vizinhos. Em Israel já defendiam a noção de guerra santa, segundo a versão da Bíblia de Jerusalém. Je. 6, 4:  «Declarai-lhe a guerra santa! Em pé e subamos contra ela a meio-dia!... ¡Ai de nós, que o dia vai caindo, e se alongam as sombras da tarde!”. Igualmente Miq. 3, 5: “Assim diz Javé contra os profetas que extraviam o meu povo, os que, enquanto mascam com os seus dentes, gritam: «paz»!, mas a quem não põe nada na sua boca declaram-lhe a guerra santa”.
               A religião serviu para fomentar o fervor bélico e a coragem nas tropas para enfrentar os inimigos, e, portanto, atende uma necessidade social, que consiste em salvar o povo da ameaça dos seus inimigos. “Quando saíres à peleja, contra teus inimigos, e vires cavalos, e carros, e povo mais numeroso do que ti, deles não terás temor, pois contigo está Javé, o teu Deus que te fez subir da terra do Egito. Quando estiveres para entrar na peleja, o sacerdote se chegará e falará ao povo, e lhe dirá: Ouvi, é Israel; vós estais hoje para entrar na peleja contra os vossos inimigos; não se amoleça o vosso coração; não temais nem tremais, nem vos aterrorizeis diante deles; pois Javé, o vosso Deus, é o que vai convosco, a pelejar por vós contra os vossos inimigos, para vos salvar” (Dt. 20. 1-4). O autor sagrado não duvida em pôr em boca de Javé os maiores crimes de guerra, que lhe permitirá aos combatentes purificar a sua falsa consciência, porque atuando assim, atendem um preceito divino. “Logo que Javé, o teu Deus, a entregar nas tuas mãos, passarás ao fio da espada todos os homens que nela houver; porém as mulheres, os pequeninos, os animais e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás por presa; e comerás o despojo dos teus inimigos, que Javé, teu Deus, te deu. Assim farás a todas as cidades que estiverem mais longe de ti, que não são das cidades destas nações. Mas, das cidades destes povos, que Javé, teu Deus, che dá em herança, nada que tem fôlego deixarás com vida; antes destruí-los-ás totalmente: aos heteus, aos amorreus, aos cananeus, aos perizeus, aos heveus, e aos jebuseus; como Senhor teu Deus che ordenou” (Dt. 20, 13-17).
               A situação de dependência política suscita os sonhos dum Messias libertador do povo de Israel que deve reinar uma teocracia para procurar a paz e a segurança dos seus súbditos, que pouco tem que ver com a figura do Cristo histórico. O vocábulo Messias vem do hebreu Meshiach, que significa "ungido"; é equivalente ao termo grego Christós. Deveria ser descendente de David que seria ungido por Deus para libertar o povo de Israel. Era um caudilho político-militar que libertaria o povo hebreu do jugo da dominação estrangeira. O Messias devia ser filho de David porque este era o rei amado, o rei elegido em pessoa por Deus para governar Israel, e não filho de Deus, ele mesmo Deus, e segunda pessoa da trindade divina, pois esta figura de Messias opõe-se ao monoteísmo estrito do judaísmo da época contemporânea e posterior ao exílio. “Ouve, ó Israel; o Senhor nosso Deus é o único Senhor”5. Adorar ao Messias como Deus seria, para um judeu, um ato de idolatria, que constituiria uma separação definitiva de Deus.
               O Messias ostentará o poder político-militar neste mundo e relevará o domínio que ostentava a tribo de Judá: “O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de autoridade dentre seus pés, até que venha aquele (O Messias) a quem pertence; e a ele obedecerão os povos”6. Segundo a Misdrash o Messias será da tribo de Judá. “Por que te louvam os teus irmãos, Judá (Gen. 49, 8). Porque todo Israel seria chamado ‘judeus’ por ti; e não só por esta razão, senão porque o Messias será o teu descendente, o que salvará a Israel; como está escrito: ‘Um rebento brotará do tronco de Isai”7. Trata-se dum Messias rei que governará sobre todas as nações.              Os judeus não aceitam a Jesus como o Messias, pois, ainda que procurou constituir-se em líder político que libertasse o seu povo frente a Roma, fracassou no seu intento, igual que não cumpriu profecias messiânicas como:
               1ª.- Reunificar os dous reinos em que estava dividido o povo hebreu num único reino regido por David, e construir o Terceiro Templo (Ezequiel 37, 21-28).
               2ª.- Reunir a todos os judeus de regresso à Terra de Israel (Isaías 43, 5-8).
               3ª.- Constituir uma teocracia única sob o reinado de Javé, ante quem se prostrarão todos os seus atuais inimigos, sobre os quais não virá a chuva em caso de resistência. (Zacarías 14, 9-18). Ou seja, que um povo pequeno, sempre dominado por potências estrangeiras mais poderosas, fundamentalmente Egito, Babilônia e Roma, recreia mentalmente o sonho de erigir-se em reitora de todo o mundo e impor-lhe o seu Deus apesar de que nunca logrou o assentimento dos dous reinos em que esteve dividido o povo hebreu historicamente.
