3 oct 2015

Beiras brama contra a “pestilência dos focos de opinião”




Na apresentação do pré-acordo de Podemos, IU e Anova, José Manuel Beiras emitiu uma dura crítica ético-pessoal contra o que ele denominou focos de opinião, que me surpreendeu e que me fiz perguntar-me se eu próprio poderia estar concernido por ela, dado que publiquei um artigo no que criticava precisamente este pré-acordo. A surpresa provém de que Beiras desvia a crítica do eido político, que é unicamente no que eu pretendia mover-me, ao eido pessoal e ético, porque a palavra pestilência tem estas duas conotações. Tenho como norte da minha atuação analisar criticamente a realidade mas preservando sempre os vínculos de amizade que me unem com as pessoas; criticam-se as ideologias, ou em palavras cristãs, o pecado, mas nunca o pecador.

Eu sempre aprecei a Beiras pessoalmente e comparti com ele o pensamento político até a viragem que experimentou em 2012, não polo fato de sair do BNG, senão polos furibundos ataques ás formações nacionalistas e polo fato de apoiar a formações estatais em vez de coligar-se com CxG, que creio que não lhe minguaria o êxito eleitoral, porque os votos eram dele pessoalmente na grande maioria polo seu tirão eleitoral. O meu apreço pola sua pessoa mantém-se mas não podo compartilhar o seu posicionamento político atual. Quando se criaram As Marés, algumas das minhas filhas votaram esta opção para os concelhos, sem receber nenhuma observação e muito menos crítica pola minha parte. Eu mesmo sempre tenho dito a quem quer escutar-me que As Marés representam um passo a respeito dos governos anteriores, mas corremos o risco de que o prezo que pode ter que pagar-se seja demasiado elevado, porque um projeto espanholista das formações estatais nunca vai beneficiar á longa um projeto próprio e soberano.

Beiras fala dos focos de opinião, e isto desde logo não vai comigo, porque eu não sou nenhum foco, porque quando se fala dum foco normalmente alude-se a um grupo de pessoas, e eu não formo parte de nenhum partido nem de nenhum grupo de opinião, senão que são somente um tigre que erra solitário na selva do nacionalismo. Tão-pouco me considero sequer um foco solitário senão somente um vaga-lume que irradia em contextos mui limitados. Considero que é nefasto para uma comunidade política que qualquer dirigente político pretenda silenciar a voz crítica da cidadania, achacando-lhe juizos de intenções e perversidade moral, porque expressa o seu sentir sobre o devir do país; somente se lhe deve exigir que seja uma crítica construtiva, e toda crítica que seja veraz, é construtiva, porque ajudará a melhorar a realidade existente. Um político não pode pretender que reduzamos o nosso rol ao aplauso e ao louvor dos participantes no partido, sem que, depois de pagar a entrada, podamos valorar as diversas jogadas e criticar se se metem goles na própria meta. Uma sociedade sem crítica é uma sociedade morta e profundamente corrupta. Ninguém ouvirá de mim um ex-abrupto, uma desqualificação pessoal, mas deixem-me polo menos pensar e falar que é o único mecanismo que nos queda de participação política; que ninguém queira tão-pouco ensilvar-me em ataques pessoais, porque a amizade e os sentimentos humanitários devem primar sobre o ideário político, sobre todo com aqueles que nos aparentam muitas cousas.

Aproveito para dizer que os participantes na assinatura do acordo, convidam-nos a que o leamos antes de falar. Eu tenho que dizer que já o li mas não fui capaz de solucionar as minhas dúvidas, porque eu quero saber se quando se diz que “o povo galego como sujeito político soberano, ... operará em conseqüência com este princípio para todos os efeitos e em todos os planos: político, jurídico, simbólico, comunicativo e organizativo”, isso implica que pode ter um grupo parlamentar próprio ou se esta possibilidade se fia a boa vontade dos órgãos do Congresso para que permitam o que o Regulamento da Câmara não permite. Não vale pássaro em mão para Podemos e IU, e cento voando para Galiza. O que si vejo que estão mui bem garantidas as políticas referentes ao câmbio político, com as quais também nos identificamos, mas o referente a Galiza fica, polo menos, numa espécie de penumbra.

Queria também aconselhar-lhes que se a candidatura leva o nome usado para a candidatura de A Corunha e Ferrol, se utilize o nome galego Marés e não, como o que passou com o Bloque, o espanholismo de Mareas.
   

    

2 oct 2015

O papa Francisco e a teologia da mulher





Papa Francisco
Quando um contempla o campo da história, não numa impossível viagem ao passado -Einstein dixit- senão numa viagem do passado cara a nós, que panorama divisamos? Limitando o nosso campo de vissão a certas calas, olhamos que as religiões do livro, quer dizer, as que reclamam possuir livros inspirados pola mesma divindade, apesar de que nada neles permita chegar a esta conclusão, parecem estar num estado de decomposição, e concretamente o cristianismo, em bancarrota moral, lógica e antropológica. Bancarrota moral, porque a moral cristão foi incapaz de dotar-se duma ética que contribua á felicidade humana. O prazer e toda felicidade neste mundo converteu-se em algo suspeitoso para ela, e aos que sofrem e são despossuidos dum mínimo vital somente lhe ofereceu uma hipotética felicidade no mundo do além. É uma ética que justificou e promoveu o eunuquismo, principalmente o espiritual, a escravidão, a misoginia, a homofobia, ... Constringiu a liberdade de pensamento coartando-a pola imposição do terror numa atuação sintónica e sincrónica da espada e a cruz. Bancarrota lógica porque intentou fechar a realidade em dogmas definitivos, perenes, imutáveis, insensíveis incompreensíveis e insensíveis a qualquer câmbio histórico, seja na sensibilidade, na ciência, na filosofia, na cultura, ... O único recurso que são capazes de aduzir a respeito dos dogmas é que são um mistério, esquecendo que foram propostos por seres humanos e com uma atuação prioritária do poder político. Uma bancarrota antropológica porque em vez de reconhecer e promover as potencialidades humanas, dotando-se dum humanismo integral, desapossou ao ser humano da sua faceta sexual, com a falaz pretensão de convertê-lo num anjo, e liberou a Deus de toda culpa, carregando a responsabilidade do mal cósmico, tanto físico como moral, na criatura humana, ficando assim convertido num demo. Em realidade, o humanismo cristão é somente um anjo-teísmo-demonismo.

A misoginia cristã deriva a sua origem do mito do pecado de Adão, mais tarde transmutado em pecado original por obra de Santo Agostinho, que se utilizou historicamente para degradar até limites incríveis a personalidade feminina. A mulher foi concebida como um ser maligno que induziu a um ingênuo Adão a desobedecer os mandados divinos, convertidos em mandados trampa para fazer recair sobre o ser humano a responsabilidade do males que afligem á humanidade. Jesus era um home e elegeu somente a homes como colaboradores. Dizia o misógino São Paulo que «mulieres in eclessia taceant», que as mulheres na Igreja calem, convertendo-as em seres mudos limitados a escutar aos homes na sua casa. Estas questões históricas de fato, são suficientes para a Igreja para concluir que também deve ser questões de iure e para apresentar uma doutrina moral e jurídica e moral que justifique a superioridade do home sobre a mulher. Esta ilação lógica incorreta, serviu-lhe a Bento XVI para afirmar que “por algo Deus se encarnou num home”, que condensa toda a misoginia eclesial contra a mulher.

O rol histórico da mulher na Igreja limitou-se a servir de companheira ao home no referente á procriação, porque, como diz Tomás de Aquino, noutras cousas está melhor ajudado por outros homes. A mulher, segundo este teólogo medieval, deve estar submetida ao home, porque de por si é incapaz de evitar a concupiscência. Parece que na Idade Média as mulheres se dedicavam a violar aos homes! Como cambiam as cousas, meu Deus!

