2 ene 2019

O cristianismo destruiu a ética


                O cristianismo em Espanha não só pretende que o seu sistema de valores morais prevaleça, senão que pretende que seja o único sistema de valores vigorante na sociedade, pretensão a todas as luzes inadmissível se temos em conta que qualquer religião não deixa de ser uma associação particular, que, numa sociedade pluralista, nunca pode representar ao conjunto social. Por outra parte, quando alguém pretende acaparar a direção dos valores que devem servir de guia numa comunidade, o primeiro que deve ter presente é que os cidadãos vão ajuizar estas pretensões de acordo com o seu passado. Neste sentido, considero que fica desqualificada uma associação que:
a)       impôs a partir do seu reconhecimento oficial polo império romano no século IV o maior sistema repressivo que conhecem os séculos, eliminando fisicamente a todos os desviantes, fossem cristãos desviantes, pagãos, judeus, maniqueus, etc.
b)      desde finais do século XI, se lançou a uma luta de conquista sob pretexto de recuperar os santos lugares, provocando  não menos de cinco milhões de pessoas mortas;
c)       destruiu qualquer pluralidade cultural e só manteve em pé uma cultura de caráter religioso de índole cristã «ortodoxa» tamisada por clérigos muitas vezes fanáticos e intransigentes.
d)      Impôs um sistema inquisitorial para apagar qualquer vestígio de dissentimento da linha oficial «católica», causando um número de mortos que, no caso de Espanha, o ex secretario espanhol da Inquisição, Juan Antonio Llorente (1756-1823), cifra em 32.000 queimados vivos e 300.000 ajuizados e obrigados a fazer penitência.
e)      obstaculiza a formação livre das pessoas colocando no Índice de Livros Proibidos a milhares de livros que não aceitavam o dogma «católico».
f)       acompanhou e bendisse a conquista espanhola de América que custou mais de 46 milhões de pessoas, e submeteu a escravidão a todo aquele que não aceitasse a doutrina católica.
g)      considerava que tinha poder do Altíssimo para submeter aos povos a escravidão, poder que transmitia aos governantes ao seu bel prazer.
h)      Impôs o monolitismo ideológico na saciedade espanhola por meio da limpeza de sangue para eliminar qualquer concorrência com judeus, muçulmanos e protestantes na sua vocação por consolidar o discurso único. Isto levou-o a revisar o historial dos suspeitosos e a condenar ao ostracismo social a quem não fosse capaz de demonstrar que não estava manchado com sangue de judeus, muçulmanos ou protestantes, constituindo-se assim no predecessor do nazismo.

                Ë certo que também os cristãos sofreram perseguições nos primeiros séculos, ainda que não por motivos religiosos senão políticos. A ninguém se lhe molestava por ter um deus próprio, senão por não dar culto ao Imperador enquanto sustentador da ordem sócio-política e por não defender o império participando nas forças armadas, ao que se negavam os cristãos. Mas, não entra no nosso tema dilucidar se o código moral dos romanos serve de base para reger a sociedade atual.