               Muitos dos sinais de identidade do judaísmo são também compartidos polo cristianismo, que a maiores incrementa a adesão incondicional e exclusiva que reclamou para si Jesus de Nazaré: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim”8.  Adesão e exclusivismo que justificaram historicamente a marginação e a repressão dos dissidentes. “Quem não permanece em mim é lançado fora, como a vara, e seca; tais varas são recolhidas, lançadas no fogo e queimadas9. “Se alguém vem a vós, e não traz este ensino, não o recebais em casa, nem tampouco o saudeis10.

Auto-identidade muçulmana

               A revelaç4ao de Alá a Maomé não pretende rachar com a tradição judeu-cristã, senão que forma parte da revelação já transmitida a Abraão, Moisés e Jesus. Alá “prescreveu-vos a mesma religião que havia instituído para Noé, a qual te revelamos, a qual havíamos recomendado a Abraão, a Moisés e a Jesus, (dizendo-lhes): Observai a religião e não discrepeis acerca disso; em verdade, os idólatras se ressentiram daquilo a que os convocaste, Deus elege quem lhe apraz e encaminha para Si o contrito” (Surata. 42, 13). 2, 62 No dia do juízo final tanto os fiéis, como os judeus, cristãos e sabeus, habitantes de Saba, serão recompensados por Deus, se obraram retamente. “Os fieis, os judeus, os cristãos e os sabeus, enfim todos os que crêem em Alá, no Dia do Juízo Final e praticam o bem, receberão a sua recompensa do seu Senhor e não serão presas do temor nem se atribularão” (Su. 2, 62). Mas, isto não significa que para os muçulmanos todos sejam iguais, senão que os islamistas têm a revelação autêntica, e, neste sentido, são superiores. “Nem os judeus, nem os cristãos, jamais estão satisfeitos contigo, a menos que abraces os seus credos. Dize-lhes: «Por certo que a orientação de Deus é a Orientação!» Se te renderes aos seus desejos, depois de te ter chegado o conhecimento, fica sabendo que não terás, em Deus, Protetor, nem Defensor(Su, 2, 120)..
               O Alcorão sublinha o estrito monoteísmo divino que não respeitam nem os judeus nem os cristãos. “Deus! Não há mais divindade além de Ele, o Vivente, o que Subsiste por si mesmo” (Su, 3,2). Esta unicidade é acentuada em Su, 7, 158. “Dize: Ó humanos, sou o Mensageiro de Alá, para todos vós; Seu é o reino dos céus e da terra. Não há mais divindades além de Ele. Ele é Quem dá a vida e a morte! Crede, pois, em Alá e em Seu Mensageiro, o Profeta iletrado, que crê em Alá e nas Suas palavras; segui-o, para que vos encaminheis”. Alá intima a Maomé a que pregue a revelação aos maometanos, e lhes manifeste que é o único Deus e a Ele retornará. “Assim te enviamos a um povo, ao qual precederam outros, para que lhes recites o que temos revelado, apesar de negarem o Clemente. Dize-lhes: Ele é o meu Senhor! Não há mais divindade além de Ele! A Ele me encomendo e a Ele será o meu retorno!” (Su. 13, 30). Antes enviou mensageiros a outros povos, como os judeus e cristãos, mas foram desviados por Satanás. “Por Deus! Antes de ti enviamos mensageiros e outros povos; porém, Satanás abrilhantou as próprias obras (a esse povo) e hoje é o seu amo; mas sofrerão um doloroso castigo!”(Su. 16, 63).
               Os muçulmanos criticam os judeus e os cristãos; aos primeiros porque adoraram os ídolos e aos segundos por inventar o dogma da Trindade, enquanto que eles pretendem conservar a doutrina pura de Abraão.  Alá não pode ser parte de nenhuma trindade porque isso atentaria contra a sua unicidade e, consequentemente contra a sua supremacia sobre todos os demais seres. “São blasfemos aqueles que dizem: «Alá é o terceiro de três», portanto não existe divindade alguma além do Deus Único. Se não desistirem de tudo quanto afirmam, um doloroso castigo açoitará os incrédulos entre eles (Sur. 5, 73). Além da trindade, os muçulmanos não aceitam que Jesus seja o filho unigénito de Deus. “As doutrinas da Trindade (iguais com Deus) e da unigenicidade (filho único de Deus) são repudiadas como blasfêmias” (Su. 114, 320). Segundo o Alcorão, os cristãos não respeitam o estrito monoteísmo, porque dizem que Deus é somente um deus duma trindade, ainda que concordam com eles em afirmar que Maria é virgem e concebeu por obra do Espírito Santo. “Ó adeptos do Livro, não exagereis em vossa religião e não digais de Deus senão a verdade. O Messias, Jesus, filho de Maria, foi tão-somente um mensageiro de Deus e Seu Verbo, com o qual Ele agraciou Maria por intermédio do Seu Espírito. Crede, pois, em Deus e em Seus mensageiros e não digais: Trindade! Abstende-vos disso, que será melhor para vós; sabei que Deus é Uno. Glorificado seja! Longe está a hipótese de ter tido um filho” (Su. 4, 171).