A filosofia acudiu também presta a justificar esse subordinacionismo da mulher ao home, inclusive em autores com uma filosofia antitética á mensagem cristã, como é o caso do grande misógino Federico Nietzsche, que escreveu algumas das páginas mais duras sobre o movimento de emancipação feminina. “Pois, que podem produzir esses torpes ensaios de erudição feminina e de despojo de si mesmo, da mulher? Tem tantos motivos a mulher para ser pudica! Oculta tantas cousas pedantes, superficiais, escolásticas, tanta presunção mesquinha, tanta pequenez imodesta e desenfreada! Analisem-se, polo menos, as suas relações com os meninos. No fundo o que reprimiu todo isto foi o «temor» ao home. ... Confessemo-lo, nós, os homes, honramos e amamos precisamente esse arte e esse instinto na mulher, nós que temos a missão difícil e que nos unimos voluntariamente, para alívio nosso, a seres cujas mãos, cujas  olhadas, cujas tenras loucuras fazem aparecer quase como erros a nossa gravidade, a nossa profundidade. Em fim, eu proponho esta questão: jamais a mulher concedeu profundidade a um cérebro de mulher nem justiça a um coração de mulher. E não é verdade que, em resumidas contas, «mulher» foi desprezada, sobre todo, polas mulheres e não por nós? Nós os homes desejamos que a mulher não continue comprometendo-se por declarações. Pois missão do home era velar pola mulher, quando a Igreja decretava: «mulier taceat in eclesia». Polo bem da mulher, Napoleão deu a entender á mui discreta Madame de Stael: «mulier taceat in politicis!» E eu creio que um verdadeiro amigos das mulheres é aquele que grita hoje ás mulheres: «mulier taceat de muliere»”. (Para além do bem e do mal, 232) Mas a mim, Sr. Nietzsche, como não são amigo das mulheres e são um contraditor impenitente, um ligeiro e um superficial, gosto de gritar: «mulier loquatur de omnibus et maxime de mulieribus». Por tanto, que a mulher fale de todas as cousas, e é a principal indicada para fazê-lo da mulher.

O papa atual em exercício, Francisco, fala de que é precisa uma teologia da mulher, e faz esta proposição após afirmar que o tema da ordenação da mulher já o deixou fechado João Paulo II, e, por tanto, a apertura dum debate sobre este tema já está fechado. Ora bem, uma teologia da mulher, nestas condições, é insustentável teoricamente, pois a mulher não necessita uma teologia da mulher senão uma feminologia, um tratamento íntegro e rigoroso da mulher, que não parta de preconceitos fechados, nem do mesmo conceito de Deus, logicamente incompreensível. A mulher não necessita florituras masculinas que ocultem a sua situação subordinacionista, senão um reconhecimento dos seus direitos íntegros em igualdade com o ser masculino, respeitando a sua diferença genérica. Esta feminologia deve ser protagonizada por mulheres principalmente, porque somente elas são capazes de expressar como se sentem e como desejam ser tratadas polo home com a finalidade de lograr uma igualdade real de direitos entre os sexos.

Recomendar-lhe-ia, modestamente, ao papa Francisco, que tenha presente que somente com talante não se governa o mundo e que, para lograr um câmbio real na Igreja, que eu considero inviável polo mesmo anacronismo e gerontocracia da organização do papado, instituição conformada a partir do século IV, polos interesses coincidentes do Imperador romano, que atuou durante os séculos IV e V como o Papa real, e do Papa de Roma, como estamos em condições de provar compridamente, são precisas medidas legislativas que transformem as caducas estruturas atuais da Igreja numa estrutura para o dia de hoje, que seja capaz de apresentar um programa incitante á sociedade que demonstre que tem um papel que cumprir em benefício duma sociedade mais fraterna, livre e igualitária.

    

29 sept 2015

Nação política e identitária




 
A nação, por Castelao
A situação dum país delata a situação dos seus meios de comunicação, e quando se trata dum país com um nacionalismo absorvente, expansivo e intransigente, como é o caso da nacionalismo espanhol, que controla todos os meios de comunicação realmente relevantes, isto determinará a focagem da divisão territorial do poder, a ideologia dos meios de comunicação e a qualidade da sua democracia. É bem eloqüente a este respeito a diversa maneira de encaminhar as tensões territoriais o Reino Unido, com Escócia, e Espanha com as reivindicações dos nacionalismos defensivos catalão, vasco e galego. Se Catalunya ou o País Vasco gozam duma situação política mais boiante que a galega e duma capacidade de autodefesa da sua identidade, isto obedece, em grande parte, á distinta situação dos seus meios de comunicação, e, por tanto, da sua capacidade de contra-restar as idéias com as que nos bombardeiam desde a capital do reino. Quando um lê a imprensa ou escuta os tertulianos dos meios espanholistas, praticamente os únicos existentes com poder de influência importante a nível de massas, um não pode por menos que ficar surpreendido da pobreza argumentativa e da sua tendência á manipulação e a tergiversação. Espanha nunca teve grandes filósofos e isto paga-se.

O jornal El País, veio publicando nestes dias passados uma série de artigos sobre a nação e a pátria com o objetivo de desacreditar o nacionalismo catalão, amparando-se na liberdade de expressão, que é capaz de carregar com toda a deformação e tergiversação para procurar os próprios objetivos. Um destes artigos estava assinado por Felix Ovejero, professor da Universidade de Barcelona, titulado «Pátrias e fronteiras», do que o jornal destaca a seguinte manifestação: “Frente á idéia da nação republicana, território político comum dos compatriotas, levanta-se a nação sustida sobre a identidade, que exclui aos cidadãos que discrepam”. Alude, por tanto, á tradicional diferença entre a noção de nação emanada da Revolução Francesa, concebida como um povo formado por todos os indivíduos que o compõem, independentemente da sua etnia de procedência, e a noção alemã, baseada nos fatos diferenciais, quer dizer, nos caracteres identitários da língua, cultura, território, economia, religião, etc. A noção de nação proveniente da França revolucionária de integradora não tinha nada, e foi proposta com o propósito de estabelecer uma comunidade nacional por acima das diferenças e traduziu-se, na prática, no maior centralismo e etnocídio cultural da história, que propiciou a eliminação de todas as línguas salvo o francês e para criar um centro único macrocefálico de poder, criação e irradiação cultural, que seria após imitado pola Espanha borbónica. Frente a esta idéia de nação, pretensamente integradora mas na pratica laminadora das diferenças, pois a única integração digna de tal nome é a voluntária, levanta-se por parte de Fichte, a raiz da derrota de Alemanha ante França, na guerra de Jena do ano 1806, a idéia de nação étnica, com a finalidade de levantar os ânimos do povo alemão nesta etapa de desmoralização. Foi uma idéia de nação de carácter defensivo, que após se vai propalar por Europa, e também, naturalmente, por Galiza, mas já complementada com os ingredientes subjetivos da consciência e o sentimento nacional de P. S. Mancini. 

A formulação de Ovejero, como opiniões próprias, não haveria nada que objetar se não se utilizasse com objetivos espúrios, identificando a Espanha com a defesa da idéia da nação republicana e a Catalunya com a da defesa duma nação identitária de carácter reacionário . Não deixa de ser curioso que se pretenda argumentar em contra da realidade que um está observando e padecendo a diário. Espanha, em primeiro lugar, não foi nunca, salvo em períodos excepcionais e mais bem anedóticos e mui breves, uma república, porque já se encarregaram as forças reacionárias, e principalmente o nacionalismo espanhol de direitas, de fazê-la inviável. Em segundo lugar, foi sempre, e ainda o é hoje, sumamente excludente e negadora dos direitos fundamentais dos povos, como o de autodeterminação, de expressão da sua vontade política, de expressar-se na própria língua, de controlar os próprios recursos, de decidir sobre a própria cultura, etc. Não tem, por conseguinte, nada de integradora senão que é fundamentalmente impositiva e etnocida. Que mais negação dos direitos dos povos que pretender espanholizar aos meninos catalães? Há muitos meninos catalães, vascos e galegos que não são capazes de expressar-se na sua própria língua, mas não há nenhum menino catalão, vasco ou galego que não fale espanhol. Mas, surpreendentemente, isto não é satisfatório para os hierarcas espanhóis, que parece que somente estariam satisfeitos com a eliminação total das línguas periféricas. O problema fundamental que tinha Galiza com o bipartito era, segundo parece, que falava muito em galego, e, por isso, já o PP se encarregou de pôr as cousas no seu sítio. Tenhamos em conta, por outra parte, que a guerra civil se desencadeou para lutar, em primeiro lugar, contra o demonizado separatismo, do qual são expoente os milhares de patriotas mortos, e, em segundo lugar, contra o comunismo.

Em terceiro lugar, o status histórico normal de Espanha foi a ditadura e não a democracia, inclusive a democracia deturpada como é a atual, na que nem sequer funciona a divisão de poderes. Somente foi esporadicamente democrática, e inclusive a qualidade da democracia atual é totalmente insatisfatória Os trinta e oito anos do regime da Restauração não se podem considerar como democráticos, nem muito menos os seis anos da ditaduras de Primo de Rivera e o quarenta do regime franquista. Hoje mesmo, quem se atreve a afirmar que é democrático que a cidadania dum povo não pode ser consultada sobre o seu futuro?
  