                A ética é uma avaliação dos atos humanos enquanto bons ou maus, corretos ou incorretos de acordo com um sistema de valores vigente numa determinada comunidade, e uma proposta de penalizações e prêmios para os que desviam ou se conformam ou realizam ações exemplares desde o ponto de vista social. Todo ato humano, para que seja, moral, e, portanto, responsável e merecedor de prêmio ou castigo, tem que ser:
a)      pessoal, ou seja, um ato proveniente do próprio sujeito, pois em caso contrário não pode ser credor de mérito ou demérito. Um ato que um ser humano faz possuído e impelido por algum ser divino ou diabólico não pode ser credor de mérito nem demérito. Isto implica que um suposto pecado original ou qualquer outro somente poderia imputar-se aos que o cometeram e nunca aos seus descendentes. Por outra parte, a transmissão dum suposto pecado original é impossível porque nenhum ato físico e muito menos um ato moral, como o pecado, se podem transmitir por geração. Somente se pode transmitir um traço fisiológico de pais a filhos se se produz um câmbio no ADN, no código genético, mas a malícia dum ato, que é um ato moral, não se pode transmitir de pais a filhos.
b)      responsável, e para ser responsável tem que ser pessoal, livre e consciente, e, portanto, as gerações futuras não devem carregar com as culpas dos seus ancestrais, porque, não puderam participar em nenhum ato pessoal, livre e consciente antes de nascer. Segundo o cristianismo, depois do pecado original o ser humano perdeu a liberdade e só lhe fica o livre alvedrio, ou seja, que, de por si é incapaz de realizar nenhum ato merecedor de mérito algum perante Deus se este não lhe dá as graças necessárias, mas fica com a liberdade total para pecar. Segundo o cristianismo, todo ato humano para que seja meritório tem que ser produzido pola graça divina que obra em quem Deus quer sem ter em conta o seu esforço, pois a graça é totalmente libérrima e gratuita e não depende das nossas boas obras nem do nosso esforço, pois Deus opera em nós sem nós e dá-lhe as graças a quem ele decida, independentemente dos méritos próprios. A concessão da graça divina é totalmente arbitrária e depende só do seu bel prazer, tese própria dum sistema despótico no que o chefe não tem que dar razão alguma do seu proceder aos seus súbditos nem submeter-se a nenhuma norma. Pergunta-se Agostinho: quem somos nós para pedir-lhe contas a Deus? Esta doutrina da graça, proveniente de Agostinho de Hipona, destrui a ética, porque se um ato não provém do sujeito que atua e se é incapaz de mérito ou demérito polas suas ações, a bondade só pode ser atribuída a Deus e não ao ser humano.

                Não só o ato tem que provir do sujeito, senão que também toda ética que se preze tem que estabelecer um sistema de prêmios e castigos razoáveis e proporcionados. Não pode ser que a uma pessoa por roubar uma galinha, lhe cortem as mãos. Pois bem, os castigos no cristianismo são totalmente desproporcionados como se constata por:
a)      O castigo sofrido por toda a humanidade por um pecado supostamente cometido polos supostos pais da humanidade Adão e Eva, que a teoria evolucionista falsou totalmente, por ter desobedecido o preceito de não comer as maças duma determinada árvore. Um castigo semelhante é impróprio de qualquer ser que se chame Deus, pois superaria sadismo a todos os castigos que os seres mais malvados puderam ter imposto alguma vez, porque castiga a todas as gerações futuras por atos cometidos pola suposta primeira parelha humana. É um castigo que excede qualquer proporcionalidade, porque simplesmente por desobedecer o preceito duma prova trampa de que não comessem uma maçã, são castigados com uma pena severíssima, que afeta tanto aos dous membros da parelha e a todos os seus descendentes ainda não nascidos.
b)      Também é inumano e ímpio atribuir a Deus os castigos além túmulo por pecados pessoais, e somente na mente de pessoas sádicas e perversas se pode pensar que Deus inflige penas eternas polo fogo, como as do inferno, porque são impossíveis fisiologicamente. Um ser humano submetido a tais penas, de seguida se converte em cinzas, e, para que isto não acontecesse, Deus teria que mantê-lo milagrosamente com vida para poder castigá-lo. Esta é uma tática clerical para manter amedrontada a população e se submeta de bom grau às suas consignas.
c)       As torturas e cremação de pessoas vivas na fogueiras por discrepâncias ideológicas e com a finalidade de semear o terror na população. Os juízos a que se submetia os acusados eram uma pura farsa, estavam baseados no secretismo dos acusadores para fomentar a delação, na confissão baixo tortura dos acusados, e careciam das mínimas garantias de imparcialidade e objetividade.