               A umma é a comunidade de crentes do Islame, que, segundo o Alcorão, se converte no novo povo elegido por Deus, com preferência aos demais crentes do livro. Os muçulmanos são os preferidos de Alá, por ser o povo melhor por razões morais e religiosas. Dos crentes do livro, ou seja, os judeus e cristãos, somente alguns crêem, mas a maioria é perversa. “Sois a melhor comunidade que surgiu na humanidade, porque recomendais o bem, proibis o ilícito e credes em Deus. Se os adeptos do Livro cressem, melhor seria para eles. Entre eles há fiéis; porém, a sua maioria é depravada” (Su. 3, 110). Alá revelou-lhe a Maomé o Alcorão, que confirma tanto a Bíblia hebreia como os Evangelhos. Em verdade, revelamos-te (a Maomé) o Livro corroborante e preservador dos anteriores, que servirá de guia para julgar os demais, sempre sem desviar do caminho reto, ao tempo que os insta a superar-se na benevolência porque todos eles retornarão a Deus. “Julga-os, pois, conforme o que Deus revelou e não sigas os seus caprichos, desviando-te da verdade que te chegou. A cada um de vós temos ditado uma lei e uma norma; e se Deus quisesse, teria feito de vós uma só nação; porém, fez-vos como sois, para testar-vos quanto àquilo que vos concedeu. Emulai-vos, pois, na benevolência, porque todos vós retornareis a Deus, o Qual vos inteirará das vossas divergências” (Su. 5, 48). Os judeus também se regem pola verdade com a que julgam. “Entre o povo de Moisés existe uma comunidade que se rege pola verdade, com a qual julga (Su. 5, 159 e 181).
               Alá elegeu um novo povo, os muçulmanos e, em consequência, de acordo com esta eleição divina devem lutar por Alá. “E combatei com denodo pola causa de Alá; Ele vos elegeu. E não vos impôs dificuldade alguma na religião, porque é o credo de vosso pai, Abraão. Ele vos denominou muçulmanos, antes deste e neste (Alcorão), para que o Mensageiro seja testemunha vossa, e para que sejais testemunhas dos humanos. Observai, pois, a oração, pagai o zakat (esmola) e apegai-vos a Deus, Que é vosso Protetor. E que excelente Protetor! E que excelente Socorredor!” (Su. 22, 78). Além dos três citados (a oração, zakat e apego a Alá), os outros dous pilares do Islame são o jejum e a peregrinação à Meca. Como proibições rituais “Ele (o Alcorão) só vos vedou a carne dum animal morto, o sangue, a carne de porco e tudo o que for sacrificado sob invocação de outro nome que não seja Alá. Porém, quem, sem intenção nem abuso, for impelido a isso, não será recriminado, porque Deus é Indulgente e misericordioso” (Su. 2, 173).
               A respeito da guerra, o Alcorão alenta alenta-a em casos determinados, como são a legítima defesa e o proselitismo. “Combatei pola causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiques a agressão, porque Deus não estima os agressores” (Su. 2, 190). Alguns entendem que neste texto o Alcorão somente aceita a guerra defensiva, mas ainda que fica, neste texto, muito indeterminado, noutros prescreve a guerra contra o infiel. A guerra deve continuar até que termine a perseguição e prevaleça a religião de Deus “E combatei-os até terminar a perseguição e prevalecer a religião de Deus. Porém, se desistirem, não haverá mais hostilidades, senão contra os iníquos” (Su. 2, 193). Obriga-se, portanto, ao submetimento, e, neste caso, proíbe-se a aniquilação. Durante certos dias está proscrito fazer a guerra, o mesmo conceito que no cristianismo se chamou a trégua de Deus. “Mas quando os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras (os cristãos), onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente e misericordioso” (Su. 9, 5). Os idólatras são impuros e, portanto, devem ser combatidos. “Combatei aqueles que não crêem em Deus e no Dia do Juízo Final, nem abstêm do que Deus e Seu Mensageiro proibiram, nem professam a verdadeira religião daqueles que receberam o Livro, até que, submissos, paguem o Jizya” (Su. 9, 29). A Jizya era a compensação exigida por não aceitar o Islame.
               A partir destas conceções, creio que já é possível entender as perseguições empreendidas por estas religiões contra os não aderentes, e no fundo do que se trata é duma luta para acrescentar o controlo das consciências e assim poder incrementar a sua massa de crentes, que se traduz também num aumento dos seus ingressos.