Diz o Sr. Ovejero que “Nenhum Estado, razoavelmente democrático, rouba”. O Estado é uma entidade abstrata e, como tal, não rouba, mas si que podem roubar os que o controlam. Creio que estas manifestações deveriam ser evitadas polo menos num momento em que a cidadania constata estupefata como foram expropriados os recursos públicos por parte dos administradores do estado. Não é roubo também perdoar dinheiro somas quantiosas de dinheiro ás elétricas, que após se vem obrigados a pagar os cidadãos para suster os serviços publicos? Quiçá no dia de hoje a corrupção política no Estado espanhol é das maiores de Europa, sem que existam disposições legais eficazes para combatê-la, porque não se quer fazê-lo. Os administradores do Estado de fato também favorecem a umas pessoas determinadas e drenam os recursos doutras, como se põe de manifesto polas crescentes desigualdades entre as oligarquias e a cidadania, e não vale como justificação que são leis democráticas. Não é suficiente que uma lei seja controlada por um governo que se diz democrático, porque ainda os governos mais democráticos podem impor leis que atentam contra os direitos dos cidadãos e dos povos. Estes últimos não só não são respeitados no Estado espanhol senão que são duramente combatidos e anatematizados por parte dos dirigentes estatais, que os únicos direitos dos povos que reconhecem são os do povo espanhol, único ao que se lhe reconhece o direito de soberania e de decisão.

Aliás, o nacionalismo espanhol não se pode dizer que não seja identitário, porque uma das suas medidas políticas estratégicas está cifrada na difusão da língua e cultura espanhola polo mundo, a través do Cervantes. Nem tão-pouco se pode afirmar que os nacionalismos vasco, catalão e galego sejam somente identitários, porque defendem a integração de todos os cidadãos que vivem nas suas comunidades e não somente os dos que falam as suas respectivas línguas. Não são menos democráticos que o espanhol, senão ao revês, nem se pode afirmar que os nacionalismos que ele denomina identitários são reacionários, porque a existência de partidos ERC, Bildu, BNG, são prova do contrário. 

O conceito de «unidade de destino», é produto da concepção voluntarista da nação que tem a sua origem na Revolução Francesa que, ao não dispor de elementos identitários, o francês somente era falado polo quarenta por cento da população, criou uma noção que lhe permitisse submeter a povos diversos em cultura, língua, etc. Renan aceitou esta noção de nação sob a forma de “plebiscito quotidiano”, e utilizou-a para defender a incorporação de Alsácia e Lorena, de fala alemã, a França. Esta teoria será aceitada por Ortega e Gasset que afirma, em Espanha invertebrada, que “no secreto inefável dos corações faz-se todos os dias um fatal sufrágio que decide se uma nação pode de verdade seguir sendo-o”, expressão que se reduz a pura mística sem sentido mas que será aproveitada por ele para afirmar a espanholidade de Catalunya, Euskadi e Galiza. Como «unidade de destino no universal» foi proposta por Otto Bauer, e incorporada por Prat de la Riba e mais tarde por José Ortega e Gasset, sob a forma de «destino histórico», «destino comum», «comunidade de destino», de quem a tomou José António Primo de Rivera, que se servia dela para negar os direitos do povo catalão e o seu anseio de submetê-lo á autoridade espanhola, porque não aceitava, segundo ele, essa unidade de destino no universal. Em Prat de la Riba não tinha estas conotações imperialistas. Por tanto, cada povo assume a concepção que lhe parece mais ajeitada para a defensa dos seus interesses. Os ideólogos espanhóis defendem o que eles chamam uma noção integradora da nação porque isso lhe permite justificar o seu domínio sobre as nações periféricas. Os catalães insistem muito na vontade dos cidadãos enquanto que Risco e Castelao punham o acento principalmente nos caracteres nacionalitários objetivos: língua, cultura, ..., se bem também tiveram presente o aspeto voluntarista, fondamente democrático no rianjeiro.




 




24 sept 2015

Mistificação de Anova, Podemos IU




Iniciativa pola União
A linguagem política pretende muitas vezes, em vez de transmitir uma mensagem diáfana e clara, encobri-la, agachá-la e disfarçá-la para fazê-la mais recetível polo destinatário, com uns efeitos que podem ser mui perturbadores e terminar semeando a desilusão na cidadania, e inclusive representar uma traição aos que se diz servir. Os políticos aproveitam-se freqüentemente da credulidade e pouca capacidade de defesa duma cidadania muitas vezes desinformada ou insuficientemente informada para meter-lhe gato por lebre, porque o caso é ganhar as eleições e não os métodos utilizados para conseguir este fim. Isto é o que se quer fazer com o povo galego, muito menos lúcido politicamente que o catalão ou o vasco, o qual explica, em grande parte, o nosso devir histórico-político, até o momento desafortunado. Em Catalunya creio observar uma grande dissintonia de Pablo Iglesias com o povo catalão e os seus resultados parece que não serão boiantes, e careceria de sentido que algum partido político nacionalista catalão se entrega-se atado de pés e mãos a um partido nacionalista espanhol em aras dum resultado eleitoral imediato. Igualmente, algo parecido podemos dizer dos partidos nacionalistas vascos.



Anova e Esquerda unida já têm experiência provada na manipulação da cidadania com o invento de AGE, no qual Anova, carente da mais mínima infra-estrutura e convertida num puro fruto mediático, quiçá com o único objetivo de desacreditar o BNG, se converteu em sacristão de IU, também, agora, numa fase de clara decadência política e eleitoral e e com um grande divisionismo interno. O seu êxito eleitoral foi sobressalente mas a prática política da Alternativa foi o maior fracasso de nenhuma formação política desde que se criou o sistema autonômico. Não podiam comparecer com esta carta de apresentação a umas novas eleições. Por outra parte, Podemos está a perder influência a olhos vista no eleitorado, polos seus câmbios de mensagem e pola sua chularia madrilenha, que parece que vai comer o mundo e que reduz os demais ao papel de reserva indígena incapaz de captar o devir histórico. Eles são os que sabem e os que devem marcar o passo e os demais corpo a terra. A deriva, por tanto, destas formações necessitava um salva-vidas, e a solução creram encontrá-la num matrimônio de conveniência, no que a prejudicada é a noiva denominada Galiza. Operaram com o BNG igual que fizeram com Compromisso por Galícia, de cara ás autonômicas, á que marearam até a última hora para após eleger a confluência com os social-comunistas espanhóis.



Por outra parte, o nacionalismo de Anova é mais bem um reclamo eleitoral que uma convicção firme, como se prova claramente pola purga de Cerna, o setor nacionalista que comvivia no seu seio. O seu selo é hoje o social-ecologismo desenraizado da identidade nacional galega real e concreta, que deveria ser o norte da sua atuação, o qual explica que optassem polo pólo esquerdista e postergassem o pólo nacionalista, pretextando que, neste momento de crise, é prioritário, como se fossem excludentes e como se um grupo parlamentar autenticamente nacionalista de esquerdas fosse um obstáculo para coligar-se com uma alternativa de esquerdas a nível do Estado. Parece que em Anova não sabem assobiar e montar a cabalo ao mesmo tempo. Esquecem que a esquerda consolidada no poder, por muito que pregasse e incluísse o direito de autodeterminação na constituição, sempre o invalidou na prática. 



No dia de ontem, anunciaram as três formações: Podemos, Anova e IU, um acordo de princípio, elaborado e aprovado polas cúpulas partidárias á margem de toda participação da cidadania, á que diziam dar a prioridade e ser motores principais, convertendo a expressão «unidade popular» na maior fraude dos últimos tempos. Em realidade, a unidade popular não existiu mais que como um reclamo eleitoral na mente dalguns para pescar incautos. Nesse acordo, surpreendentemente, deixam na sombra a principal exigência do BNG, que se trate de formar um grupo parlamentar próprio submetido aos ditados da do povo galego e não do povo espanhol. Isto indica que a confluência entre as duas plataformas, O Encontro e a Iniciativa, fica invalidada na prática, porque os partidos já decidiram praticamente todo, e o que fizeram os do Encontro afirmando que era necessário tratar o câmbio de metodologia, etc. Não era mais que uma tática para ganhar tempo.



