8 sept 2019

Por que Pedro Sánchez nos embarca em novas eleições?


                Vivemos numa sociedade na que os políticos atuam cada vez mais dum jeito maquiavélico, subordinando os princípios éticos aos interesses políticos, utilizando a mentira, a distorção dos factos, a censura encoberta, a fabricação de relatos e a repressão como armas políticas, e a ética como um mero instrumento mais dessa falsificação da realidade. Se um fia do que dizem os políticos não será capaz de formar-se uma ideia clara do que acontece num país.

                Outro traço da sociedade atual é a consolidação do ascenso do capital ao governo, de modo que este se converte cada vez mais num representante da oligarquia que já não se preocupa de controlar o governo por meio dos seus acólitos, dos subornos, movimentos estratégico do capital,... senão que passa a ocupá-lo diretamente sem o menor complexo. A propaganda bastará para convencer a cidadania de que estão a trabalhar no seu interesse. Isto não é difícil porque o poder mediático está também nas suas mãos, que lhe permite lavar-lhe a mente à gente para que adira à “verdade”, e destruir aos que pretendem impor outra “verdade”. O caso mais evidente nos nossos dias é o de Trump.

                Quando se trata de polaridade entre dous atores muitos costumam adotar uma posição eqüidistantes, em base ao princípio “in médio virtus”, “in medio veritas”, (“a virtude está no meio”, “a verdade está no meio”), mas eu não creio neste termo médio nem como indicativo da virtude, nem da verdade. Quem rouba cem euros, não ressarce a sua dívida devolvendo cinquenta, senão que tem que devolver a quantidade total de cem; igualmente, a verdade obtém-se pola fidelidade total da descrição dos feitos com o que realmente acontece ou passou e não por posicionar-se em nenhum termo meio. Quero deixar claro que não são votante nem do PSOE nem de UP.

                Vem esta breve introdução a propósito do que está a passar com a formação de governo por parte de Pedro Sánchez. Todo o mundo pudo ouvir como o Círculo de Empresários se manifestou publicamente sem o menor recato em prol da repetição eleitoral com a finalidade, naturalmente, de procurar um governo mais proclive aos seus interesses, nos que estão em jogo milhões de euros, por considerar que Podemos seria menos dúctil e menos maleável por pretender legislar em prol da maioria social por ter mais independência e não depender o seu financiamento das campanhas eleitorais dos favores do capital financeiro, enquanto que o PSOE, com umas dívidas financeiras importantes e dependendo, portanto, dos bancos, é mais sensível às demandas dos empresários e também muito mais proclives a ocupar cargos nas empresas uma vez que deixam a atividade de governo. A primeira consequência clara de todo isto é que não mandam os que parece que mandam, senão que quem tem o poder real são os que têm o poder econômico, e o poder político é um delegado seu, mas estão disposto a ser muito benévolos com os que se portam bem e não põem a “economia” em perigo, ofertando-lhe postos de trabalho muito bem retribuídos por fazer de lobbies “conseguidores” de contratos e favorecer que os poderes políticos legislem “sensatamente”.

                O PSOE tinha a rota trilhada para formar um governo que pusesse em pratica as políticas que figuram no seu programa, mas está claro que esse programa não se quer cumprir, senão que se utiliza só como reclamo para conseguir votos que depois se põem ao serviço do que mais convenha, não aos seus votantes, senão a outros que são os que realmente mandam. Quando Pedro Sánchez negociou um governo com C’s chegou a um acordo com Rivera em tempo recorde e sem semelhantes subterfúgios como os de agora, e reservou-lhe a Pablo Iglesias o rol de bem-dizer a união entre os dous, para aplicar políticas da direita, que Rivera quantificou que recolhiam um oitenta por cento do seu programa, mesquinho para a cidadania e hostil às aspirações dos partidos independentistas. Naturalmente, UP não picou. Depois das eleições do 28ª, ao negar-se Rivera a uma nova maridagem, que lhe daria a Sánchez a maioria absoluta, a única alternativa era um pacto com Podemos, mas, como não quer desairar ao poder econômico nem assumir as críticas do unionismo mais fechado por governar com os independentistas,contra os que previamente lançaram uma campanha de propaganda, injúrias e insultos desapiedada e implacável de desprestígio para demonizá-los perante a opinião pública, e, perante a possibilidade de aproveitar em próximas contendas eleitorais os reditos obtidos do apoio sem contrapartidas de Iglesias, dedicou-se a buscar pretextos para evitar formar governo atrasando qualquer negociação até os últimos segundos e evitando dar-lhe a UP o poder e a representação no governo que em justiça lhe corresponde segundo os resultados eleitorais, e impondo um veto incompreensível e antidemocrático a Pablo Iglesias, porque não é uma pessoas que esteja implicado em nenhum ilícito moral, e, portanto é um veto totalmente arbitrário que implica vetar ao próprio partido de UP. A renúncia de Pablo Iglesias a ocupar ministérios colhe-o por supressa por ser uma decisão que não esperava e só posta com a finalidade de abortar a formação de governo.