                Toda ética deve partir duns princípios claros e coerentes a partir dos quais se deduza todas as demais proposições. Uma ética que parte de princípios contraditórios, só pode dar lugar a um amassilho de proposições incoerentes e contraditórias. E isto é o que sucede na ética cristã que umas vezes acode a:
a)      Princípios naturais, como quando alega que o incesto ou a homossexualidade não se pode aceitar porque vai contra as leis da natureza e produz repulsão em quem os praticam. Sabemos que muitos reis antigos cassavam com as suas irmãs, e a endogamia era de terceiro grão era comum nas casas reais europeias, mas deixando o incesto de lado, porque é mais problemático, a homossexualidade é uma prática comum em praticamente todos os animais, tanto os que vivem em cativeiro como em liberdade. Portanto, não se pode condenar recorrendo à natureza, salvo que digamos que os animais não seguem as leis da natureza. A justificação a partir das leis da natureza tem também o inconveniente de que constitui um razoamento lógico inválido porque deduz proposições valorativas a partir de factos naturais, incorrendo na falácia naturalista. É um razoamento incorreto porque a natureza nunca pode ser fonte de valores; de premissas que constam de proposiç4oes fáticas nunca se podem inferir conclusões valorativas; dum «é», nunca se pode concluir um «deve». Aliás, a partir de premissas fundamentadas na natureza humana, que se conhece com o nome de jusnaturalismo ético, podem-se inferir conclusões contraditórias entre si. Assim, os defensores da propriedade privada foi considerada pola maioria dos pensadores jusnaturalistas como de direito natural, mas os defensores do comunismo também se apoiaram nele para defender a sua abolição.  
b)      Princípios sobrenaturais provenientes da chamada revelação a partir de livros supostamente inspirados por Deus. Somente acudindo a princípios desta classe se pode suster que o celibato ou a virgindade são superiores ao matrimônio, pois isto somente se pode dizer que é assim porque o diz o homófobo apóstolo Paulo. Somente mediante princípios desta índole se pode justificar o sacrifício de Abraão, de sacrificar ao seu filho Isaac. Estes princípios que chamamos sobrenaturais muitas vezes colidem entre si, e assim se bem no Gênesis e em Ex. 20.5, se condena aos primeiros pais e a todos os seus descendentes, polo menos é assim como o interpretou o cristianismo, noutras partes, como em Ez. 18.20 afirma-se que os filhos não devem pagar polos pecados dos seus pais. No Antigo Testamento fomenta-se a natalidade como uma benção divina, mas Jesus recomendou a castração polo reino dos céus (Mt. 19, 12).
  
                Pretender fundamentar a ética em textos supostamente sagrados de faz quatro mil anos teve como consequência o seu ancilosamento, o seu esclerosamento e a sua incapacidade para dar resposta aos problemas éticos do mundo de hoje, como é o caso da homossexualidade, libertação da mulher da sua situação de inferioridade a respeito do varão, práticas de controle da natalidade, da ética animal que na maioria dos casos é ridicularizada por docentes eclesiásticos, etc. Desde uma ética cristã não se pode tampouco dar resposta aos problemas ecológicos, nem nunca a igreja fez nada para resolvê-los, e isto é um falho importante. A Bíblia diz que Deus lhe deu poder ao homem para fazer e desfazer a respeito da vida dos demais seres vivos, ao tempo que condenou como idolátrico o culto à natureza, apesar de que a considera como uma obra divina. As religiões ficam centradas em seres divinos e desprezam este mundo, considerado como um vale de bágoas, e a mesma vida humana. O cristianismo tampouco dá resposta à convivência numa sociedade democrática e sempre esteve muito cômoda com sistemas ditatoriais e repressivos, como foi o caso da Espanha de Franco, levado baixo pálio, do Chile de Pinochet,... sempre fosse beneficiado com as receitas do Estado.

                O apoio em princípios sobrenaturais tem também como consequência que, como as preocupações de épocas históricas em que se redigiram os livros sagrados são muito distantes e distintas às atuais, agora as preocupações da ética cristã reduzem-se praticamente a temas relacionados com o sexo, e uns clérigos, eunucos espirituais, polo menos em teoria, misóginos e misossexuais, salvo minorias, lecionam tanto a pessoas que se iniciam nele como aos já experimentados. Muitas vezes, obedecendo precisamente as leis da natureza humana pulsional, quebrantam a absurda norma celibatária que condena qualquer satisfação regrada das pulsões sexuais humanas, e aproveitam para praticas esporádicas de sexo, para violentar as monjas, frequentar os serviços dos bordéis, escapar-lhe com a mulher dos seus próprios fregueses ou para abusar dos mais novos. Os problemas de sexo tampouco se solucionam com a repressão, com a finalidade de manter uma dotação de trabalhadores totalmente entregados e baratos, senão com o reconhecimento do direito dos clérigos a ter uma vida sexual ordenada e formar uma família, se o desejam. Isto provoca que a oposição visceral da hierarquia contra a ideologia de gênero se veja desacreditada. Contudo, há que fazer constar também a conduta íntegra e comprometida com o seu ideal de grande parte dos clérigos, ainda neste contexto.