1.  Ex. 19, 5-6. Cf. Dt. 7, 7.
2.  Dt. 1, 17.
3.  Dt. 10, 17.
4.   Is. 37, 16.20. Cf. Salmos 18, 31 ; Salmos 86, 10
5.  Dt. 6, 4.
6.  Gen. 49, 10.
7.  Midrash Tanhuma, Bereshith vayehi, 64 
8.  Mt. 10, 37. Cf. Lc. 14, 27; Jo. 12, 43.
9.  Jo. 15, 6. Cf. Paulo, Carta a Tito, 3, 10-11.
10.  João, 2 Carta, 1, 10.

7 dic 2017

Hipercriticismo e hipotolerância ante a crítica (III)



Perseguição dos judeus durante a I cruzada

               Como vimos na entrega anterior, o cristianismo lançou, durante os primeiros séculos, os mais grossos qualificativos contra os judeus justificadas no facto de terem dado morte a Jesus Cristo, definido polo concílio de Niceia do 325 como consubstancial com o Pai eterno, o qual equivaleria, de ser ajustada esta proclamação, de terem dado morte ao mesmo Deus. Ao mesmo tempo, considerou-se como o novo povo elegido e preferido por Deus, e o guarda e garante de que se realize a sua vontade. Isto legitimá-lo-ia a perseguir a quem não aceitasse submeter-se aos desígnios que Deus lhe confiou aos seus vice-gerentes na terra. A auto-proclamação como povo elegido e a qualificação do carpinteiro Jesus de Nazaré como Deus vão ser os eixos de legitimação das maiores perseguições contra os judeus. Quando uma instituição tem uma história como o cristianismo não está legitimada para protestar e denunciar que se ferem os seus sentimentos religiosos, porque os demais também os têm e ela nunca os respeitou nem os respeita na atualidade, como vemos nestes textos e nos seus pronunciamentos contra os homossexuais. As confissões religiosas declaram alguns espaços como sagrados, que não se diferenciam em nada dos demais salvo numa declaração eclesial que assim o estipula, e isso, segundo ela, permite-lhe perseguir a quem,  dissentindo do seu critério, realiza algum ato, decisão ou manifestação, que elas consideram incompatível com a citada declaração. Igualmente, estabelecem que Jesus é filho de Deus e ele mesmo Deus consubstancial com o Pai, e este pronunciamento, apesar de ser contrário ao que dizem as Escrituras e os Santos Padres, serve-lhe para descarregar todo o seu ódio e agressividade contra todo um povo, ainda que a maioria dos seus membros nem sequer saibam quem foi esse Jesus nem conheçam os pormenores da sua morte. Tenhamos presente que o objeto deste trabalho não é sacar a reluzir os trapos sujos do cristianismo senão manifestar a nossa desconformidade contra as reiteradas denúncias apresentadas polos cristãos contra manifestações muitas vezes humorísticas pretextando que isso fere os seus sentimentos religiosos. Pretendemos demonstrar que quando faz isto está quebrantando o concelho evangélico de Mt. 7, 3, que diz: “E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho?”.
               As cruzadas medievais são expedições militares impulsadas polo poder religioso contra os infiéis, principalmente os muçulmanos com a finalidade de arrebatar-lhe os santos lugares e pô-los sob o controlo dos reinos cristãos. O papa era a esta altura um soberano mais, chefe dos Estados Pontifícios, dominação legitimada pola falsa doação de Constantino supostamente ao papa Silvestre, e, com o objetivo de criar uma teocracia medieval universal põe no seu ponto de mira o controlo dos santos lugares. Com esta finalidade, substituiu a doutrina cristã contrária a participar em guerras dos três primeiros séculos polo conceito de guerra justa agostiniana, e introduziu o conceito de «paz de Deus», destinado a proteger os bens da Igreja e dos pobres, coordenado com o de «trégua de Deus», ou seja, o cesse das atividades bélicas em certos dias da semana, principalmente o domingo e sábado, que normalmente não se cumpria. Ao mesmo tempo, converteu a guerra justa, em guerra santa, noção tomada do Islame, aplicada precisamente à luta contra os infiéis muçulmanos e judeus, e que racha com a política anti-belicista da Igreja dos três primeiros séculos, que considerava a guerra como um assassinato em massa, o qual explica que se negassem a combater no exército imperial romano. “A morte no campo de batalha não se considerava gloriosa, nem a morta em luta contra o infiel se considerava como martírio; o mártir morria só armado com a sua fé. Lutar contra o infiel era lamentável, ainda que a vezes não podia evitar-se; lutar contra irmãos cristãos resultava duplamente mau1. A cruzada estava a cargo da Igreja, e, para dirigi-la o papa nomeou a Ademaro de Montiel, bispo de Puy. O papa Urbano II focou duas possibilidades: contratar um exército de mercenários, que era uma solução cara e não muito fiável, ou explorar o sentimento religioso dos fiéis, que foi a solução elegida e explorada com notável sucesso.
               Historicamente não se conhecem nenhuma campanha de perseguição do povo hebreu contra outros povos, como aconteceu com o cristianismo a partir do momento em que foi declarado religião oficial do Império Romano e muito especialmente durante as cruzadas e a inquisição, e com os muçulmanos especialmente durante as cruzadas e nos séculos XIX - XX, mas não se pode achacar este facto a um especial pacifismo inato do povo israelense, senão que quiçá cumpre explicá-lo pola ausência de poder suficiente num mundo em minoria e pola consequente incapacidade para dominar coativamente aos seus vizinhos. Aliás, a sua dedicação a atividades financeira, que requere um clima de paz para ter êxito, criou neste povo uma cultura mui pouco favorável à violência, numa época em que a nobreza feudal, com uma mentalidade baseada no honor, se propôs e resolver conflitos, endireitar tortos, e se dedica a empreender façanhas nas que era usual o recurso às armas. Devido á sua negativa experiência histórica os judeus associam o cristianismo com momentos álgidos de grande perseguição contra os judeus e a aplicação de métodos de castigo desapiedados: cruzadas, inquisição, queimas do Talmude, torturas, ódio e anti-semitismo, se bem alguns exculpam disto a Jesus e reconhecem a grande projeção que alcançaram com ele muitos dos valores do povo hebreu.  