Agora, do que se trata é de mistificar a linguagem para apresentá-la como assumível polo eleitorado, e, para isto, um dos vetores importantes é conservar o pedigree nacionalista de Anova, por puro marketing eleitoral, e de ai que a primeira mensagem ao eleitorado se baseie na legitimação da sua atuação apelando nada menos que a Castelao, esquecendo que Castelao nunca priorizou as formações espanholistas sobre as galegas e tronava contra Risco pola sua teima em dividir o nacionalismo galego. A primeira mensagem que lançam consiste em afirmar que só participarão numa confluência “com quem aceite que Galiza é sujeito político soberano”, o qual de cara á galeria soa mui bonito e, na prática, não obriga a nada, ao igual que o que acrescentam a seguir, que “só renderá contas ao povo galego”, compromisso que podem assumir perfeitamente o PPG ou o PSdG. O que fica já claro é que renunciam a que o povo galego tenha um grupo parlamentar próprio, seguindo o guião traçado polo amo madrilenho, que diz que já decidiram em Vista Alegre que todos têm que ir sob o pára-chuvas de Podemos, como se isso fosse já um dogma de fé imutável ainda que existisse vontade política de fazê-lo. Aos catalães não foram capazes de fazer-lhe tragar tal indignidade, mas sim á formação do velho Beiras, que tolea por ir a Madrid, ainda que seja só sob as ordens do de Valhecas, e sem conseguir para Galiza grupo parlamentar próprio. A informação jornalística não deixa lugar a dúvidas: “Tanto Anova como Podemos coincidem em que esse não deve ser o objetivo fundamental ante um regime «que não vale», ainda que também insistem em que se articularão todos os mecanismos para fazê-lo possível, algo que condicionam a uma maioria ruturista na Câmara e na Mesa do Congresso. «O grupo próprio sem uma quebra do regime não vale, é preciso um câmbio importante da correlação de forças". Por tanto, Galiza deve ser sujeito político soberano mas sem os instrumentos para poder defender essa soberania, quer dizer, políticas próprias, salvo que o Grande Chefe lhe conceda uns minutinhos quando o que vão defender passou o seu filtro. Por outra parte, o PNV, Amaiur, ERC, CDC que tomem nota do invento. O que fizeram até o momento foi perder o tempo, e no futuro deveriam já acovilhar-se sob um pára-chuvas espanholista, e justificá-lo com o recurso a Sabino Arana ou a Prat de la Riba. Eis, a formação que se diz nacionalista galega, Anova, convertida num mero apêndice de Podemos, ad majorem gloriam de Pablo Iglesias. Uma autêntica mofa e uma estafa. 



A atuação do BNG até o momento foi mui inteligente, porque amostrou muita flexibilidade e permitiu derivar a responsabilidade do fracasso das plataformas na falta de vontade política por parte dos social-ecologistas galegos, mas creio que devem já desistir de confluir com quem não tem vontade política para fazê-lo. Do que se trata é de saber comunicar-lhe a realidade á cidadania galega.
   

20 ago 2015

Do nacionalismo ao nacional-sucursalismo

Beira com Errejón


Devemos distinguir sempre em política o modelo de estado e o modelo de sociedade. O modelo de estado tem como antítese principal nos Estados integrados por nações não reconhecidas como tales e sem estado: nacionalismo imperante - nacionalismo dominado; no caso espanhol, nacionalismo espanhol-nacionalismos periféricos. Esta foi a história do Estado espanhol, e sempre houve uma tensão entre nacionalismo espanhol e nacionalismo periférico, criando a dicotomia entre espanholismo, por uma parte, e catalanismo, galeguismo e abertzalismo, pola outra. O intelectuais orgânicos espanhóis não gostam de reconhecer-se como espanholistas e adotam subterfúgios como constitucionalismo, como se os nacionalistas das nações negadas não fossem constitucionalistas. O modelo de sociedade, tem que lidar com a antítese entre as classes sociais, normalmente entre as oligarquias e as classes média e baixa; entres os que possuem o dinheiro e os que tem meios precários. Estes dous modelos são distintos e a reforma dum não tem por que colidir com a do outro, ainda que estão inter-relacionados porque um modelo de estado pode impedir que os governantes duma comunidade adotem as medidas oportunas para efetivar  um determinado modelo de sociedade. Por exemplo, a tarifa elétrica única para toda Espanha, imposta polo Governo de Espanha, impede que Galiza tome medidas para abaratar a tarifa elétrica ás empresas que queiram estabelecer-se aqui, aproveitando assim as suas vantagens comparativas; que Galiza não poda tomar medidas para que as empresas que tenham aqui os seus centros de produção tributem na nossa comunidade, favorece a deslocalização fiscal em benefício de Madrid; a Galiza não pode tomar medidas para salvar o nosso setor leiteiro e já vemos o caso que lhe faz Espanha aos ganadeiros;  etc., etc.

Quando se constituiu a coligação eleitoral AGE, eu fiquei sumamente surpreendido de que um partido integrado em Anova, como é a Frente Popular Galega, que sempre se proclamou independentista, e que parecia o mais nacionalista de todos, o primeiro que fez foi aderir aos posicionamentos dum partido espanholista como é Esquerda Unida (IU), e declarar que, neste momento histórico ha que priorizar o modelo de sociedade sobre o modelo de estado, e deixar a questão da reivindicação de mais poder para Galiza para outro momento, porque agora o essencial é o giro á esquerda, e estabelecer um modelo de sociedade que beneficie mas as classes populares. Mas, supondo que se lograsse para o Estado espanhol um governo de esquerdas, o problema de que Galiza poda tomar medidas para favorecer a essas classes sociais fica sem resolver, pois é evidente que se nos sacam as vantagens comparativas e não podemos impulsar aqui eficazmente a criação de empresas, não podemos favorecer aos nossos trabalhadores e as nossos moços e moças. Agravaria esta alternativa o fato de que seria um governo apoiado polos próprios danificados.

Foi o primeiro passo duma subordinação total de Anova a Izquierda Unida, que seria seguida pola integração total da sua euro-parlamentária Lídia Senra no grupo de Izquierda Unida no Parlamento Europeu. A sua inclusão na candidatura de Esquerda Unida foi vendida polo líder de Anova, José Manuel Beiras Torrado, como uma oportunidade para relacionar-se com as esquerdas europeias, e pode ser que o fizessem, mas os benefícios para Galiza foram nulos. O que passou com o grupo de AGE foi surrealista, e os embrulhos entre os membros que conformavam o grupo foram constantes, terminando Anova com dous representantes dos nove que obteve AGE. Mas não parou ai a cousa senão que esses embrulhos não foram comparáveis com os que tiveram lugar em Anova, que terminou cindida pola metade e com os membros mais nacionalistas fora da organização. Mas agora, os mesmos que provocaram o divisionismo, apelando ás várias almas incompatíveis dentro da organização, não tem reparo em apresentar-se ante o eleitorado como as pessoas idôneas para impulsar «candidaturas plurais», «marés galegas», «candidaturas de unidade popular», etc. 

Apelar á candidaturas de unidade popular, onde a cidadania seja a principal impulsora do processo e os partidos, os motores auxiliares, parece-me que é uma burla e um insulto a esta mesma cidadania. Estes dias estamos presenciando uma atitude pedinchona e os abraços do Beiras com os representantes dos partidos espanholistas de esquerda para que acedam a pautar com ele uma candidatura de unidade popular, e estava sumamente preocupado porque o Pablo Iglesias lhe propunha uma saída que seria uma humilhação pública do líder de Anova ante as suas hostes reduzindo-o a sacristão do grande sacerdote madrilenho, convertido no galo do poleiro, impondo a sua marca Podemos como nome da candidatura, seguido doutra cousa, porque os galegos devemos ficar reduzidos a «outra cousa». O Beiras, insatisfeito, pugnou embravecidamente para que na candidatura figurasse «Marés-Podemos», em vez de «Podemos-Marés», permitindo que o seu grande Chefe madrilenho, dirija o processo e as políticas. Parece que se chegou a um acordo e o Errejón transigiu em que figurasse o nome da candidatura como «Marés-Podemos», e o líder galego quis celebrar este êxito abraçando a Errejón. Mas, parece que se torce a cousa e, desde Madrid, acabam de retificar essa grande concessão do lugar-tenente de Iglesias. Esteve mais de moda do que está esta Organização, mas ha certos aspetos que não deixam de ser significativos, como o fato de ter laminado o poder territorial dos seus líderes, convertidos em meros comparsas das decisões do Grande Chefe; também o fato de que parece que está disposto a ressuscitar os deputados «cuneiros», pois todos eles são elegidos polo poder central sem intervenção das estruturas territoriais. Nas listagens preparadas em Madrid, deixam livres alguns ocos e a ocupá-los é ao máximo a que podem optar as formações coligadas é a encher estes ocos que deixam livres os hierarcas madrilenhos, e, para justificar a sua rigidez nas interlocuções, pretextam que é uma decisão soberana da Assembléia Cidadã Estatal, composta por todos os inscritos em Podemos, mas estas decisões existem porque os seus dirigentes decidiram que existissem.