                Finalmente, se a ética é uma avaliação dos atos humanos enquanto bons ou maus, e se toda avaliação é um produto humano, incluída a Bíblia, a única ética admissível é uma ética cívica, dialógica, uma ética que seja expressão das aspirações e necessidades humanas da grande maioria dos membros da sociedade e dos diversos grupos sociais, também dos praticantes religiosos, mas uma ética cívica não aceita que um grupo, por muito numeroso e poderoso que seja, goze de privilégios a eito e pretenda impor-se sobre todos os demais.

13 nov 2018

Mulheres, sexo e matrimônio no Alcorão


O Alcorão, inspirado na Bíblia judeu-cristã, amostra também uma doutrina que é profundamente assimétrica no tocante as relações homem mulher. Em muitos versículos de diversos capítulos expõe o Alcorão a normativa referente às mulheres, dos que citaremos os que consideramos mais representativos. Sublinha-se a inferioridade da mulher a respeito do home e esta é a tônica de todo o Alcorão, fundamentada na afirmação bíblica de que a mulher foi feita a partir do varão (Surata 4ª, 1). O homem pode repreender a mulher, mas não ao revês, e, em caso de conflito pode castigá-la, suspender as relações sexuais ou golpeá-la. “Os homes são superiores às mulheres, porque Deus lhe outorgou a preeminência sobre elas e porque as dotam com os seus bens. As mulheres devem ser obedientes e guardar os secretos dos seus esposos, pois o céu confiou-lhes a sua custódia. Os maridos que sofram desobediência das suas esposas podem castigá-las, deixá-las sozinhas nos seus leitos e incluso golpeá-las” (Surata IV, 34 (38); Cf. Surata 2ª, 228). Se utilizarmos o valor dos bens a que têm direito na herança os homes e as mulheres como critério, duas mulheres teriam o mesmo valor que um home. (S. 4ª, 12). A legislação alcorânica favorece a drenagem de recursos das mulheres para os homens. Ademais de herdar o dobre que a mulher, o homem herda a metade dos bens da mulher morta, enquanto que a mulher somente pode herdar a quarta parte dos bens do seu homem morto. Esta drenagem de recursos leva aparelhada a obrigação de dotar as esposas e, consequentemente, a criação duma sociedade patriarcal.

Em caso de dissensão entre homem e mulher, a solução deixar-se-ia em mão dum juiz de cada parte. (4ª Surata, 35) Se a mulher teme a aversão e a violência do seu marido, ninguém faz mal se se compõem amigavelmente, o qual é preferível à separação (Surata 4ª, 127 (128)). O marido não pode amar a todas as mulheres por igual, e, para evitar conflitos entre as esposas, não deve entregar-se totalmente a aquela que ama, abandonando a outra (Surata 4ª, 128 (129)).

            Igual que no judaísmo e cristianismo, o islamismo considera que o comércio sexual é algo impuro, e isso explica que os crentes têm que purificar-se depois das relações sexuais (Surata 5ª, 7; Cf. Surata 4ª, 46 (43)); no caso da mulher, volve-se impura pola função fisiológica da menstruação da mulher, e, por isso, necessita também purificar-se depois dela. “Consultar-te-ão acerca da menstruação; dize-lhes: É uma impureza. Abstende-vos, pois, das mulheres durante a menstruação e não vos acerqueis delas até que se purifiquem; quando estiverem purificadas, aproximai-vos então delas, como Deus vos tem disposto, porque Ele estima os que se arrependem e cuidam da purificação” (Surata II, 222).