               Na Espanha visigótica, os judeus foram perseguidos pola monarquia e pola Igreja Católica, a partir do momento em que Recaredo se converte ao catolicismo e impulsa a homogeneização religiosa dos seus súbditos, que vai ser especialmente premente nos reinados de Sisebuto (612-621), que endureceu as leis anti-judias e se decretou a conversão forçosa dos judeus, e de Ecija (687-702) que decretou a escravidão de judeus e conversos. Quando os muçulmanos desembarcaram em Espanha no ano 711, os judeus experimentaram uma sensação de alívio por considerar que permitiria mitigar a sua situação de fustigação a que estavam submetidos nos reinos cristãos, e, realmente, nas zonas de domínio muçulmano, ainda que numa situação de subordinação, gozaram de paz e de liberdade de culto.
               No século XI, as elites monárquico-nobiliárias e clericais fervem com ânsias de proezas, aventuras e sucessos bélicos e empreendem as cruzadas de libertação dos santos lugares a esta altura em poder dos sarracenos. Os predicadores ao tempo que exortam à paz interior, fomentam a guerra com o exterior, pois os nobres somente podem verter sangue pola causa de Deus. O objetivo primordial das cruzadas era a luta contra o infiel muçulmano para libertar Jerusalém do seu domínio e restabelecer o culto cristão, mas, de facto, converteram-se também numa cruenta perseguição e extermínio dos judeus. Segundo o rabino Eliezer Bar Nathan, “levantou-se gente arrogante de fala estranha, uma nação fria e impetuosa, franceses e alemães, de todas as direções. Decidiram partir para a Cidade Santa, para buscar a sua casa de idolatria, banir os ismaelitas e conquistar o território para si mesmos2. Muitos historiadores aprestam-se a exonerar a Igreja deste massacre e afirmam que vários bispos se opuseram a este genocídio, mas, sem restar-lhe validez a esta afirmação, também é certo que vários os atraiçoaram apesar das somas de dinheiro recebida para protegê-los e outros somente acederam a protegê-los se se convertiam ao cristianismo, e, por outra parte, não pode ser eximido de culpa quem cria um caldo de cultivo baseado na animadversão contra uma etnia por, supostamente, ter dado morte a Deus. De ser certa esta afirmação, pouco crédito mereceria este Deus que não só se amostra impotente para remediar as misérias alheias senão que nem sequer é capaz de defender-se a si mesmo, se bem se constitui num potente reclamo para semear a morte e a destruição. Aliás, os desmandos das mesnadas cristãs nunca foram condenadas, que eu saiba, por nenhum documento papal apesar de ser os pontífices os máximos impulsores destas correrias, e nunca foi submetido a juízo nenhum dos participantes neles apesar da sua gravidade, e o pretexto foi sempre que os seus autores não apareceram. Item mais, não se tomaram medida alguma para evitá-los nem sequer nas cruzadas posteriores. Há um elemento que vai propiciar o incremento da participação nas cruzadas e a subsequente violência exercida contra o povo judeu que é a dispensa de pagamento das dívidas dos devedores com os acredores, que eram normalmente judeus.
               Neste clima de incitação à violência contra os infiéis participaram os pontífices Alexandre II que pregou a cruzada contra o infiel muçulmano ibérico prometendo indulgências aos cristãos que combatessem pola cruz na Espanha. O papa Gregório VII, que acunhou a expressão milites Christi, soldados de Cristo, convidou os príncipes da cristandade a implicar-se na contenda no reino espanhol que, a esta altura, pertencia à Sé Pontifícia. O seu sucesso contra os muçulmanos peninsulares induziu-o a prometer indulgências aos cristãos que se decidissem a ajudar o império bizantino, após a sua derrota na batalha de Manzikert ante os turcos em Ásia Menor, mas a promoção das cruzadas deve-se principalmente ao papa Urbano II (1088-1099) que, para satisfazer a petição de ajuda do imperador bizantino Alejo Conmeno, em dezembro do ano 1093, II (1088-1099) celebrou um concílio em Limoges, onde se tratou da cruzada contra os sarracenos, e em novembro do ano 1095 convocou um concílio que se celebrou em Clermont-Ferrand no que se decidiu perfilar o tema da cruzada “ou da expedição para a libertação da terra santa, que ele propusera também no concílio de Piasença de março deste mesmo ano. Como vemos, o papa insiste na ideia de guerra contra o infiel ao que pretende derrotar com objeto de estabelecer o domínio religioso cristão em todo o mundo por meio de expedições bélicas de puro aventureirismo político-religioso que se converteram nas primeiras campanhas ocidentais em território estrangeiro. A seguir redigem-se 32 cânones dos que recolhemos os quatro primeiros:
               1.º A paz ou a trégua de Deus será guardada todos os dias para com os clérigos, os monges e as mulheres; a respeito das outras pessoas, será guardada, polo menos a quinta feira, sexta feira, sábado e domingo.
               2º.- A cruzada será substituta de toda classe de penitência para os cruzados que façam a viagem a Jerusalém, por um motivo de devoção, e não para adquirir gloria ou riquezas.
               3º.- Somente se darão os deados e os arciprestados das igrejas aos presbíteros e os arquidiáconos aos diáconos.