                A investidura fracassou em julho, como era lógico nestas circunstâncias e com a finalidade de inviabilizar um acordo de cara à eventual formação de governo, agora dedicou-se a desdizer-se do que lhe concedera em julho a UP, reclama a monopolização total de todo o poder por parte do PSOE, apesar de não ter para isto nenhum aval da cidadania, e reserva-lhe aos de Unidas Podemos o rol de sacristães duma cerimônia que oficia o PSOE, com Pedro Sánchez de Sumo Sacerdote. Ao mesmo tempo, já leva tempo preparando um relato inventado que justifique a sua atuação de cara a novas eleições para que não seja óbice a incrementar a sua cesta de votos e, de passo, reforçar o bipartidismo e a monarquia parlamentar, por parte dos que se chamam republicanos, objetivos que também compartem com os poderes econômicos. É totalmente improcedente esta manobra por parte do PSOE porque a cidadania já votou e era factível conformar um governo e só se pretende favorecer os seus resultados eleitorais e dotar-se de sócios menos “problemáticos”, sem preocupar-lhe em absoluto o custo que isso representa para as arcas públicas, ou seja, para o dinheiro de todos os contribuintes.

                No caminho fica a perda duma grande dose de ilusão da cidadania por observar que as esquerdas não são quem de pôr-se de acordo; a perda dum tempo magnífico para começar a resolver os problemas do país, do que se conclui que os políticos estão empenhados em demonstrar que eles não servem para nada e que perder um ano entre pitos e flautas sem fazer nada não se nota num país; um monto importante de dinheiro perdido inutilmente em gastos eleitorais prescindíveis; o problema que representa para qualquer votante de esquerdas pensar que os partidos aos que poderia votar quiçá não sejam capazes de pactuar tampouco no futuro; a dificuldade de apresentar aos seus votantes um relato coerente e crível sobre o que se pensa fazer no futuro e um problema de distribuição do poder territorial no estado espanhol ao que não são capazes de dar solução e só se oferece como alternativa a pura repressão. E depois queixam-se do desapego e desafeição dos nacionalistas periféricos cara a essa Espanha que proclamam única e indivisível.

A eutanásia


A palavra eutanásia deriva de dous termos gregos: eu, que significa bem, bom, boa, e thanatos, que significa morte. Portanto, a expressão completa significa boa morte, que nos nossos dias se chama morte digna. Em realidade não se refere ao ato psicofisiológico mesmo de morrer, senão ao tempo de vida que precede a morte, quando esta se considera já inevitável e de curta duração, acompanhada de fortes dores, quando se trata duma vida desvalorizada, como no caso de Ramón Sampedro, ou duma existência inconsciente, como a duma pessoa em estado de coma de coma irreversível que pode que não sofra, mas que é obrigado mantê-la com vida artificialmente apesar da sua insensibilidade, dos sacrifícios dos seus achegados e das fortes despensas que isso implica para a coletividade e que repercute num pior serviço para os demais doentes.