Por outra parte, o alcaide de Ferrol põe como condição ao BNG para integrar-se na candidatura galega de unidade popular, que deve reconduzir o soberanismo, ou seja, que deve mudar os seus postulados políticos e apresentar-se, como eles, dócil ao sistema de distribuição do poder territorial estabelecido. A razão que alega é que este debate está sobre-passado. Parece que não se dá conta do que acontece em Catalunya, na Escócia, ... Isto implica, nada menos, que um partido, para integrar-se deve renunciar a defender o direito de autodeterminação dos povos, pois a isso se reduz o soberanismo, porque é um direito «sobrepassado». A esta petição uniu-se o alcaide da Corunha para exigir-lhe ao BNG que aceite o «mínimo comum denominador», no que, evidentemente, não entraria este direito fundamental. Estes representantes políticos não se dão conta de que, além do que suceda com o BNG, estão ferindo a muitos galegos e galegas que defendem este direito para o seu país. Não deixa de ser chocante que lhe exijam ao BNG que renuncie á sua posição soberanista, quando têm no seu seio um partido independentista, pois o independentismo é mais radical que o soberanismo, e os estados independentes mantêm menos vínculos entre si que os Estados soberanos. Além disso, resulta chocante que estes dous alcaides que participaram na formação das Marés, e com as que tiveram um notável êxito polo que merecem todos os parabéns, e não foram capazes de dar-lhe uma estrutura coesionada, um mínimo comum denominador, senão que cada uma funciona dum modo autárquico e só lhe dá certa unidade os partidos que estavam detrás, fundamentalmente EU, Anova e Podemos, agora lhe exijam ao BNG que aceite esse mínimo comum denominador. Não contribui a esse mínimo comum denominador a Frente Popular Galega?   

Por conseguinte, estes dirigentes já têm decidido todo, extremo que não critico, e agora só lhe falta continuar a farsa da «unidade popular» dando-lhe a sensação á cidadania que é ela quem decide, porque a cidadania é a que sabe mentes que eles devem ser segundões no processo. Logo, se eles não são capazes de dirigir o processo,  por que não demitem? Mas se é essa senhora a que sabe todo, por que não dirige e estabelece os pactos, di que é o que ha que acordar e também nos representa? Por outra parte, é pertinente lembrar que o adail agora da unidade popular é um neo-converso pois foi um dos gracejava burlonamente contra as primárias do PSOE nos seus primeiros tempos. O que tem que haver é porosidade nas organizações políticas para dar entrada a novos aspirantes a dirigir a cousa pública, mas a cidadania o que quer principalmente é ter políticos competentes, estar bem governada, que não haja corrupção, que haja igualdade de oportunidades, ...      
 
Um princípio que devemos ter presente é que na vida ninguém dá nada por nada, senão que se dá algo a câmbio de algo. Os partidos políticos espanhóis, salvo o PP, reconhecem que o problema catalão não se vai solucionar com imprecações aos santos, incluído a Apóstolo, senão que ha que dar-lhe contrapartidas aos catalães para que aceitem um modus vivendi levadoiro dentro do Estado espanhol. Em Euskadi o problema é menos premente a esta altura, mas é provável que ressuscite em qualquer momento. Por tanto, urge proceder a uma reordenação do problema territorial do Estado, reconhecendo os direitos baseados na diferença, e deveria terminar-se duma vez a cantilena de todos iguais em direitos: os que têm língua própria com os que não a têm; os que têm problemas demográficos com os que não os tem; os que têm muitas dispersão da população com quem não a têm, que tem problemas de mobilidade com quem não os tem, ...
 
Na Galiza existe uma tendência mui majoritária a levar uma política «sensata», uma defesa «sensata»da língua, um galeguismo «cordial», «harmônico». Somos os colonizados perfeitos, pois adotamos os esquemas do dominador. A ORGA (Organização Republicana Galega Autônoma, foi criada o mês de outubro de 1929, com os objetivos de lutar pola república e a autonomia, promovida polo grupo de Cassino da Corunha no que destacava Casares Quiroga. Esta organização autonomista decide promover uma reunião clandestina em Lestrove, celebrada o 16/03/1930, á que assistem, além da ORGA, os partidos Radical, Republicano Socialista, uma delegação da FUE galega e algum integrante da CNT, na que se assinou o Pacto de Lestrove.  Era uma conjunção de forças republicanas e socialistas, e decidem criar a FRGA (Federação Republicana Galega Autônoma) que tinha como objetivos lutar pola democracia republicana na Espanha, manter a organização autônoma na Galiza independente dos partidos republicanos espanhóis  e pola autonomia da Galiza dentro do regime democrático espanhol. Este partido estava ao serviço dos interesses de Casares Quiroga e terminou fusionando-se com Ação Republicana e o Partido Radical Independente para dar origem a Izquierda Unida, que teria a Azanha como líder máximo. Como vemos, o que hoje pede tanto AGE como as Marés nem sequer ultrapassa ao estabelecido no citado Pacto. O que pretendem é cambiar o regime do 78, ou seja, a reformar a Constituição impulsando uma forma de Estado republicana, e estabelecer um regime federal na Espanha. Mas com isto do regime federal ha que ter muito cuidado, porque não existe um federalismo senão muitos federalismos, e alguma realização concreta do federalismo pode ser pior que o autonomismo. O partido mais obsessivamente espanholista na Espanha é UPyD, e não tem empacho em defender o federalismo cooperativo como solução para o problema espanhol que inclusive centralizaria as competências em educação e sanidade. Por tanto, se se trata de caminhar cara a um federalismo á suíça ou como o que propunha o Castelao, com direito ao divórcio reconhecido, sim, mas se se trata de acompanhar a UPyD ou a outros partidos espanholistas, não.

Os dias 5 e 6 de dezembro de 1931 aprova-se na Assembléia de Pontevedra, á que concorrem 32 grupos, o PG (Partido Galeguista) que define a Galiza como povo autônomo com direito de autodeterminação de Galiza dentro da forma de governo republicana, a integração em Galiza das terras colindantes de fala galega, democracia direta, referendo, galeguização do ensino, etc. Mercê ao labor incansável de Castelao e Bóveda lograram que se aprovasse em referendo popular o Estatuto de Autonomia de 1936, mas que, por obstaculização das forças espanholistas republicanas, nunca foi aprovado polas Cortes Espanholas. Se Galiza foi declarada como nacionalidade histórica na CE, isto deve-se ao labor incansável de Castelao.

Hoje Anova está recorrendo o caminho da II República mas em sentido inverso. Em vez da ORGA ao Partido Galeguista, querem desfazer o Partido Galeguista de hoje, que são os partidos nacionalistas, e que caminhemos para a ORGA, um autonomismo potável para o sistema de dominação. Em vez de lutar por que se reconheçam os direitos de Galiza como nação de seu, pretendem convertê-la numa sucursal da Espanha.

14 jun 2015

Finit comoedia, incipit tragoedia!


Ontem passeavam dous moços pola cidade de Santiago, e um deles começou a cantar: “
Os pitinhos dizem
pio, pio pio,                                                                


quando têm fame
Quando têm frio

O segundo respondeu:
A galinha busca
o milho e o trigo
dá-lhes a comida
e busca-lhes abrigo

Então o primeiro emitiu um sonoro aturuxo: Beir..................


Temos novos governos municipais, recebidos com uma notória alegria e sensação de libertação dum enorme pesadelo, por abrir a porta á esperança duma nova política, que termine duma vez com uma política sumamente lesiva para as maiorias sociais que pretendem governar, e alienígena para com a nossa maltratada nação. Saudamos como positivas algumas medidas simbólicas, como a negação de participar na maridagem político-religiosa das oferendas, nas que os políticos mais corruptos e criminais expressam os seus desejos de que a festa continue em benefício próprio. Também foi positiva a tomada de posição franca e manifesta de Martinho Noriega em prol da república, que, se bem de por si não soluciona as cousas, si é um elemento que contribui á igualdade social entre as pessoas.. 

Este êxito foi possível porque as Marés foram capazes de canalizar o enorme mal-estar cidadão contra as políticas corruptas e austericidas, que muitos vimos criticando desde faz muitos anos. Estas Marés estão compostas de participantes heterogêneos nos que se mistura o modelo de estado, pois uns são nacionalistas galegos e outros nacionalistas espanhóis, e compartem grosso modo o modelo de sociedade, pois todos os que as apoiaram -EU, Anova, Podemos-, eram de esquerdas. Não sabemos a quem corresponde exatamente patrimonializar este êxito, e só podemos destacar alguns fatos.

EU e Anova, componentes de AGE, estavam praticamente despejados polos seus contínuos conflitos internos e pola sua deficiente labor de organização, o seu escasso protagonismo social e o seu histrionismo parlamentar. Souberam, com todo, unindo-se nas Marés e incorporando novos elementos sociais, e com o impulso reformador de Podemos, apresentar-se com uma nova fácies e encandilar a muita gente.