               4º.- As eclesiásticos não levarão armas3. Ou seja, que antes de empreender esta aventura já decidem perdoar os pecados, repartir o botim e fixar os dias de trégua. A cruzada devia iniciar-se em agosto de 1096, mas já na primavera partiram as primeiras expedições de bandas ávidas de combate e de sangue pola glória de Deus, muito pouco organizadas e disciplinadas. 
               Uma vez terminadas as deliberações o papa dirigiu um chamamento a uma multidão de seculares e clérigos descrevendo a lamentável situação dos cristãos dos santos lugares a mãos dos sarracenos ou muçulmanos, que já tomaram as cidades de Antioquia, Éfeso e Niceia e ameaçam as nações cristãs. “A raça dos elegidos sofre atrozes perseguições, e a raça ímpia dos sarracenos não respeita nem às virgens do Senhor nem os colégios dos sacerdotes. Atropelam os débeis e os anciãos, às mães quitam-lhes os seus filhos para que possam olvidar, entre os bárbaros, o nome de Deus4. Como vemos, agora o cristianismo também se apresenta como a raça elegida e, portanto, abre-se a via para matar em nome do seu Deus protetor. O papa exorta-os a empreender sem demora a guerra santa contra os muçulmanos pola libertação do povo de Deus prometendo-lhe o perdão dos seus pecados. “À todos os que partirão e que morrerão no caminho, quer em terra ou por mar, ou que perderão a vida combatendo os pagãos, ser-lhe-á acordado o perdão dos seus pecados. E eu concedo-lho a aqueles que participarão desta viagem em virtude da autoridade que tenho de Deus... São as recompensas eternas o que vão ganhar os que se faziam mercenários por um soldo. Trabalharão por um dobre honor os que se fatigavam em detrimento do seu corpo e da sua alma. Eram aqui tristes e pobres; serão além alegres e ricos. Aqui, eram inimigos do Senhor; além serão os seus amigos5. Por conseguinte, o papa promete-lhe uma vida regalada em além-túmulo a câmbio de imolar-se ad majorem Dei gloriam no presente, e todo garantido polo vice-gerente de Deus na terra sem gastar nem um cêntimo. Também lhe ofereciam uma libertação das suas dívidas, o qual motivou que muitos pessoas endividados se animassem a alistar-se nestas expedições, que eram consideradas como legítimas e justas porque eram obrigações contraídas com uma raça ímpia que tinha dado morte a Cristo.
               Em realidade, em vez duma cruzada houve duas: uma do papado e a nobreza, integrada por cinco grandes exércitos nobiliários, ao mando de Godofredo de Bulhão, duque da baixa Lorena, e Roberto de Normandia, e outra dos mendigos, caraterizada esta por ser um movimento anti-semita surgido majoritariamente nas capas baixas da população, fundamentalmente entre os campesinos de França e Alemanha. A violência estala na cidade francesa de Rouen, onde os cruzados arrastaram à Igreja os judeus e mataram a todos os que se negaram a ser batizados,  e estende-se polas renanas de Mainz, Espira, Worms e Köln (Colónia). A cruzada dos mendigos estava comandada, num princípio, por Pedro de Amiens ou o eremita (ca. 1050-1115), que em vez de matar judeus preferiu utilizar a extorsão para procurar dinheiro dos judeus; levava uma carta dos judeus da França na que se pede aos judeus de Trier que doem provisões aos cruzados, ainda que na sua viagem por Hungria as suas tropas tomaram por assalto a cidade de Semlim e mataram perto de quatro milhares de húngaros. O seu liderado foi-se disseminando, mas como fruto da sua predicação, progressivamente outros tomaram o seu relevo. Um dos novos líderes foi o conde Emicho de Flonheim, um cavaleiro e bandido de Renânia, grande inimigo dos judeus, que foi quem congregou a tropa mais numerosa, ao que se uniram grande quantidade de singelos peregrinos que confiavam na sua inspiração divina, em total, uns dez mil homes, mulheres e meninos. Outros chefes surgidos também como resultado da predicação de Pedro o eremita foram o sacerdote Volkmar que, desde finais de abril, perseguiu os judeus em Magdeburgo e em Praga, Boêmia, onde massacraram todos os judeus da cidade, mas, quando em Hungria começaram as pilhagens, o seu exército foi massacrado polo exército de Coloman;  e o monge alemão Gottschalk, discípulo de Pedro, que dirigiu uma cruzada desde Renânia a Hungria, e perto de Taplany, massacrou a população, e, à sua vez, as suas hostes foram massacradas polo exército húngaro de Coloman, a finais de 1096, a causa das suas pilhagens. Os ataques dos cruzados produziram-se em lugares muito dispares e ao uníssono e algum autor sugere que obedeceram a uma inspiração violenta, mas esta explicação é totalmente desacertada já que não se acredita nenhuma inspiração nem sequer da Bíblia, e o lógico é que obedeça a que o zelo das autoridades cristãs produziu um caldo de cultivo que se traduziu num clima de fervor e fanatismo na população que teve como resultado estes massacres generalizados de judeus. Aliás, uma inspiração nunca é violenta, senão que são violentos os efeitos da inspiração.