            Igual que os outros temas morais, o da eutanásia refere-se aos valores e, portanto, a um mundo muito distinto do mundo dos factos, do que existe, e referente a eles sempre cabe a disparidade de opiniões, porque as proposições relativas aos valores não se podem submeter a contrastação científica. Dizer isto não significa que dependem do arbítrio puramente subjetivo das pessoas, algo parecido ao que passa nos gostos, a respeito dos quais se diz que não há nada escrito. Se uma pessoa manifesta que ela gosta da cor vermelha, carece de sentido que alguém trate de convencê-la de que lhe deve gostar a amarela. Nos valores morais não acontece isto, senão que se uma pessoa manifesta que prefere um mundo no que os brancos têm mais direitos que os negros, sempre podemos intentar convencê-lo de que a sua opinião não é a correta, e portanto, aceitável, recorrendo a uma série de argumentos tirados da etnologia, psicologia, sociologia, lógica ou a ética. Isto não significa, por outra parte, que as proposições relativas aos valores sejam universais, de caráter absoluto e válidas para todo tempo e lugar, pois variam em função das condições socioeconômicas, políticas, e culturais da comunidade que lhes deu a vida. O quarto mandamento da Lei de Deus manda honrar aos pais, mas o conceito de pai não é agora essa autoridade veneranda de que fala a Bíblia, senão que um pai é um ator que interatua num plano horizontal muito mais igualitário com os seus filhos.

            Nos nossos dias a eutanásia costuma estar proibida em praticamente todas as legislações, proibição que foi imposta num tempo de forte influência das religiões na vida pública. Estas costumam suster que a vida é sagrada enquanto proveniente de Deus, e, portanto, o homem não pode fazer outra cousa que respeitar a proibição divina. Hoje a tese científica mais aceite em biologia afirma que a vida surgiu dum jeito espontâneo e azaroso na terra sem necessidade de nenhuma intervenção divina, e, por conseguinte, existe uma mentalidade mais receptiva a introduzir pequenos câmbios legislativos num tema sempre difícil e propenso ao abuso, se não se precisam muito claramente as circunstâncias em que pode levar-se a cabo, pois não se pode abrir a porta ao assassinato bem-dito pola lei.

            Quando se abre a porta à legalização da eutanásia levanta-se a questão de quem deve decidir sobre a sua legalização e se nesta decisão a pessoa tem algo que dizer ou se mantém a via impositiva atual na que a decisão individual não conta para nada. Deve ser a coletividade social por meio dos seus representantes, em base a «um homem, um voto», ou a coletividade social na que certos atores, individuais ou grupais, tem um voto qualificado? As religiões são organizações totalitárias, dito seja, sem ânimo desprezativo, ou seja, são instituições que pretendem abarcar todos os aspectos da vida do indivíduo, e, como seria de esperar não podiam deixar os últimos momentos em mãos da pessoa individual. Desde a Reforma protestante, o indivíduo constituiu-se em eixo da vida pública em detrimento da coletividade, e seria de esperar que os partidos políticos mais defensores do rol do indivíduo na vida pública, que são os partidos liberais, defendessem o direito do indivíduo a decidir sobre como deve ser a sua morte se se dão certas condições, mas os partidos políticos não se movem sempre pola coerência senão também polo interesse da sua massa de votantes, neste caso de tendência conservadora e mais receptivos à ideologia religiosa imperante. Isto leva a que direitos de caráter individual como o do aborto e da eutanásia sejam defendidos por partidos coletivistas, como são PSOE e UP,e não por partidos liberais como Vox, PP, C’s.

            A igreja católica, como tal, posicionou-se sobre a eutanásia por primeira vez no Concílio Vaticano II, na constituição Gaudium et Spes de 1965, na que considera que a eutanásia, igual que o homicídio, genocídio, aborto e suicídio deliberado, é moralmente inaceitável enquanto que é contrária à vida mesma. A este respeito cumpre dizer que é indicativo duma grande insensibilidade moral meter no mesmo saco infrações tão dispares como a do aborto e a do genocídio ou dum assassinato, igual que não se pode meter no mesmo saco a consideração moral da ação dum rouba galinhas que a duma pessoa que viola e mata uma mulher. Ambas são moralmente inaceitáveis, mas metê-las no mesmo saco só pode levar à confusão e a distorcer a realidade. Em segundo lugar, não toda ação contrária à vida é moralmente inaceitável, pois uma execução que implica a morte do reio também é contrária à vida, e, não obstante, a pena de morte sempre foi defendida polo catolicismo até tempos muito recentes, em base ao argumento de que há crimes que somente se podem coibir com a morte do reio, utilizando claramente um argumento teleológico ou consequencialista, apesar de que a igreja condenou o teleologismo moral ao que tanto recorreu na sua praxe histórica. Portanto, teria que explicar que num caso uma morte é boa e se bem-diz um mal para obter um bem, e, noutro caso, em que também se efetua um mal para conseguir um fim é moralmente inaceitável. Na sua história a igreja praticou homicídios a eito do que são um testemunho eloquente o que passou nas Cruzadas, a Inquisição, e as diversas guerras nas que ela interveu ou participou ativamente.