O islamismo consagrou a prática da poligínia, vigorante na sociedade hebreia, mas abolida por Jesus, e, portanto, não aceita a limitação do Gênesis de que Deus os fez macho e fêmea. Um muçulmano poderá casar com uma não muçulmana nas mesmas condições que com uma muçulmana, mas uma muçulmana não poderá casar com um não muçulmano porque o seu status religioso se veria afetado porque a esposa tem que seguir o status do esposo. (Surata 5ª, 6 (5)).  O número de esposas somente vem limitado pola capacidade econômica, polos sentimentos humanitários a respeito dos órfãos e viúvas como resultado das guerras, e pola possibilidade de dar-lhe a todas elas um trato equitativo. “Se temerdes ser injustos no trato com os órfãos, podereis desposar duas, três ou quatro mulheres de entre as que vos aprouver. Mas, se temerdes não poder ser eqüitativos para com elas, casai, então, com uma só, ou conformai-vos com as escravas que tendes à mão. Isso é o mais adequado, para evitar que cometais injustiças” (4ª Surata,  3). A pessoa que não seja bastante rico para desposar mulheres livres, tomará por esposas a escravas fieis (Surata 4ª, 25 (29)).

O profeta tem um trato privilegiado no referente ao número de esposas. No versículo 49 da Surata 33ª estabelece uma isenção ou privilégio na limitação do número de mulheres para o profeta, que somente se vê limitado polo facto de tê-las dotados. Portanto, o número de esposas vem determinado, em primeiro lugar, polas disponibilidades econômicas, facto que alguns justificam polos seus sentimentos e compaixão para com as viúvas e à ajuda delas para com o seu dever de liderança junto às mulheres, mas se estes são os motivos seria uma irresponsabilidade não permitir que todos possam cumprir com os citados motivos. Também pode tomar como esposas as cativas, as coirmãs que migraram com ele e as crentes que se dedicam ao Profeta. “Ó Profeta, em verdade, tornamos lícitas, para ti as esposas que tenhas dotado, assim como as que a tua mão direita possui (cativas), que Deus tenha feito cair em tuas mãos, as filhas de teus tios e tias paternas, as filhas de teus tios e tias maternas, que migraram contigo, bem como toda a mulher fiel que se dedicar ao Profeta, por gosto, e uma vez que o Profeta queira desposá-la; este é um privilégio exclusivo teu, vedado aos demais fiéis” (Surata 49 (52)). Além deste número fixado de esposas, não lhe está permitido desposar outras nem trocar umas mulheres por outras. “Alem dessas não te será permitido casares com outras, nem trocá-las por outras mulheres, ainda que suas belezas te encantarem, com exceção das que a tua mão direita possua. E Deus é Observador de tudo” (Surata 33 ª. 54).

A mulher, dado que é pensada em função do varão, deve procurar agradar-lhe e mostrar-se casta em todo momento, e tampouco tocante a isto se impõe nada parecido para o varão. “Ordena às mulheres baixar o rosto, conservar a sua pureza, não mostrar os seus corpos senão a aqueles que devam vê-los” (Surata 24ª, 31). Nas relações sexuais, as mulheres do Profeta ficam ao seu arbítrio. “Ti fazes esperar à que queiras de entre elas e ti acolhes contigo a que queiras. Tampouco se te faz nenhuma queixa se convidas à tua casa a uma das que tinhas descartado. Eis o que é mais acertado para alegrá-las, para evitar-lhes toda pena e para lhe fazer aceitar do bom grau o que lhes destes a todas” (Surata 33ª, 51). Tampouco poderá o profeta cambiar as suas mulheres por outras (Surata 33ª, 52)

A frequência das relações sexuais marca-as o home unilateralmente e a mulher tem que estar disponível para quando o home o deseje. A mulher é comparada com um campo de lavoura à que o homem pode ir quando lhe apraz, sem limitações de nenhuma classe, e a mulher tem a obrigação de mostrar uma disposição total e o único preceito que se lhe impõe ao homem é que faça antes boas obras. “Vossas mulheres são vossas semeaduras. Desfrutai, pois, da vossa semeadura, como vos apraz; porém, praticai boas obras antecipadamente, temei a Deus e sabei que compareceis perante Ele” ( Surata, 223). Os que não mantêm relações sexuais com a sua mulher têm um prazo de quatro meses para revocar a sua decisão ou decidir divorciar-se (Surata IV, 226-227). Nos dias de jejum, somente se podem ter relações sexuais pola noite. (2ª Surata, 183).