Agora todo indica que esta mistura toca, em grande parte, ao seu fim, para desgosto dos próprios participantes e quiçá de muitos cidadãos, mas estava cantado. Tanto IU como Podemos são partidos estatais e querem governar um estado o mais homogêneo possível para evitar dissonâncias na mensagem e nas políticas. O mais que podem fazer, em certo momento histórico, é buscar a companhia de elementos «estranhos» como compañheiros de viagem provisórios e sem assumir compromissos reais efetivos. Tenhamos presente que aceitar sobre o papel o direito de autodeterminação pode ter o mesmo resultado que incluir na CE que todos temos direito ao trabalho e á vivenda. É uma pura ingenuidade crer que Podemos, PSOE ou PP vão solucionar os problemas galegos, se os galegos não são capazes exercer uma reivindicação contundente que os obrigue a isto. Não se deve a nenhuma maldade destes partidos senão á dinâmica própria partidária. São partidos estatais e os seus votantes são principalmente espanholistas e contrários ás aspirações nacionalistas, e as suas políticas pretendem sobre todo contentar a este eleitorado, e temperar gaitas com os restantes.

Anova é um partido, em princípio, nacionalista galego, que tem como objetivo governar este país sem intromissões alheias que coarctem a aplicação de políticas em benefício da cidadania galega. Quando um partido pretende que o seu competidor por um espaço político lhe solucione os seus problemas, isso indica que algo não funciona na sua estratégia política.  É querer desempenhar o rol de pitinhos da canção “Os pitinhos dizem”, pretendendo que a mai galinha venha na sua ajuda. Podia ser mui bem a Beiras a quem remedasse um dos moços aludidos.

Neste momento, todo indica que Podemos tem claramente fixado o seu campo: irá com as suas siglas próprias, sem admitir sopa de siglas, ainda que quiçá permitindo a inclusão de alguma outra que as acompanhe. Como diz Monedero, seria: Podemos-o que seja, mas na que Podemos seria a nave nutriz, que canaliza o movimento. “Ficaria claro que Podemos é o impulsor, o catalisador, quem organizaria as primárias, quem buscaria a ocasião para encontrar-nos”, mas também se representaria o câmbio plural pola união doutras formações. E acrescenta Monedero que isto deve ser assim porque Pablo Iglesias “é como a nave que vai abrindo o sulco no gelo que permite que as demais acompanhem e que unifica depois o trabalho desde o Parlamento”. Ou seja, o câmbio representa-se pola adesão de outros que desempenhariam o rol estético de comparsas, de sacristães, «ad majorem gloriam» de Podemos.

A situação na que se encontra Anova não é nada fácil, e, em grande parte produzida pola sua miopia política, por ter bendito e ressuscitado á espanholista EU, neste momento em caída livre, em vez de ter-se unido como os nacionalistas de Compromisso por Galiza, do BNG ou de ambos, aproveitando, em benefício de Galiza, o tirão eleitoral de Beiras, em vez de fazê-lo em benefício de Espanha. Primaram os interesses imediatos de obtenção de resultados eleitorais e careceu-se duma mínima estratégia a longo prazo. O prejuízo que lhe causou ao nacionalismo galego, segundo o sentir de muitos cidadãos, foi enorme. 

A situação também é mui delicada para IU, que nas eleições européias lhe deu cabaças a Podemos e agora vê como o processo se repete em sentido inverso, com o agravante de que Podemos se apropriou do seu eleitorado e da sua política «revolucionária» e não está interessado em confluir com um partido sumido na balbúrdia constante e que o arreda da centralidade política, e agora fica a vê-las vir. Não pode fazer frente ao embate de Podemos nem aceitar o seu convite para que se una numa atitude de submissão vergonhosa, nem tão-pouco é capaz de oferecer á sua noiva Anova futuro algum promissório, nem levantar cabeça ante o seu eleitorado tradicional.

A solução viável que lhes queda aos membros de AGE é intentar capitalizar o capital das Marés em benefício próprio e emancipá-lo de Podemos, e confluir com os partidos nacionalistas numa grande maré galega, nada fácil para EU, porque teriam que aceitar que o grupo galego no Congresso mantivesse a obediência a partidos galegos em vez de fazê-lo a IU. Tem o inconveniente que o êxito não está garantido, porque todo indica que as próximas eleições se vão polarizar entre a direita do PP e a esquerda de Podemos-PSOE, e, isto, numa situação de «cabreo» como o atual, vai concitar o apoio de muitos cidadãos que, nas municipais, votaram as Marés e em parte também, em menor medida, dos que votaram os partidos nacionalistas. Quiçá a citada Maré galega seria a melhor solução para Galiza e para os mesmos partidos.

O BNG manteve-se sempre fiel a Galiza, susteve uma luta polos excluídos, como preferentistas, emigrantes, ... digno de todo encômio, e não se pode suster que esteja significativamente luxado pola corrupção. Creio, com todo, que deveria fazer um esforço para procurar sintonizar e empatizar melhor com a cidadania, e abrir-se mais á cidadania com autênticas primárias abertas a todos os militantes e simpatizantes, para converter-se no instrumento real do câmbio da esquerda deste país. Essa maré galega podia ser também a solução para não ver-se excluído politicamente do movimento de câmbio, e a sua exigência que o grupo mantenha a obediência galega, parece lógica, totalmente razoável e o mínimo exigível para seguir mantendo esa lealdade para com a Nossa Terra.

2 may 2015

Os bispos pedem perdão


O 27/04/2015 recolhem os meios de comunicação a notícia de que os bispos pedem perdão por: “os momentos em que não soubemos responder com prontidão aos lamentos dos mais necessitados”.

Toda petição de perdão, se é sincera, deve cumprir umas determinadas condições, polo menos,  tão exigentes como as que o organismo afetado lhe pede aos demais. Eu, como ex-fiel cumpridor destas práticas, lembro mui bem quais eram:

1ª.- Exame de consciência
2ª.- Contrição de coração
3ª.- Propósito da emenda
4ª.- Confissão de boca
5ª.- Satisfação de obra

Quando uma pessoa ou entidade pede perdão faz um reconhecimento valente e meritório, mas quando se ve obrigada a fazê-lo mui reiteradamente por fatos passados já indica que algo mui grave tem passado na sua história. A Igreja teve que pedir perdão pola perseguição desatada contra legiões de científicos e filósofos de todas as disciplinas, polos seus escândalos de corrupção financeira, polos abusos de pederastia e pedofilia, etc., etc., e ainda lhe faltam inúmeros outros. Quando uma instituição mantém uma política discordante com a legislação civil sobre direitos humanos durante muito tempo, já se vê que algo raro está passando. Isto é o que acontece com a sua defesa da subordinação da mulher ante o home, com a sua fobia contra os homossexuais, contra as uniões de fato, relações sexuais prematrimoniais, proibição dos métodos anticonceptivos, condena do divórcio, aborto, etc., etc. Isto já nos faz ver que a Igreja leva um caminho oposto ao da maioria social, e que de manter a sociedade a defesa dos direitos humanos, se verá obrigada a pedir de novo perdão muitas vezes. Devemos sentar claro um princípio importante: «Embora ser meritório ser valente em pedir perdão, o realmente valente e desejável é não ter que pedi-lo, e por tanto, mostrar um comportamento correto em todo momento». A mim diz-me mui pouco esses atos de petição de perdão ritual e de golpes no peito que se fazem em todas as celebrações eucarísticas. Não são sinceras, não são sentidas. Este ritualismo farisaico cumpria eliminá-lo de vez, e fazer o que nos diz o evangelho: quando ores reclui-te o teu quarto e ali dirige-te a Deus.   

1ª.- Exame de consciência

O exame de consciência deve fazer-se em tempo e ser reto e não deformado, porque em caso contrário sempre cabem suspicácias de se se obra impulsado e não ex motu próprio e apenado realmente polos pecados ou crimes cometidos. A este respeito surpreende que a Igreja se dê conta do seu silêncio cúmplice e conivência com os exploradores depois de que muitos outros o tenhamos denunciado, polo que a mim respeita ante os meus alunos e alunas, desde faz décadas. Tenho dito a todo aquele que quiser ou tiver que escutar-me que a Igreja se manteve muda e surda perante o sofrimento dos mais desfavorecidos e que não tem nada que dizer-lhe aos que sofrem as injustiças dum sistema socioeconômico extrativo. Entretanto ela limitou-se a ser um lobby ou grupo de pressão nos assuntos relacionados como o sexo. A Igreja não só não denunciou estas injustiças senão que participou, a título lucrativo, no sistema extrativo imposto polas elites políticas e oligárquicas que nos governam, e que tiveram bom tino de manter as elites religiosas bem caladinhas para que lhe deixassem espoliar e inclusive enviar para o céu aos seus protagonistas. Formidável! magnífico! Isto explica que os dous partidos que permitiram o espólio do país: PP e PSOE, mantivessem os privilégios eclesiásticos. Com todo, cumpre felicitá-la porque a sua dilação no exame supõe uma avanço muito importante sobre os trezentos anos que lhe levou o exame de consciência sobre Galileu ou os cento e algo que tardou em reabilitar a Darwin.