A igreja defende uma mística do sofrimento totalmente inaceitável por ser contrária à razão e ao anseio dum mínimo de bem-estar ou felicidade por parte dos seres humanos e inclusive diria que de todo o reino animal. Regodear-se do sofrimento alheio é um claro indicativo de masoquismo e de baixeza moral. Como diz Tomás de Aquino, o homem aspira dum jeito inato à felicidade e esta aspiração foi inserida nele polo seu criador, segundo a mesma religião cristã, e o sofrimento é inexplicável mesmo no projeto divino. Mas o que nunca se pode fazer é adotar uma mística do sofrimento que o bendiga e que insensibilize as pessoas perante o seu problema tanto no ser humano como em todos os animais que são capazes de sofrer, e perante o qual a instituição eclesial deu provadas mostras de falta de empatia. A igreja considera que a ação mais meritória de Jesus não foram os seus milagres ou a sua rebelião contra a injustiça, senão o seu sofrimento e morte na cruz em cumprimento dos desejos dum Deus sedento de sangue humana e desejoso de contemplar a submissão, rebaixamento, aniquilação e obediência das suas criaturas mais elevadas, para ressaltar o seu poder e a sua glória. Igualmente, as ações mais meritórias do santos não são as ações em benefício da comunidade, senão o seu sofrimento e, já como ato culmen, o martírio. Ë bem pequeno este Deus que necessita que tantos sofram e morram por ele. A Igreja não pode pretender que também todos os seres humanos sofram inutilmente pretendendo emular ao Cristo que sofre em contra da sua vontade.  

A igreja defende que nunca se devem interromper os cuidados ordinários que se lhe devem ao paciente, ainda que a morte seja iminente, por muito que este sofra ainda que sim se podem omitir os cuidados extraordinários onerosos, perigosos ou desproporcionados, sempre que o aceite o paciente ou os que decidem por ele. Admite o uso de cuidados paliativos, ainda que possam encurtar a vida do paciente, mas isto não resolve problema e não afeta a casos como o de Sampedro ou os dum doente em estado de coma.        

            Numa época como a atual, marcada pola noção de autodeterminação pessoal e de laicismo social, a eutanásia tampouco se pode deixar em mãos das confissões religiosas, inimigas viscerais de qualquer classe de auto-determinação sob o pretexto de que representam a voz do Altíssimo, e, portanto, a cidadania institucionalizada deve recuperar a sua voz e a sua decisão a nível comunitário para estabelecer um marco legal no que as pessoas concretas possam exercer o seu direito de autodeterminação sob certas condições. Esta autodeterminação deve desenvolver-se a um duplo nível: a) Como autodeterminação conjunta junto com todos os demais cidadãos para fixar o marco legal no que se insere a prática da eutanásia, e b) Autodeterminação individual para que a pessoa decida se quer ou não acolher-se a este marco ou decide sofrer estoicamente para seguir vivendo ou pôr fim a um sofrimento que considera inútil e sem sentido. Por conseguinte, qualquer cristão que quer imitar o sofrimento de Cristo, mas que tem, ao mesmo tempo, tendências democráticas não teria por que opor-se a esta regulação social da morte digna. O seu plano de vida fica respeitado e ele deve também permitir que o seja o dos demais, sem pretender impor a sua conceção ao resto da sociedade. Portanto, a decisão sobre os casos em que os cidadãos podem recorrer à eutanásia tampouco deve ficar ao albur de cada um dos cidadãos a título individual senão que deve ser obra de todos os cidadãos em referendo ou dos seus representantes políticos e desde logo num contexto democrático e participativo de todos. Numa sociedade plural como a dos nossos dias, somente uma ética de caráter laico pode dar, nos dias de hoje, uma resposta socialmente apropriada a este problema.  