               As mesnadas cristãs, antes de dirigir-se contra os muçulmanos de Oriente provaram sorte matando a judeus nas cidades próximas, e “Quando passam por povos onde havia judeus diziam entre eles «Viajamos a terras distantes para buscar a casa de idolatria e tomar vingança nos ismaelitas, mas aqui estão vivendo entre nós os judeus, cujos antepassados o mataram e crucificaram sem motivo. Primeiro tomemos vingança neles,  destruamo-los como povo para que o nome de Israel não se volva a recordar ou de modo que sejam iguais a nós e se submetam ao filho da luxúria (Jesus)»6.
               O 3/05/1096, os cruzados atacaram Espira e, apesar da proteção do bispo, não pudo evitar que mataram a dez judeus que se negaram a batizar-se. O rabino Eliezer narra-o assim: “O dia 8 de lyar (abril-maio), sábado, o inimigo atacou a comunidade de Espira e matou dez almas santas que santificaram o seu Criador no Sábado santo e rejeitaram sujar-se a si mesmos adotando a fé do seu inimigo. Havia uma mulher piedosa que se matou a si mesma em santificação do nome de Deus. Foi a primeira de todas as comunidades que foram matadas7. Em Worms o bispo também intentou protegê-los albergando-os no palácio episcopal, mas sem sucesso, porque foi assaltado polos cruzados que mataram não menos de 800 judeus que rejeitaram batizar-se. “O dia 23 de Lyar os lobos das estepes atacaram a comunidade de Worms. Alguns da comunidade estavam na casa, e alguns na corte do bispo local. Os inimigos e opressores atacaram os judeus que estavam nas suas casas, pilhando e matando homes, mulheres e filhos, moços e velhos. Destroçaram as casas e abateram as escadas, saqueando e pilhando; e colheram a sagrada Tora, pisaram-na lama da rua, e despedaçaram-na e profanaram-na entre escárnio e riso8. Sete dias mais tarde fizeram o mesmo com os judeus que estavam recluídos no palácio do bispo e a reação destes foi também a mesma. Os mortos nestes dous dias foi duns 800.
               O 27/05/1096, as tropas do conde Emicho atacaram ao judeus que se refugiaram na palácio arcebispal de Mainz no que o arcebispo Rothard lhes dera refúgio e os protegera com a guarda episcopal a câmbio duma incrível quantidade de dinheiro, mas quando Emicho exigiu a sua entrega foram abandonados pola guarda episcopal e o bispo desapareceu subitamente. Perante a sorte fatal que lhes esperava e a impotência para fazer frente a esta situação, eles mesmos decidem imolar-se para não ver-se obrigados a renunciar à sua fé.  Este ataque saldou-se com a morte duns 1.100 judeus, incluídas mulheres e meninos, porque “o inimigo não amostrou misericórdia com as crianças e meninos de peito, nem piedade para as mulheres a ponto de dar a luz, Não deixaram sobrevivente ou resto senão uma fruta seca, e duas ou três sementes, devido a que todos eles estavam impacientes para santificar o nome do Céu. E quando o inimigo estava sobre eles, todos gritaram duma grande voz, com um coração e uma língua: «Ouve, o Israel,», etc.9. O comportamento dos judeus foi similar á dos seus compatriotas de Espira e Worms.  As mulheres cingem os seus lombos com força e mataram os seus filhos e filhas e elas mesmas. Muitos homes, também, armaram-se de coragem e mataram as suas viúvas, os seus filhos, as suas crianças. A tenra e delicada mulher mata o seu filho com o que jogou, todos, home e mulheres erguem-se e matam-se uns a outros. As donzelas e noivas novas e criados olham pola janela e com uma alta voz gritam: «olha e mira, o deus nosso, o que fazemos pola santificação do teu grande nome para não cambiar-te por um colgado e crucificado...»10. “Os que estavam escondidos em Neuss, Welfinghofen e Xanten, Moers, Geldern e Alternahr sofreram o mesmo destino que os demais, e também muitos escolheram o suicídio11.