Da desigualdade entre os membros da parelha deduzem-se direitos e deveres dispares. Uma vez visto como se constitui uma família, imos ver como se pode desconstruir. Também, neste âmbito, toda a iniciativa lhe corresponde ao varão. O repúdio somente pode ser exercitado polo varão, e está limitado a duas vezes (Surata 2ª, 229). Quem a repudie três vezes somente pode volver a tomá-la depois de passar polo leito doutro esposo (Surata 2ª, 230). A mulher repudiada tem que deixar três meses antes de tomar novo marido (Surata 2ª, 228, e 232). O marido pode repudiar livremente à mulher e não se prevê no Alcorão uma medida simétrica da mulher a respeito do homem. Se um home repudia uma mulher antes de ter relações sexuais com ela, a mulher pode casar sem estar limitada polo prazo de três meses, além de ter que dar-lhe um donativo, que não se precisa, e sem travas à sua liberdade. “Ó fiéis, se vos casardes com as fiéis e as repudiardes, antes de haverde-las tocado, não lhes exijais o cumprimento do término estabelecido; dai-lhes um presente, outrossim, e libertai-as decorosamente” (Surata 33, 48ª; verso 228 da 2ª surata). Neste caso, se tampouco lhe tiver assinado nenhum dote, o marido não está submetido a nenhuma pena (Surata 2ª, 237).

            Outra das possibilidades de ruptura da convivência é o adultério da mulher. “Se alguma das vossas mulheres cometeu adultério, chamai a quatro testemunhas. E se os seus testemunhos são unânimes contra ela, encerrai-a na vossa casa até que a morte ponha fim aos seus dias, ou Deus lhe proporcione algum meio de salvação” (Surata 4ª, 19 (15)). Um castigo desproporcionado à falta cometida e que não se aplica ao home que comete a  mesma falta. Os adúlteros só podem casar com outra pessoa adúltera ou com uma idólatra (Surata 24ª, 3). Os que acusem de adúltera a uma mulher virtuosa são fortemente punidos. “E àqueles que difamarem as mulheres castas, sem apresentarem quatro testemunhas, infligi-lhes oitenta vergastadas e nunca mais aceiteis os seus testemunhos, porque são depravados” (Surata 24ª, 4). Se não acarretam quatro testemunhas jurarão quatro vezes, no nome de Deus, que o seu testemunho é autêntico,e a mulher livrar-se-á dos castigos com o mesmo juramento. (Suratas 6 e 8), e o quinto juramento será uma imprecação sobre eles mesmos se são perjuros (Surata 24, 7 e 9). 

14 oct 2018

Mulher, sexo e matrimônio nos escritos apostólicos (II)


Inferioridade e submissão da mulher

            Uma das ideias mais recorrentes do Novo Testamento é a do submissão da mulher ao homem, a qual, depois de enorme insistência e repressão, terminou por ser interiorizada tanto polos varões, convertidos em repressores, como pola mulher, que viu anulada a sua personalidade. São Paulo quer que as mulheres de Corinto evitem assistir sem véu à igreja, que ele considera um abuso que se opõe às tradições ou ensinança catequética que ele lhes transmitiu. Aproveita esta prática para deixar bem assentada a inferioridade da mulher com respeito ao varão que ele fundamenta em considerações místicas, à margem de qualquer fundamentação racional e, com esta finalidade, elabora um sistema piramidal, para dar uma forma mais claramente misógina ao relato do Gênesis incorporando a ele a Cristo, na que os elos de major a menor perfeição e hierarquia são: Deus-Cristo-homem-mulher. “Quero porém, que saibais que Cristo é a cabeça de todo homem, o homem a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo” (I Cor. 11, 3). Esta hierarquização, com a conseguinte subordinação e dependência da mulher, obedece, pois, a desígnios divinos e, portanto, não se pode quebrantar, como sucederia se o homem assistisse à igreja com a cabeça coberta e a mulher com ela descoberta, pois, neste caso, a mulher ousaria fazer-se igual ao varão, o qual é totalmente inadmissível, para Paulo. Nesta mística paulina, totalmente gratuita e infundada, a mulher fica descabeçada, sem pensamento próprio, reduzida a uma cabeça de «chorlito», que somente pode pensar pola mente do varão.