22 jul 2019

Veto de Pedro Sanchez a Pablo Iglesias


            Não saio do meu assombro polas declarações de Pedro Sánchez a respeito do veto que lhe impôs a Pablo Iglesias para chegar a uma coligação de governo entre as  formações do PSOE e de Unidas Podemos, nas que, entre outras cousas, verteu acusações de grosso calibre contra quem pretende que seja o seu sócio de governo. Num primeiro momento considerei que se tratava pura e lhanamente duma censura da liberdade de pensamento e manifestação dum partido político do estado espanhol de tendência esquerdista e unionista, mas parece que não é assim porque, ao aceitar o PSOE a outros candidatos a ministros desse mesmo partido no governo, não afeta diretamente às ideias, senão que é um veto ad personam, um veto à pessoa física do líder dessa organização a título individual. Mas, se isto é assim, o que existe é uma incoerência entre esse veto ad personam e a explicação que deu Pedro Sánchez dos motivos polos que recusava a entrada de Pablo Iglesias no governo do Estado, pois disse claramente duas cousas: a) que o principal obstáculo para o governo de coligação entre as citadas formações é a pretendida entrada de Pablo Iglesias no governo; e b) que no governo não pode haver discrepância na ação de governo e não pode um defender a autodeterminação de Catalunha e, portanto, a celebração dum referendo para solucionar o problema das nacionalidades do Estado espanhol e outro coincidir totalmente com a direita mais centralista e espanholeira e defender a aplicação do artigo 155 para Catalunha, da que parece que se sente orgulhoso.

            Toda coligação, salvo em casos de cisões dum determinado partido, é entre formações dispares que concorrem desde a discrepância polo favor popular e não é legítimo obrigar-lhe a um partido a que renuncie aos seus posicionamentos e à sua manifestação pública. Na Galiza houve várias coligações da BNG com o PSOE tanto nos concelhos como na Xunta de Galicia, e sempre entraram os líderes de ambas as formações e nunca se pretendeu que um deles renunciasse ao seu ideário específico, muito diferente e irreconciliável enquanto ao modelo de estado. Então, porque o que é válido para as autonomias e concelhos não é válido para o governo de Espanha? É evidente que tem que produzir-se a confluência em determinados pontos concretos que constituem o programa do governo, que algumas formações têm recolhido nos seus estatutos que devem ser submetidos às bases, e não vejo porque alguém tem porque molestar-se se o faz, mas, além disso, cada qual deve ser fiel aos eleitores que votaram um determinado programa. Afirmar que Unidas Podemos não se pode coligar com o PSOE porque são formações dispares equivale a condenar a existência de coligações. O que não pode haver são discrepâncias nos pontos básicos recolhidos no programa de governo, mas em todo o demais cada um fica livre de manter defender e espalhar os seus posicionamentos.  

            Estas considerações conduzem a pensar que realmente o que teme Pedro Sánchez é a presença no governo dum líder de maior vigor intelectual e superior potência dialética como é Pablo Iglesias, que possa ensombrá-lo a ele pessoalmente, deixando-o em evidencia perante próprios e estranhos. Creio que nunca deveria tê-lo vetado e incluso deveria estar-lhe agradecido por tê-lo apoiado na moção de censura contra Mariano Rajoy sem pedir contrapartida de nenhuma classe e devia –cortesia obriga- dalgum modo devolver-lhe este favor, mas em vez disso, responde-lhe com um veto pessoal, Nunca melhor aplicado o refrão:galego: «Assim paga o demo a quem bem o serve». A atuação de Pedro Sánchez no processo para conformar governo esteve cheio de confusões, incoerências e contradições. Um dia permitia a presença de ministros e ao dia seguinte falava de carregos intermédios, mas sem chegar nunca ao nível de ministros, para volver de novo a cargos ministeriais ocupados por independentes, etc. Ninguém sabia realmente o que pretendia e por que desde o 28A não movera um dedo para avançar realmente nas negociações de formação de governo em vez de mover-se por taticismos estéreis. Ao meu juízo a estrela de Sãnchez esmorece perante a cidadania porque não é de recibo que se ponham vetos a pessoas nominalmente sem razões pessoais que o justifique, como pode ser um caso de corrupção e foi uma inovação deste político espanhol ao anais da história, pois nunca, que se saiba, foi vetado nenhum governante pessoalmente sem nenhuma tacha de indignidade ou corrupção pessoais.