               Em Köln (Colônia) os judeus não puderam evitar outra matança. “Milhares de judeus foram linchados em Köln, apesar de que o arcebispo da cidade intentou evitá-lo albergando-os no seu próprio palácio12. As notícias da crueldades praticadas com os judeus chega a Köln e os membros desta comunidade puseram-se a tremer perante o que se lhe avizinhava. “As notícias chegam a Köln o cinco do mês, a véspera de Pentecostes, e instilou um medo mortal na comunidade. Cada um escapou para as casas de conhecidos pagãos e permaneceu ali. À amanhã seguinte os inimigos levantaram-se e irromperam nas casas, saqueando e pilhando. O inimigo destruiu a sinagoga e removeu os rolos da Tora, profanando-a e lançando-a nas ruas para ser pisada debaixo dos pés13. Em Trier e mais tarde em Regensburg, os cruzados lograram que os judeus se converteram em massa, se bem com pouco sucesso porque, ao desaparecer a ameaça sobre eles, volveram de novo à praticar a sua religião. Em Trier, “alguns judeus que viviam lá... tomaram os seus filhos e espetaram-lhe um cuitelo no ventre dizendo que deviam enviá-los ao seio de Abraão com a finalidade de que não se convertam numa pelota nas mãos dos maníacos cristãos. Algumas das mulheres encheram as mangas e os corpinhos com pedras e botaram-se ao rio desde a ponte. Os demais que ainda tinham algum interesse pola vida amontoaram todos os seus bens e fugiram ao palácio onde precisamente naqueles dias se achava o bispo Eguiberto e, com bágoas nos olhos, suplicaram-lhe que lhes concedera proteção. O arcebispo aproveitou a ocasião para admoestá-los a que se batizaram... Terminada a admoestação, um rabino chamado Micha adiantou-se e rogou ao bispo que os ensinara, como assim fez, explicando-lhe o contido da religião católica. Então Micha exclamou: Ponho a Deus por testemunha de que eu creio o que ti acabas de expor e de que apostato do judaísmo; quando os tempos sejam mais tranquilos, estudá-lo-ei com mais detalhe. Agora batiza-nos rapidamente a fim de que possamos escapar dos nossos inimigos. O mesmo disseram todos os demais judeus. Então o arcebispo batizou-o e deu-lhe o seu nome, e os sacerdotes que se achavam lá batizaram todos os demais. Estes últimos abandonaram a fé católica ao ano seguinte, mas o rabino permaneceu fiel ao arcebispo e à sua nova religião14. Numa situação de medo extremo da comunidade judia, ao arcebispo não se lhe ocorre nada melhor que aproveitar para chantageá-los obrigando-os a intercambiar vida por batismo.  Estas conversões «forçadas» e a galope somente se prestam a semear a hipocrisia nas pessoas, da que são consequência o engano, a dobrez de pensamento, palavra e obra e o ódio contra as pessoas e instituições que atuam tão iniquamente.   
               Noutras cidades, como na bávara Regensburg (Ratisbona), os cruzados submergiram os judeus amedrontados em massa no Danúbio a modo de batismo coletivo. As razões do ódio anti-semita obedecia a razões religiosas, por atribuir-lhes ao povo judeu a responsabilidade da morte de Jesus; e por razões econômicas, porque a comunidade judia era próspera porque se dedicava a uma atividade muito lucrativa como é o empréstimo de dinheiro e as suas riquezas eram muito cobiçadas. O conde Emicho, igual que os outros dous aventureiros: Volkmar e Gottschalk, também fracassou no seu intento de libertar a Terra Santa dos infiéis pois as suas mesnadas foram derrotadas em Hungria e viu-se obrigado a retornar por onde vinhera.            
               A cruzada dos mendigos teve mui pouco sucesso, mas a dos barões, às ordens de Godofredo de Bulhão, Godofredo de Tolosa e Boemundo de Tarento sim comseguiu o seu objetivo, pois, em março de 1098, Balduino toma Edesa e funda o condado deste nome, que durará até o ano 1144. Boemundo logra entrar em Antioquia em junho de 1098, com a conivência da população, e o 15/07/1099 os cruzados tomam Jerusalém, criando assim vários reinos de taifas», dependentes dos ocidentais e principalmente do papa, de vida efêmera. Godofredo rejeita a coroa de Jerusalém e toma o título de advogado de Santo-Sepulcro, reservando assim os direitos da Igreja sobre o novo reino, Os cruzados celebraram a tomada de Jerusalém com uma autêntica carniçaria da população sarracena. “Entrados na cidade, os nossos peregrinos perseguiam e massacravam os sarracenos até o templo de Salomão, onde se juntaram e onde travaram aos nossos o combate mais furioso durante todo o dia. De modo que o templo todo inteiro estava banhado do seu sangue15. Mas as vítimas desta carniçaria foram também os judeus, as mulheres e os meninos. Os defensores judeus recluiram-se numa sinagoga para orar e «preparar-se a morrer», e os “Frany (franceses) bloquearam as saídas e, a seguir, apinhando feixes de lenha todo o arredor, prenderam-lhe fogo. Aos que intentavam sair matavam-nos nas vielas próximas. Os demais queimavam-se vivos16.






1.  RUNCIMAN, STEVEN, Historia de las cruzadas, Alianza Editorial, Madrid, 1987, pp. 91-92.
6.  Tomado de SUÁREZ BILBAO, Antisemitismo en Europa, Dykinson, Madrid, 1984, p. 148.
7.  BAR NATHAN, ELIEZER, The chronicles of rabbi Eliezer Bar Nathan, "The Massacres of Jews by the First Crusaders" (1096)
9.  BAR NATHAN, ELIEZER, The chronicles of rabbi Eliezer Bar Nathan, "The Massacres of Jews by the First Crusaders" (1096)
11.  SUÁREZ BILBAO, FERNANDO, Los judíos y las cruzadas. Las consecuencias y su situación jurídica, https://digitum.um.es/jspui/bitstream/10201/35399/1/51881-221121-1-PB
12.  GARCIA BLACO, JAVIER, Historia del papado, América Ibérica, 2010, p. 94.
14.  SUÁREZ BILBAO, FERNANDO, Los judíos y las cruzadas. Las consecuencias y su situación jurídica, https://digitum.um.es/jspui/bitstream/10201/35399/1/51881-221121-1-PB
15.  La prise de Jérusalem (1099) historien.geographe.free.fr/tyrjerusalem.doc
16.  MAALOUF, AMIN, Las cruzadas vistas por los árabes, Alianza Editorial, Madrid, 1989, p. 17.