            A seguir realiza o apostolo Paulo toda uma série de afirmações para apoiar as suas teses, carentes do mais mínimo rigor, a respeito da desonra da sua cabeça, pois o que desonra não são as vestes, mas a atitude perante a divindade ou perante os outros seres humanos e todo o demais são convenções sociais criadas polos que dominam para distinguir-se dos demais e sacralizar o seu sistema de dominação sobre eles, labor que, neste caso, é realizada polos relatos bíblicos do Gênesis, que agora adquirem em Paulo uma nova ratificação. O apóstolo considera que se o homem se cobre e a mulher se descobre não mostrariam o plano hierárquico de dominação estabelecido por Deus que é o citado: Deus-Cristo-varão-fêmea. O homem, se se cobrisse não refletiria a glória de Cristo, e a mulher, se não se cobrisse, pretenderia igualar-se ao varão. O homem é imagem e glória de Deus e a mulher é imagem do homem, um reflexo sempre pálido da autêntica realidade. A razão de todo isto é que a mulher proveu do homem, enquanto que o homem proveu de Deus; este foi criado por si mesmo, enquanto que a mulher foi criada a causa do varão, o qual lhe permite concluir que somente o homem é imagem e glória de Deus, enquanto que a mulher é glória do homem, e, por isso, deve cobrir-se em sinal de submissão ao varão, que é já o paroxismo da misoginia, ou senão rapar-se. “Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça, porque é a mesma cousa como se estivesse rapada. Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também; se, porém, para a mulher é vergonhoso ser tosquiada ou rapada, cubra-se com véu. Pois o homem, na verdade, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus; mas a mulher é a glória do homem. Porque o homem não proveu da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado por causa da mulher, mas sim, a mulher por causa do homem. Portanto, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de submissão, por causa dos anjos” (I Cor. 11, 4-10). Em vez dos anjos deveria dizer em interesse dos misóginos celibatários. O Gênesis não precisa claramente se a mulher é ou não imagem de Deus, cousa que sim faz agora o apóstolo Paulo, limitando a imagem de Deus ao sexo masculino.

            Para intentar remendar o seu discurso profundamente misógino e consolar a mulher acrescentando que “nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher. pois, assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus” (I Cor. 11, 11-12), mas pouca independência pode ter um ser que está totalmente submetido a outro e carece de total autonomia. A seguir, Paulo dá-lhe voz aos coríntios para que julguem se convém que a mulher ore com a cabeça descoberta, pretendendo inclinar o seu juízo polo não em base a que já a natureza nos ensina que é uma desonra para o homem ter os cabelos longos enquanto que é uma desonra para a mulher não tê-los longos. “julgai entre vós mesmos: é conveniente que uma mulher com a cabeça descoberta ore a Deus? Não vos ensina a própria natureza que se o homem tiver cabelo comprido, é para ele uma desonra; mas se a mulher tiver o cabelo comprido, é para ela uma glória? Pois a cabeleira lhe foi dada em lugar de véuI Cor. 11, 13-15). É evidente que a natureza não ensina nada, senão que somente adquire sentido mercê à atividade avaliadora do ser humano. O que desonram são as condutas e atitudes incorretas para com os demais seres humanos, os restantes seres vivos, a natureza inerte, mas nunca os cabelos longos ou curtos. Se a cabeleira lhe foi dada por véu, por que ao homem, que também tem cabeleira, se não se rapa ou lhe cai o pelo, também lhe seria dada por véu. Aliás, se a cabeleira lhe foi dada por véu à mulher, por que precisa outro véu a maiores?