            Botou-lhe em cara Pedro Sánchez a Pablo Iglesias que não defendera a democracia espanhola, que não significa que ele, ou seja Pablo Iglesias, não seja democrata, senão que não defende a especificidade da democracia espanhola, que, no fundo não indica outra cousa que a maneira espanhola de gerir os assuntos públicos, discordante em muitos pontos cardinais com a democracia sem qualificativos. Ele veu a ligá-la com a defesa do 155, com negar a realidade de que uns políticos que foram encarcerados por questões políticas sejam presos políticos, senão que cumpre imitar aos políticos do 155 e deformar a realidade afirmando que somente são políticos presos, apesar de que ninguém foi capaz de observar o delito que cometeram. É evidente que não existe democracia espanhola, senão democracia, e falar de democracia espanhola por parte dos políticos espanholeiros somente pode querer indicar que há uma maneira específica de interpretar e limitar a democracia por parte deles, precisamente para negar todas as suas virtualidades. Falam de democracia avançada quando a cúspide do Estado é ostentado por um rei posto por um dos significados ditadores do século XX, o general Franco, e não permitem que seja convalidado polas urnas, não seja que o povo o licencie; duma monarquia da que ninguém pode investigar as suas corruptelas nem sequer saber em que emprega o dinheiro que os cidadãos sevem obrigados a entregar-lhe dum salário insuficiente.

            Considero que Unidas Podemos tem todo o direito de estar no governo se o considera oportuno, mas duvido que realmente lhe seja interessante estar nele. Os começos das negociações, cheios de incógnitas sobre os seus resultados, não são muito estimulantes e quiçá isto desilude ainda mais aos próprios seguidores de ambas as formações. Com Rivera chegara facilmente a um acordo em tempo recorde, mas agora todo são problemas. A companhia dum partido tão jacobino como o PSOE, que já parece que renunciou incluso a uma reforma da constituição em clave federal, vai influir muito negativamente na consideração do problema nacional no Estado espanhol por parte de Unidas Podemos, porque vai sempre preferir governar em Madrid que contribuir a solucionar o problema territorial do Estado. Se a correlação de forças entre PSOE e Unidas Podemos variasse quase seguro que o PSOE obrigaria ao seu sócio majoritário que não se avançasse no reconhecimento do direito de autodeterminação, e todo isto deveria constituir uma chamada de atenção para formações como Anova, que pretende que o problema territorial lho dêem solucionado os partidos estatais em vez de lutar com os outros nacionalistas para premir o estado a que se solucione duma vez.    


8 jul 2019

Anova, rara avis


                Anova é uma rara avis, um caso singular, no panorama nacionalista periférico espanhol e quiçá também a nível internacional. Em Marea, na que estava integrada ANOVA, atualmente em fase de clarificação, apresenta-se dividida em duas obediências, a villarista, na que desembocaram a maior parte das hostes da formação e que parece que se dotaram duma coesão interna e um programa coerente de obediência galega, e a de obediência beiro-sanchista, que pretende continuar dando tombos cara a nenhures. Esta cisão de Anova não é nova, senão que vem precedida na história da formação pola cisão, pouco depois da sua fundação, dos norieganos e os cernistas, cisão que reproduzir-se-ia de novo em AGE, entre o sector de ANOVA e o de EU (Esquerda Unida) que se saldou com a desaparição desta formação e a sua substituição pola de En Marea, coligação que terminou também como o rosário da aurora. Os que protagonizaram esta história não são o melhor referente de cara ao futuro.