Creio que o exame de consciência destas elites religiosas desvirtua a realidade porque não reconhece a gravidade do problema ao manifestar que não “souberam responder com prontidão aos lamentos dos mais necessitados”, quando deviam manifestar simplesmente que «não souberam respondera  aos lamentos dos mais necessitados», porque não se trata da maior ou menor prontidão senão de que não se soube responder em absoluto ao grito dos que sofrem as conseqüências duma crise que unicamente favoreceu aos que a provocaram, enquanto que o seu rol foi assistir como expectadores mudos e passivos ante o que estava a passar, e inclusive aproveitar a ocasião para imatricular milhares de imóveis que se edificaram com dinheiro dos cidadãos.

Por tanto, o exame de consciência faz-se dum modo distorcido e extemporâneo, e não dum modo íntegro, como requer o magistério eclesiástico, para os seus fieis, se bem, ha que felicitar as suas manifestações sobre um câmbio de atitude, porque como diz o adágio popular, «mais vale tarde que nunca», sempre, porém, que se reconheça a gravidade dos fatos, que neste caso é problemático que se dê. Porém é a prática a que nos fará ver se realmente se produz esse câmbio ou é uma mera pose.

2 ª.- Contrição de coração

A contrição de coração, enquanto sentimento interior, não se pode medir e somente se pode dizer aquilo do evangelho: ”polos seus frutos conhecê-los-ei” (Mt. 7, 20).

3ª.- Propósito da emenda

O propósito da emenda deve manifestar que realmente um está disposto a cambiar em todo o que se reconhece que se obrou incorretamente, e, por tanto, dificilmente se compadece com a constante reiteração da culpa e com a reiteração da petição de perdão mecanicamente. Quando uma instituição tem uma história de séculos tão manchada como o cristianismo, já pode concluir com todos os requerimentos lógicos que o seu propósito da emenda é pouco mais que uma palavra vácua.

4ª.- Confissão de boca

Que confissão de boca lhe exigimos? Quando uma pessoa quer atuar consoante aos princípios duma moral superior não deve ser guiado pola vingança, por ser uma mostra duma moralidade inferior, e por isso, não lhe exigiremos que o faça, como ela exige, dum modo auricular a uma pessoa individual porque esta confissão auricular é uma prática aberrante e inclusive diria que nem é uma exigência bíblica nem é constitucional. Desejaria provar estas duas afirmações embora tenha que investir um pouco de tempo.

a.- Não é uma exigência bíblica.

Deus é quem perdoa os pecados. Diz ele: “Era eu, eu mesmo quem tinha que limpar a tuas rebeldias por amor de mim e não recordar os teus pecados” (Is. 43,25); “Bendiz a Iavé, alma minha, não olvides os seus muitos benefícios. Ele que todas as tuas culpas perdoa, que cura todas as tuas doenças” (Sal. 103, 2-3). Claro que uma cousa é que Deus perdoe e outra mui distinta é se a intervenção do sacerdote é um requisito obrigatório para que Deus perdoe, e esta via é a que se quer transmitir aos fieis, mas tão-pouco tem apoio nenhum na Escritura.

Ha teólogos dogmáticos que citam textos do Antigo e Novo Testamento para provar a intervenção do sacerdotes. Vejamos alguns. “Se um home se deita maritalmente com uma mulher que é uma serva pertencente a outro, sem que tenha sido resgatada nem liberada, será ele castigado, mas não com a pena de morte, pois ela não era livre. Ele oferecerá um carneiro, o seu sacrifício de reparação para Iavé, á entrada da Tenda do Encontro, será um carneiro de reparação. Com o carneiro de reparação, o sacerdote fará expiação por ele ante Iavé polo pecado que cometeu, e perdoar-se-á o seu pecado” (Lev. 19, 20-22). Qualquer pessoa minimamente sensível moralmente deveria arredar-se de citar este texto porque, á parte de não demonstrar o que se pretende, desacredita totalmente a quem o faz, pois apresenta a Deus como justificador da escravidão, a desigualdade social entre os seres humanos, a diferença entre homes e mulheres e os sacrifícios cruentos de seres vivos. Além disso, também é fútil aduzi-lo porque não demonstra que se tenha confessado nada ao sacerdote, senão que se trata de alguém que foi surpreendido in fraganti e o sacerdote o que faz é oferecer um sacrifício para obter o perdão de Deus, mas sem que ele perdoe nada. Por outra parte, a partir do contido deste texto, já nos vemos obrigados a concluir que, por mais que um texto bíblico diga algo, não por isso temos que constituí-lo em norma da nossa atuação moral, que deve ser sempre os direitos humanos e não textos que respondem totalmente a sensibilidades mui distintas das nossas. No Salmo 51, 2-3, diz-se: Deus “lava-me a fundo da minha culpa, e do meu pecado purifica-me. Pois reconheço o meu delito, o meu pecado está sempre diante de mim”. A confissão faz-se ante Deus e é ele somente quem purifica. O mesmo temos que dizer doutros textos que costumam aduzir-se como: Levítico 4, 27-35, Isaías 43,25,  etc. Em Lev. 4, 27-28 diz-se que “Se um qualquer do povo da terra peca por inadvertência tendo algo proibido polos mandados de Iavé, fazendo-se assim culpável; se se lhe adverte do pecado, apresentará como oferenda polo pecado cometido uma cabra sem defeito”. Porquê não se abstêm os teólogos dogmáticos de citar textos destes? O autor deste texto está demonstrando uma moralidade de caráter infantil, própria dos povos primitivos e dos meninos nas primeiras fases do seu desenvolvimento. Uma ação cometida por inadvertência nunca pode constituir um pecado, crime ou delito de nenhuma classe porque todo pecado pressupõe consciência e vontade livre, e não basta que um desvie objetivamente da norma se não desvia subjetivamente. O destinatário destas oferendas era o deus mas, ao não achar maneira de meter-lhas a deus na boca, os seus beneficiários eram os sacerdotes, que já então, como agora, exigiam o melhor para eles. O quinto mandado da Lei de Deus reza ou rezava: «dar décimos e primícias á Igreja de Deus», ou em palavras mais vulgares: os camponeses devem dar-lhe o melhor ao sacerdote.

Na sociedade israeliana a confissão faz-se somente perante Deus e era considerado um escândalo que alguém, distinto de Deus, ousasse atribuir-se a potestade de perdoar os pecados (Mc. 2, 7). Jesus atribuiu-se este poder e por isso, entrou em conflito com a sociedade hebréia do seu tempo. Em Lc. 7, 48, quando Jesus lhe diz á Madalena que os seus pecados lhes são perdoados, não se fez preceder duma confissão prévia senão que se aludia aos comportamentos públicos que toda a gente conhecia. No mesmo evangelho de Mateo (Mt. 9, 1-5l) Jesus diz-lhe a um paralítico: os teus pecados são-te perdoados, mas tão-pouco aqui precede nenhuma confissão dos pecados, senão que Jesus lhe diz isso porque entendia, algo habitual a esta altura, que o doença é fruto do pecado, e todo aquele que sofre muito tem que ter pecado muito, e a cura implica que um fica livre de pecado. Mt. 9, 6: “Pois para que saibais que o Filho do Home tem na terra poder de perdoar os pecados -diz então ao paralítico- : «Levanta-te, toma a tua camilha e vai-te para a tua casa»»”. Além do pecado relacionado com a doença, a Bíblia fala doutra série de pecados sem concretizar e da blasfêmia (Mt. 12, 31-32), de pecados dos irmãos  (Mt. 18, 21), etc.. Todos os pecados serão perdoados, por graves que sejam, salvo o pecado contra o Espírito Santo (Mc. 3, 29). Porquê este pecado não se perdoa. Quem é esse ser denominado Espírito Santo?   Este é um tema que cumpre deixar para outro dia.

Cristo não instituiu nenhuma casta sacerdotal e nem sequer instituiu uma Igreja. O único que se pode dizer é que teve a pretensão de fazê-lo, mas em todo caso não a levou a cabo. “Ti és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. A ti dar-te-ei as chaves do Reino dos céus, e o que ates na terra será atado no céu e o que desates na terra ficará desatado nos céus” (Mt. 16, 18-19). Jesus diz, por tanto, edificarei e isto não equivale a edifiquei nem estou edificando nem que a experiência confirmasse que o fez.

Nos Evangelhos fala-se muitas vezes dos sacerdotes, mas sempre se utiliza esta palavra para designar os sacerdotes judeus, que eram os únicos reconhecidos por Jesus, que ordena aos curados que se apresentem ante ele e façam a oferenda que prescreveu Moisés. Tão-pouco se citam nos Fatos dos Apóstolos mais que sacerdotes hebreus, se bem em 19, 14 fala-se de «sacerdote judeu» e isso poderia indicar que já se começava a distingui-los doutro tipo de sacerdotes. Na Carta aos hebreus, é Jesus quem é denominado sumo sacerdote, e sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, rei de Salém e sacerdote de Deus Altíssimo, que bendisse a Abraão. 