            De acordo com as pautas acima estabelecidas, Paulo atua coerentemente exigindo que as mulheres calem na igreja, obedeçam e perguntem-lhes aos maridos se querem aprender. “as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma cousa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja” (I Cor. 14, 34-35). É uma mágoa que não precise Paulo por que para ela é indecoroso falar na igreja, enquanto que para o homem não.

            Tanto nas cartas atribuídas erroneamente a Paulo como nas epístolas denominadas católicas, mantém-se esta tendência misógina de clara subordinação da mulher a respeito do homem. Na carta pseudoepigráfica dirigida aos efésios no ano 62, o seu autor insiste no tema da submissão da mulher ao marido «em todo» e, a câmbio, aos homens aconselha-lhe que as amem. “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo aos seus maridos. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef. 5, 22-25). A expressão «em tudo» deveria desaparecer de qualquer relato em que se fale da relação dum ser humano com outro. Se o homem lhe indica que tem que matar a outro ser humano, deve ela obedecer? Estaria ela eximida do delito de homicídio ou assassinato alegando que atuou por obediência devida? Isto é totalmente inaceitável. O home deve amar a mulher e esta reverenciar ao marido (Ef. 5, 32), e as mulheres idosas devem ensinar as jovens a amar os seus maridos (Tit. 2, 4-5). Também se insiste na submissão na Carta aos Colossenses, escrita no ano 62 e de autenticidade duvidosa. “Vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres, e não as trateis asperamente” (Col. 3. 18-19).

            O autor da I Carta a Timóteo, escrita arredor do ano 100, amostra-se mais rude e imperativo e justifica a inferioridade da mulher no facto de que Adão foi criado primeiro e em que Eva atuou como sedutora para induzi-lo a pecar . A mulher aprenda em silêncio com toda sujeição. Porque não permito à mulher ensinar, nem exercer domínio sobre o home, senão estar em silêncio“ (I Tim. 2, 11-12), e justifica-o aludindo ao invento do pecado do paraíso e oferece-lhe como saída parir filhos e ser boa. “Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão; salvar-se-á, todavia, dando à luz filhos, se permanecer com sobriedade na fé, no amor e na santificação” (I Tim. 2, 13-15) . E postos a ordenar, também lhe prescreve como devem vestir. “que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos custosos” (I Tim. 2, 9). Tanto os bispos como os diáconos devem ser maridos de uma só mulher, e as mulheres devem ter as virtudes dos subordinados: “sérias, não maldizentes, temperantes, e fiéis em tudo” (I Tim.  3, 11). Não se deve eleger nenhuma viúva menor de sessenta anos, porque “quando se tornam levianas contra Cristo, querem casar-se; tendo já a sua condenação por haverem violado a primeira fé; e, além disto, aprendem também a ser ociosas, andando de casa em casa; e não somente ociosas, mas também faladeiras e intrigantes, falando o que não convém. Quero pois que as mais novas se casem, tenham filhos, dirijam a sua casa, e não dêem ocasião ao adversário de maldizer” (I Tim. 5, 11-15).

            Na I Carta de Pedro, pseudoepigráfica, escrita arredor do ano 65 e.c. insiste-se também na submissão das mulheres aos homes para que “se alguns deles não obedecem a palavra, sejam salvos pola conduta das suas mulheres, considerando a vossa vida casta em temor” (I Ped. 3. 1-2). Imitando as mulheres dos patriarcas, o seu adorno não deve ser o enfeite exterior, senão o íntimo do coração. E a conduta do marido deve ser a da compreensão, tratando-as como vaso frágil.

            Estes são os relatos bíblicos que os clérigos ousam afirmar que foram inspirados por Deus, por mais que não exista neles nenhum indício sério que indique que é assim. Estes relatos, esclerosados e convertidos em imutáveis e, pretensamente, na expressão da autêntica verdade, acarretaram enorme dor, sofrimento e alienação a mais de meia humanidade que viveu no mundo cristão e de algumas outras religiões. Esta cosmovisão deve mudar-se por outra que reconheça que as religiões positivas são também produtos humanos, criados para iluminar, dirigir, submeter, consolar e dar esperança aos seres humanos, úteis quiçá nalgum momento passado, mas que hoje são uma rêmora para a sua libertação e reconciliação consigo mesmo.