                ANOVA foi maltratada por Unidas Podemos de cara às eleições do 28/04/2019 que a deixaram sem possibilidade de escano na província de Pontevedra, em benefício de IU, o qual motivou que não se apresentasse às eleições ao Congresso. Assim lhe paga IU a quem o ressuscitou como ator político no panorama galego, proeza que lhe corresponde aos primeiros líderes de ANOVA. As eleições municipais do 26/05/2019 constituíram um duro varapau para os setores enfrentados, tanto o liderado polos alcaides de A Corunha, Ferrol e Santiago como o liderado por Villares. Nesta tessitura, o problema com o que se enfrenta ANOVA que rachou com o setor de Villares, é: cara a onde caminhamos? Esta pergunta querem resolvê-la este verão, mas os seus líderes já apontam algumas ideias ao respeito, sem ter feito previamente uma análise séria do corretivo da cidadania à sua maneira de proceder e às suas constantes rixas polo poder arejadas a través dos mídia. Não tem sentido nenhum vir agora a dizer que têm o vinte por cento de apoio não só no país senão nem sequer nas cidades que regiam.

                Consideram como prioritário rachar com o regime do 78 e, em consequência, lutar com os que se aprestem a trabalhar nesta direção a nível estatal, ou seja, cara a Unidas Podemos. Teoricamente não abandonam o soberanismo, mas na prática fica ferido de morte. Implicar-se na transformaç4ao dum estado pressupõe que se aceita este estado e, portanto, que o soberanismo é uma mera pose. É um claro erro de perspectiva considerar que, polo facto de que no Estado espanhol se instaure uma república, o problema galego deu um passo adiante cara a sua solução. Uma República como a francesa continua, intensificada agora com Macron, a repressão contra os povos que formam parte da República Francesa, como os corsos, bretões,occitanos,... Logo, a solução não virá de por si da república, senão em todo caso duma república determinada, duma república construída desde os povos e para isto estes devem devir autoconscientes dos seus problemas e fortes para poder impô-los a nível social. Por outra parte, parece uma jaimitada pretender derrubar um regime que neste momento não amostra sintomas de debilidade apesar dos problemas da enorme corrupção pestilente desde um pequeno partido periférico com um cento de afiliados pouco mais ou menos. Ademais, é que acaso vai ser mais decisivo na luta contra o regime do 78 ANOVA ou incluso Unidas Podemos que ERC ou Junts per La Republica, PNV, Bildu, BNG, etc. que são partidos netamente nacionalistas e que sabem a onde querem ir?

                Dizem os dirigentes deste partido que eles não estão para ser uma para mais do nacionalismo galego, ao que parece que olham com desprezo, mas em vez de pata do nacionalismo galego, convertem-se em rabo do nacionalismo espanhol de Unidas Podemos, um partido unionista, que por necessidade da sua estratégia política deixará na cuneta às primeiras de câmbio aos seus mini-sócios galegos. Hoje mesmo, 7-07-2019, acaba de sair na imprensa que Unidas Podemos se compromete por escrito perante o PSOE a ser bom rapaz e não discrepar da solução do deste partido do 155 para o problema catalão, com o qual teríamos ao partido de ANOVA convertido indiretamente em cúmplice da aplicação das políticas dos jacobinistas do 155 para o caso catalão.

                O anterior não é um relato exagerado nem de ficção, senão que o que passou já na legislatura anterior foi que estes soberanistas de ANOVA atuaram de comparsas de Unidas Podemos no Congresso dos Deputados, deixando a Galiza como um povo surdo e mudo nas Cortes do Estado. A confluência de novo com este partido de âmbito espanhol volveria a deixar sem voz e sem capacidade de decisão nenhuma a um minúsculo partido como ANOVA, que parece que quer demonstrar que só nasceu só para fazer seguidismo do unionismo rampante. Compromis pel País Valencià teve uma atuação muito coerente e com voz própria, enquanto que En Marea terminou por marear a todos, deixando sem voz aos seus próprios votantes, que esperavam que defendesse nas Cortes do Estado propostas específicas para o nosso país.