Na I Carta de Pedro, todo cristão é considerado como sacerdote: “Mas vós sois linhagem elegida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, para anunciar os louvores de aquele que vos chamou das trevas á sua admirável luz” (I Ped. 2, 9. Cf. Apocalipse, 1, 6; 5, 10).  Por conseguinte, de acordo com isto todo batizado é sacerdote, fato que é reconhecido polos católicos e protestantes, que também ambos reconhecem que isso não exclui que haja ministros, se bem onde se distinguem ambas confissões é na maneira de conceber estes ministros. Os protestantes afirmam que o sacerdócio é uma função que pode ser desempenhada por qualquer cristão que seja elegido com esta finalidade pola comunidade; enquanto que os católicos dizem que é um sacramento, uma consagração por Deus e os sacramentos somente pode conferi-los as pessoas que tem a faculdade de conferi-los, que neste caso seriam os bispos.

Na Carta de Santiago, 5, 14, aconselha-se: “Confessai,  pois, mutuamente os vossos pecados e orai os uns polos outros, para que sejais curados. A oração fervente do justo tem muito poder”. São os próprios cristãos quem se confessam entre si mutuamente, e sem ter que fazê-lo num confessionário, e, como resultado, obtêm a cura, se bem não se concretiza se é Deus quem a concede ou os próprios cristão. É certo que no Evangelho de João se manifesta que se concede aos seus discípulos a faculdade de perdoar, que implicava a faculdade de curar as doenças, mas nada diz da exigência de acudir a um confessionário. “A quem perdoeis os pecados, ser-lhe-ão perdoados, e a quem lhos retenhais, ser-lhes-ão retidos” (Jo. 20, 21-23). Os apóstolos podiam perdoar mas também o pode fazer Deus diretamente, e os fieis não necessitavam humilhar-se para contar-lhe a um clérigo o que um não quer contar, e que, ademais, pode condicionar negativamente a atuação do sacerdote para com outras pessoas.

Por conseguinte, a confissão auricular não tem apojatura bíblica. Os protestantes não crêm na necessidade de recorrer á confissão auricular nem á absolvição por parte dum ministro ordenado para obter o perdão dos pecados, e, por tanto, excluem esse procedimento, salvo os anglicanos e luteranos que, ainda que aceitam que não é necessário, não o excluem.

Além disso, ainda que houver textos bíblicos claros que falassem e prescrevessem a confissão auricular, isso só indicaria que também nisso se equivocaram, como em enviar aos infernos aos homossexuais, defender a inferioridade da mulher, ordenar a lapidação das mulheres surpreendidas em adultério, defender a escravidão, a castração, etc., etc. Na Bíblia podem-se encontrar textos para um roto e para um descosido, e, por tanto, isso só conduz a fazer o problema insolúvel. Este tema não se soluciona com a apelação a textos bíblicos, muitos deles totalmente inservíveis para constituir a base duma argumentação racional e assumível pola sociedade de hoje, senão a partir dum ideal de humanidade e de divindade: ou seja, explicitando que ideal de home queremos e que divindade queremos, porque ambos são criaturas humanas e mui humanas. 

A partir da Igreja poder que se forjou a partir do século IV, também se foi generalizando a prática de confessar os pecados ao sacerdote. Proíbem-se a recitações públicas dos pecados e fica unicamente a confissão auricular, documentada por primeira vez claramente num documento do papa Leão I, do ano 459: “Constituo que por todos os modos se desterre também aquela iniciativa contrária á regra apostólica, e que faz pouco soube é prática ilícita de alguns. Referimo-nos á penitência que os fieis pedem, que não se recite publicamente uma listagem com o gênero de pecados de cada um, como quer que basta indicar as culpas das consciências somente aos sacerdotes por confissão secreta. Porque se bem parece plenitude laudável de fé a que, por temor de Deus, não teme a vergonha perante os homes; porém, como não todos têm pecados tales que quem pedem penitência não temam publicá-los, ha desterrar-se costume tão reprovável. Basta, com efeito, aquela confissão que se oferece primeiro a Deus e logo ao sacerdote, que é quem ora polos pecados dos penitentes. Porque se não se publica nos ouvidos do povo a consciência de quem se confessa, então si que poderão ser movidos muitos mais a penitência”.

Quais foram as razões de institucionalização desta prática? Para mim a resposta não é outra que  o controle das consciências por parte da Instituição eclesiástica. Numa época em que a gente estava atormentada polo terror de ir ao inferno, o pior que lhe podia passar a um crente era que se lhe denegasse a absolvição por parte do sacerdote. Por outra parte, isso permitia-lhe á Instituição eclesial ter uma fonte de informação mui relevante para o controle da população, para fortalecer o seu poder econômico e para a repressão dos desviantes, especialmente valiosa durante a perseguição dos cátaros e albigenses e durante a vigência da Inquisição. Segundo documentos familiares, confirmados por outros de amigos, durante os séculos XVII e XVIII, os clérigos deviam informar ao bispo onde e como os fieis fizeram testamento, todo indica que com a finalidade de pressionar sobre as consciências e de obter informação sobre os legados á Igreja.

b.- É contrária á Constituição

No artigo 16, 2 estatui-se: “Ninguém poderá ser obrigado a declarar sobre a sua ideologia, religião ou crença”. Por tanto, o que pensa cada um é sagrado e nenhum clérigo pode intrometer-se nisso, e condicionar a absolvição própria a que lhe manifeste aos sacerdotes qual é a minha interpretação dos dogmas, dos anticonceptivos, aborto, divórcio, etc..

O artigo 17, 3, reza: Uma pessoa detida “não pode ser obrigada a declarar”.. O artigo 18, 1, garante o direito á intimidade pessoal, que não se cumpre se tenho que manifestá-la ante um tribunal, como é o confessionário. O artigo 24, 2, garante o direito a não declarar contra si próprio, a não confessar-se culpável e a presunção de inocência.

Por tanto, a confissão somente se poderia justificar se temos uma lei para os cristãos e outra para as demais cidadãos. Faz dous dias, um amigo formado e inteligente, fez a observação de que se imos a um médico temos que declarar os sintomas, dando a entender que aqui deveria ser igual, porque em caso contrário não se pode curar ou perdoar, mas os dous casos não são análogos, porque: a) Um tem direito a não declarar os seus sintomas, ainda que isso lhe suponha enfrentar-se á morte, enquanto que a instituição eclesiástica impõe a obrigação de confessar, podendo recorrer a outras vias; b) Em segundo lugar, a medicina está avalizada por uns resultados contrastáveis, enquanto que a mensagem eclesial não teve um êxito semelhante, e fracassou reiteradamente quando se contrastaram os seus resultados com os da ciência; c) Os sintomas duma doença não são igual que a manifestação da própria ideologia religiosa, filosófica, etc.; d).A prática eclesial está mui pouco fundamentada, como o indica o dissentimento das confissões protestantes, e é ridículo considerar que os fieis destas vão ao inferno por não contar-lhe as aflições aos sacerdotes; e) É a Igreja quem tem que cambiar uma prática injustificável sem ter que submeter a nenhum dilema deste tipo as consciências dos crentes. Em todo caso, um ser humano livre deve ter a suficiente segurança de que nenhum Deus com sentido, qualificado de bom e sábio, o vai castigar porque uma instituição eclesial, tão desencaminhada por outra parte, o ameace com penas e tormentos eternos, só próprios de seres sádicos e tiranos. Um deus assim, simplesmente não seria deus.

Em resumo, a confissão de boca ante o sacerdócio cumpre cambiá-la em confissão de coração ante o próprio Deus.

5ª.- Satisfação de obra.

Segundo parece, a Igreja cambiou-lhe agora o nome polo de penitência, empiorando ainda as cousas. Os clérigos não têm poder de Deus nem dos seres humanos para exonerar de toda responsabilidade a criminais, assassinos, ladrões de coelho branco que exaurem e  tiranizam os povos, etc., simplesmente com o recitado de jaculatórias, por numerosas que estas sejam. Os delitos ha que limpá-los e somente se limpam com a reparação do dano causado. Por tanto, um roubo deve implicar a restituição do roubado. Este modo de proceder que confere perdões fáceis e baratos, destrói qualquer moralidade digna deste nome.

Igualmente a Igreja, se demanda perdão e em consciência está arrependida, tem que restituir os bens dos que se apropriou, entre eles as numerosas imatriculações de bens de domínio público sem dono reconhecido. Deve igualmente renunciar a cobrar dos impostos pagados por todos os cidadãos, incluídos os que são ateus ou doutras religiões, pagar impostos como todo o mundo, e considerar-se parte e não um estado dentro do estado, com privilégios a eito. 

Se procede assim, será generosamente perdoada tanto por Deus como polos cidadãos.